"Talvez este seja o programa mais perigoso da televisão". O aviso foi da Showtime (casa de títulos como Dexter, Homeland, Weeds, Californication ou Masters of Sex, só para citar alguns), aquando a apresentação deste seu projeto surpresa. Volvidas duas semanas, quebra-se o silêncio para apresentar Who Is America? [Quem é a América?, em tradução livre em português] — uma série satírica de sete episódios, filmada no decorrer de 2017, envolta num grande secretismo e que foi mote para o regresso de alguém que esteve afastado por algum tempo: Sacha Baron Cohen.

A fórmula não é nova, nem inédita. Especialmente para o protagonista em questão. Foi através das suas várias e polémicas personagens — do atrapalhado repórter Borat, ao apresentador de tv e rapper Ali G, passando pelo homossexual austríaco Brüno — que Sacha Baron Cohen se celebrizou, enquanto ia apanhando a descoberto políticos, celebridades ou meros civis, criando um ambiente ou situações que muitas das vezes roçam o absurdo.

E para provar que a fórmula não está esgotada, é nestes moldes que Sacha Baron Cohen regressa ao pequeno ecrã, depois incursões pelo cinema menos bem-sucedidas, passando por O Ditador (2012), Brüno (2009) e Irmãos e Espiões (2016). Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão (2006) foi a exceção.

O Showtime, canal emissor do programa nos Estados Unidos, só deu a conhecer Who is America? uma semana antes de este ir para o ar. O secretismo justificava-se para dar a Cohen o tempo de preparação e de rodagem para apanhar os seus alvos desprevenidos. Mesmo os críticos de TV só tiveram oportunidade de ver o conteúdo 24 horas antes de todos os demais.

Como escreve a VOXWho Is America? soube tornar-se relevante sem gastar um único cêntimo em publicidade, bastou-lhe ser polémica o suficiente. "No processo de produzir Who Is America? , Baron Cohen entrevistou disfarçado uma variedade de políticos proeminentes e figuras mediáticas, conseguindo que dissessem coisas ridículas. Agora, eles [os entrevistados] queixam-se de ter sido enganados, com o ex-senador do Alabama, Roy Moore, a ameaçar processar Baron Cohen por difamação. (...) E por cada indignação, por cada ameaça de processo, Who Is America? recebe mais atenção do que a Showtime alguma vez conseguiria pagar".

Em 2018, uma das visadas na sua sátira é a ex-candidata republicana à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin. Esta explicou que foi convidada a ir Washington para dialogar com um veterano de guerra em cadeira de rodas, que, na verdade, era Sacha Baron Cohen. A ex-governadora do Alasca repreendeu o produtor e argumentista por ter, nesta ocasião, "feito pouco daqueles que lutaram e serviram o nosso país", mas decidiu não avançar para a Justiça.

Também Ted Koppel, jornalista com várias décadas de experiência, revelou sentir-se injuriado com aquilo que lhe foi feito (e explica como tudo lhe aconteceu).

David Nevis, CEO do canal, considera Sacha "é um génio cómico que choca pela sua audácia, coragem e criatividade". E teve aquilo que prometeu: polémica.

Cohen 1, 2, 3 e 4... 

Who Is America? tem por base quatro novas personagens do autor de Ali G. Quem está familiarizado com o formato de Da Ali Show, sabe o que está em jogo: Cohen conduz várias conversas, encarnando os seus alter-ego, em situações reais e com o intuito de provocar as reações mais absurdas (e genuínas) dos seus entrevistados.

Em Who Is America? existem quatro personagens, cada qual com um segmento especial, cada uma delas com o seu respetivo reality-show dentro da série. O seu contexto conforme apresentado no primeiro episódio.

1.

A abrir, temos Billy Wayne Ruddick Jr., um conspirador com excesso de peso que, para além de exibir uma peruca loira e ser defensor de Donald Trump, escolhe como meio de locomoção uma scooter elétrica — não efetivamente porque dela necessite, mas porque desta forma “poupa energia” às suas “grandes e gordas coxas”. Billy vai tentar que Bernie Sanders critique o Obama Care (a lei de acesso aos cuidados de saúde do ex-presidente, Barack Obama).

Mas criar uma personagem é mais do que mudar de visual e adotar um sotaque. Correm rumores de que Cohen está por detrás do site Truthbrary.org, “um site livre para a verdadeira América e para os americanos que gostam da verdade”, da responsabilidade do “jornalista” Dr. Billy Wayne Ruddick (alter-ego de Cohen). Este é o perfeito exemplo de como Cohen cria um ecossistema rebuscado, capaz de enganar os seus entrevistados.

Refira-se, por exemplo, que o dr. Billy Wayne Ruddick não descora a sua presença nas redes sociais e tem página no Facebook e no Twitter — ambas ativas, para além do referido website. O The Truth LieBrary [uma sátira que combina a palavra lie, que significa mentira, com a palavra library, biblioteca] dá corpo às ideias desta personagem satírica e, revela o The Guardian, muito se assemelha ao tipo (e forma) de conteúdo publicados em sites como Infowars ou Breitbart.

Porém, escusado será procurar por uma biografia de Ruddick no site — não existe, assim como a própria persona. Mas a lista dos tópicos disponíveis espelham bem a ideologia do conteúdo partilhado e da responsabilidade do “jornalista”. Alguns exemplos:

  • Obama é queniano
  • Os liberais odeiam o Oeste
  • 9/11
  • 9/11 Aviões Torres Gémeas
  • 9/11 Mais Razões
  • 21 Objetivo dos Illuminati
  • Hillary é uma Illuminati Satã
  • Área Roswell 51
  • Obamanoids — A sério!
  • Agente Secreto da CIA que viaja no Tempo
  • Elite Satânica de Hollywood
  • Aliens / Pirâmides

2.

Sai Bernie Sanders de cena, entra um casal anónimo e um novo anfitrião. É então surge Mork Thompson, um democrata no sentindo mais lato possível da definição, que se apresenta como sendo “branco, cisgénero, pelo que peço desculpa” [for which I apologize]. Mork tem um rabo-de-cavalo, veste uma camisola da NPR (Rádio Nacional Pública dos Estados Unidos), vive num yurt (uma espécie de tenda circular, usada comumente na Ásia central) e tem como descendência um casal: um filho chamado Harvey Milk e Malala. Mork decide partilhar uma refeição em casa de um casal altamente conservador. O resultado? Revelações chocantes, umas mais grotescas que outras.

3.

No terceiro segmento, Cohen dá vida a Rich Sherman, um ex-recluso que acabou de sair da prisão, após cumprir uma sentença de 21 anos, e que procura continuar a vida “cá fora” como artista. Sherman entra numa galeria em Laguna Beach, na Califórnia e explica o seu sonho e os seus objetivos a uma mulher. Ela é alta, bonita, loira, alegadamente percebe de arte e tem sempre um sorriso aberto. Até aqui, tudo bem, o problema é quando Rich Sherman lhe propõe obras de arte feitas a partir de sémen e fezes. As críticas quanto este personagem estão um pouco divididas: há quem diga que é o mais aborrecido, há quem seja da opinião contrária. Mas é certo que se trata do menos político de todos — no que ao primeiro episódio diz respeito, pelo menos.

4.

Matar ou morrer. O último personagem — e aquele cujo segmento foi disponibilizado na íntegra e legalmente no YouTube — é Erran Morad, um ex-coronel do exército israelita, interpretado por Cohen. Morad encontra-se nos Estados Unidos com o intuito de aprender mais sobre a política de armas do país e para dar o seu apoio incondicional à Segunda Emenda (o direito à posse de armas de fogo). Este é talvez o personagem e o segmento mais polémico de Cohen em Who Is America?, ao ponto de conseguir colocar membros do Congresso que apoiam  o lobby das armas, a dar apoio ao seu programa “Kinder-Guardians” — que não é mais do que um spot publicitário onde se ensinam crianças a manusear armas de fogo. Convém lembrar por esta altura que os intervenientes não sabiam que estavam a participar numa sátira, pelo que defender "a sério" dar armas a crianças de 3 anos é, por si só, o suficiente para fazer estalar a polémica, e claro, o debate — "Porque a melhor maneira de travar um homem mau armado, é uma criança boa armada".

As críticas

Para a VarietyWho is America? é um programa onde se pode encontrar a “magia de Baron Cohen no seu melhor”. Em apenas dez minutos, Cohen não só revela um profundo conhecimento da América como é capaz de convencer os seus incautos alvos a participar.

O Indiewire, mais crítico, escreve que Who Is America? é exatamente aquilo que se podia esperar de Cohen, sem a frescura que Da Ali Show trouxe no início do milénio por ser surpreendentemente incisivo numa era onde não se tinha o receio de estar sempre a ser gozados ou de ser alvo de uma partida. Hoje, qualquer murmúrio em falso poderá ser satirizado em formato meme ou cair na Internet. Naquela altura, era algo fresco e inesperado — e resultava por isso.

Todavia, na opinião da Collider, um dos problemas da nova série, é que já se sabe a resposta à questão levantada por Cohen [Quem é a América]. E essa foi dada por Donald Glover há dois meses, quando o seu Childish Gambino provocou um terramoto na Internet com o seu "This is America" [Isto é a América].

Por cá, Sacha Baron Cohen vai continuar a “explorar diversas personalidades, das mais infames às mais desconhecidas, do singular espetro político e cultural norte-americano”, no canal TV Séries, que irá exibir Who is America? aos domingos às 21:30.


Artigo atualizado às 10:59 de terça-feira, dia 24 de julho. Corrige o nome de Sacha Baron Cohen. 

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