Sob um sol escaldante, o trabalho começa pouco depois das 06:00 e durante 10 horas por dia obriga a acarretar às costas dezenas de litros de água, necessária para ajudar a preparar a terra, uma espécie de lama trabalhada à força de braços e de pés.

Neste bairro do município do Caxito, província do Bengo, a generalidade das casas são feitas com tijolos de adobe, historicamente tido como o antecessor do tijolo de barro e de produção totalmente artesanal. A crise levou muitos a deixar os blocos de cimento e a voltar a esta construção tradicional, técnica que a família de Mariano Albino, de 16 anos, usa há gerações nas próprias casas.

“Primeiro capinamos, depois cavamos a terra. Depois de cavar, acarretamos água, molhamos e amassamos. Com pé, mão e enxada”, explica o jovem, que, por estes dias, na companhia de um amigo, está a preparar tijolos de adobe para acrescentar um quarto à sua casa.

Além disso, tem em mãos uma encomenda para uma outra casa no bairro, que com uma cozinha e dois quartos pode precisar de até 1.200 tijolos, cada um vendido a 30 kwanzas (cêntimos de euro). Contas feitas, em tijolo, uma casa de adobe pode ficar por 36.000 kwanzas, equivalente a cerca de 120 euros.

“É para quem não tem dinheiro para comprar o bloco e vem comprar em adobe. Protege do frio e da chuva, mas se não está bem cimentada, com a chuva começa a derreter”, alerta Mariano, que há mais de um ano está neste ofício.

Depois de preparado o adobe, amassando a terra crua envolvida em litros de água para depois ser colocada na forma, os tijolos podem levar até cinco dias a secar, naturalmente, embora em algumas zonas esse processo seja reforçado com o forno.

Flávio António Neto, de 18 anos, começou a trabalhar a terra, na margem do rio Dande, juntamente com Mariano, eram 06:00. Até às 16:00 ainda vai fazer dezenas de viagens com bacias de água às costas. “É um trabalho muito cansativo”, desabafa, assumindo que já perdeu as contas das viagens que faz por dia, para transportar água. “Não contamos, só acarretamos”, atira, em conversa com a Lusa numa pausa de um trabalho que, confessa, preferia não ter. “Gostava de fazer outra coisa. Isto custa muito”, diz.

A algumas dezenas de metros, igualmente junto ao rio Dande, um outro grupo prepara a terra que dentro de uma semana sairá na forma de tijolo de adobe. Gomes Bosé, de 17 anos, está há dois anos num “ramo” cuja arte aprendeu com o pai.

“Via como ele fazia, depois vim para aqui, experimentei e graças a Deus os adobes estão a sair bem”, conta, enquanto ultima uma encomenda de 1.000 tijolos de adobe, para uma casa no mesmo bairro.

Prevê vender cada tijolo de adobe a 20 kwanzas (seis cêntimos de euro), pelo que a casa ficará por 20.000 kwanzas, o equivalente a cerca de 70 euros. Tudo com recurso a materiais locais, da terra à forma do tijolo.

“É uma casa barata”, reconhece o jovem, que conta com a ajuda, por entre brincadeiras, de várias crianças do bairro, que se juntam a amassar e a preparar a terra.

A escolha da terra e o processo de secagem são as tarefas mais importantes para garantir a qualidade do tijolo, como explica o colega, Emílio Pedro, de 18 anos.

“Cavamos, molhamos, tiramos do buraco, para começarmos a formar. É um trabalho que custa muito, é preciso ter muita força, de ser homem mesmo”, brinca.

Ao mesmo tempo, admite que é o único trabalho que arranja e que sempre permite levar “algum dinheiro” para casa dos pais.

“Vai dando para viver e para ter uma casa”, remata.

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