É o que está a acontecer, por exemplo, com Rosa Rodrigues, a fabricante do pão-de-ló húmido de Ovar que, depois de fazer a conta às encomendas registadas até ao Domingo de Ramos, interrompe a confeção para declarar à Lusa: “Claro que vão aparecer clientes à última hora, daqueles que deixam tudo para o fim, mas, por esta altura, ainda só vendi metade do que já tinha vendido no ano passado”.

O preço atual mantém-se nos 15 euros por quilo, mas justo seria praticar os 18 que estão a ser cobrados por outros produtores. “Fazia mais sentido, já que os ingredientes aumentaram muito, mas a mim custa-me passar além dos 15 euros, porque, de outra maneira, o pão-de-ló fica uma exorbitância”, defende Rosa, preferindo assim ser ela a perder parte da sua margem de lucro.

Essa perda é inevitável face ao nível da inflação: os ovos subiram “40 cêntimos a dúzia”, o açúcar também aumentou uns 20% e um saco de 25 quilos de farinha “passou de 11 euros para 19”, o que representa um agravamento na ordem dos 75%.

A novidade que tem ajudado ao negócio de Rosa é o pão-de-ló sem glúten, lançado no início do ano e já premiado num concurso de gastronomia. Surgiu “a pedido de muitos clientes” celíacos e intolerantes, e vende-se a 16 euros o quilo, o que, face à habitual diferença de preço entre um produto de confeção normal e o seu equivalente sem trigo, “até é barato”.

“Como é só 1 euro de diferença, para o cliente intolerante ao glúten realmente compensa. O produto é muito parecido com o pão-de-ló de Ovar normal, também fica húmido e não se encontra em qualquer lado”, realça a criadora da receita.

Por Arouca, ainda não há versões para celíacos, mas nas instalações do fabricante  A. Teixeira Pinto há este ano outras novidades para ajudar ao negócio, como um folar doce simples e outro com frutos secos e sementes. As receitas são da avó de Tiago Brandão e foram “melhoradas” entretanto, partilhando agora as vitrinas da loja com amêndoas e outros mimos da Páscoa, “para que o cliente encontre tudo de que precisa numa viagem só e não tenha que ir aqui e acolá para encontrar o que quer”.

Aumentar e diversificar a oferta é uma estratégia para contornar “o medo”, que parece estar generalizado. Nas encomendas individuais, os efeitos da inflação não se notam muito, “porque o cliente de Arouca continua a querer ter um pão-de-ló na mesa da festa”, mas nas remessas para distribuidores, dispersos um pouco por todo o país, a cautela é mais evidente.

“Há revendedores que, em vez de nos comprarem 200 pães-de-ló como antes, agora só nos pedem 150, com medo de que a procura diminua”, explica Tiago.

Mesmo assim, a casa “começa hoje a bombar” na produção dos dois pães-de-ló típicos de Arouca, um na versão seca – redondo, com um buraco ao centro e o topo coberto de glacé – e o outro disponível em fatias quadradas – embaladas individualmente após imersão numa calda de açúcar.

Os preços aumentaram “só no início no ano, um bocadinho”, e desde então continuam inalterados, “para não se perder o cliente”. Isso significa, contudo, que o fabricante vai ter que reduzir a própria margem de lucro, porque o custo dos ingredientes passou a ser “o descalabro total” e, se em alguns casos a inflação é justificada, noutros o aumento deve-se apenas “ao abuso de revendedores que se aproveitam da situação para cobrar valores escandalosos – mesmo por coisas que ainda compraram ao preço antigo”.

Tiago diz que “alguns desses fornecedores já foram despachados”, mas admite que a prospeção de quem os substitua também lhe vem custando tempo e dinheiro. “A pesquisa dá muito trabalho e não estamos a refletir isso no preço final, porque continuamos a praticar os 14,5 euros por quilo, quando devíamos cobrar pelo menos 16, à vontade”, garante.

O tom, ainda assim, é de otimismo. “Queremos fazer mais umas 5.000 fatias de pão-de-ló até à Páscoa”, antecipa o produtor, ao mesmo tempo que apela a que o consumidor não se iniba de saborear doces.

“Primeiro tivemos a covid e foi o que se sabe; agora temos a guerra na Ucrânia e parece que está para durar… Nunca sabemos o que nos vai calhar amanhã, portanto o melhor é aproveitar cada dia e saborear tudo o que nos apetece”, aconselha.

*Por Alexandra Couto, da agência Lusa

[Notícia atualizada às 19:23]

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