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Episódio 2: Como assim uma largada de touros se as festas estão proibidas? Assim, de bicicleta

Encontrámos esta história no início de julho, numa calma rua do Montijo que noutro ano estaria cheia de gente e coberta de terra. É assim normalmente durante as festas da cidade. Este ano, com a pandemia tudo foi diferente. Não houve música, nem procissão. Nem as habituais largadas de touros. Mas a tertúlia “O Aldeano” arranjou uma solução de consolo: uns cornos, muita fita-cola e uma bicicleta.
Episódio 2: Como assim uma largada de touros se as festas estão proibidas? Assim, de bicicleta
Fotografia: Margarida Alpuim | Ilustração: Rodrigo Mendes

Ouça aqui o segundo episódio da série "O que se ouve quando o país pára":

Fomos ao Montijo (distrito de Setúbal) no dia 1 de julho. Seria o último dia das tradicionais Festas Populares de S. Pedro, não fora as festividades locais terem sido canceladas por causa da pandemia — aliás, como aconteceu por todo o país.

Diz-nos quem é de lá que em qualquer outro ano haveria música e fogareiros espalhados pela cidade, feira com carrosséis e farturas, becos enfeitados e uma rua coberta de terra onde a multidão se juntaria para as largadas de touros.

Desta vez, encontrámos uma terra silenciosa, de praças vazias e muitas portas fechadas.

"O que se ouve quando o país pára"

Episódio 1: O silêncio das pedras mortas

Episódio 2: Como assim uma largada de touros se as festas estão proibidas? Assim, de bicicleta

Episódio 3: E tudo correu bem, para eles e para os morangos

Episódio 4: “Um gajo sempre andou aqui. Tem saudades disto”. A história de Ivo e dos outros que ficaram longe do mar

Episódio 5: Eles já lá estavam, mas quando nos fechámos em casa é que os vimos melhor

Episódio 6: “A gente sentir-se só é muito triste”. Quando as portas se fecharam, só sobrou silêncio na vida de Alzira e Maria das Dores

Episódio 7: “Estamos aqui no paraíso, o vírus não tem cá que fazer”

Enquanto caminhávamos no centro, praticamente deserto, o barulho de uma grande agitação por detrás de uma janela entreaberta despertou-nos a curiosidade.

Metemos a cabeça. Fomos recebidos pelo esganiçado ladrar de um cão sem tamanho para tanto alarido. Atrás dele, uma voz perguntou quem éramos e convidou-nos a entrar.

Prontamente aceitámos o convite, até porque a casa já nos tinha chamado a atenção ao longe. A porta, muito estreita e desengonçada, fazia parte de uma fachada colorida.

Ficámos a saber depois que estávamos a ser recebidos por Joaquim da Maia - figura conhecida da terra - e que tínhamos acabado de entrar na tertúlia “O Aldeano”, um dos vários grupos típicos do Montijo criados por amigos e famílias para viver as festas em conjunto.

Joaquim da Maia, um dos responsáveis pela tertúlia "O Aldeano", filma o seu neto Pedro numa bicicleta apetrechada com cornos a simular uma largada de touros. Por causa da pandemia, as festas populares da cidade foram canceladas e não houve largadas como é habitual. créditos: Margarida Alpuim | MadreMedia

A primeira coisa que vimos assim que os olhos se habituaram à escuridão do corredor levar-nos-ia a ficar com aquele grupo até depois das 21h. Essa era a hora a que iam fazer mais uma largada.

Como assim largada se as festas tinham sido canceladas, os ajuntamentos estavam proibidos e a esquadra da polícia era logo ali cinco números ao lado?

Sem festas populares mas com o espírito tauromáquico entranhado, os mais novos tinham transformado duas bicicletas em touros improvisados — à conta de dois pares de cornos e muita fita-cola — e todos os dias ao final da tarde faziam na calçada as alegrias dos poucos que se podiam juntar.

A euforia do ambiente dentro e fora daquela tertúlia, essa só dá para perceber ouvindo o episódio desta semana. Clique no player no início do artigo.

Para a semana, viajamos até ao norte do país, onde haverá gargalhadas de crianças e uma mini aventura com toupeiras.


“O que se ouve quando o país pára” é uma coleção de histórias e de sons que nos mostram como a vida das pessoas e dos lugares foi afetada quando Portugal parou por causa da covid-19.

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Rosalina Maia, mulher de Joaquim da Maia, à porta da tertúlia "O Aldeano", no Montijo. À frente dela, o borladero com o símbolo da tertúlia. O borladero é a barreira usada para proteção das pessoas à passagem do touro. Esta é a rua onde habitualmente se fazem largadas de touros nas festas da cidade. créditos: Margarida Alpuim | MadreMedia

Bar e sala de convívio dentro da tertúlia "O Aldeano". créditos: Margarida Alpuim | MadreMedia

Poste perto da tertúlia "O Aldeano" (com o cineteatro por trás) enfeitado pelas pessoas da terra para lembrar um dos elementos da comunidade que ali morreu o ano passado na altura das festas. créditos: Margarida Alpuim | MadreMedia

Avenida dos Pescadores, no Montijo, quase sem movimento, no dia 1 de julho deste ano. Este seria o último dia das festas populares da cidade, que foram canceladas por causa da pandemia. Normalmente, a avenida teria muito movimento nesta altura do ano. créditos: Margarida Alpuim | MadreMedia

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