“A pandemia de covid-19 constitui um grande desafio mundial - para toda a comunidade internacional, para o multilateralismo e para mim, enquanto secretário-geral das Nações Unidas. Infelizmente, é um teste que, até ao momento, a comunidade internacional está a falhar”, disse António Guterres em entrevista, por escrito, à agência Lusa, por ocasião do 4.º aniversário da sua aclamação pelos 193 Estados-membros da Assembleia-Geral para o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), a 13 de outubro de 2016.

“Morreram já mais de um milhão de pessoas e mais de 30 milhões foram infetadas, porque não se verificou um nível de coordenação suficiente na luta contra o vírus”, enfatizou o ex-primeiro-ministro português.

O secretário-geral da ONU frisou que a atual crise sanitária mostrou “sem sombra de dúvida” a fragilidade do mundo atual, lamentando a falta de demonstração de uma “solidariedade necessária” para com os países que, sem apoio, não podem sobreviver ao impacto económico e social da pandemia.

“Se não forem tomadas medidas fortes e coordenadas, um vírus microscópico pode empurrar milhões de pessoas para a pobreza e a fome, com efeitos económicos devastadores nos próximos anos”, sublinhou.

Nas declarações à Lusa, António Guterres afirmou ter “orgulho” no trabalho desenvolvido “pela família das Nações Unidas” que se mobilizou para “salvar vidas, controlar a transmissão do vírus e aliviar as consequências económicas”.

“Enviámos equipamento para mais de 130 países, na ordem das centenas de milhão de unidades; proporcionámos educação a 155 milhões de crianças e formámos quase dois milhões de profissionais de saúde e comunitários”, referiu.

Mas, e apesar da gravidade da atual crise da doença covid-19, António Guterres advertiu que a fragilidade global “é o verdadeiro desafio” que o mundo enfrenta, e essa “vai muito além da pandemia”.

E enumerou: “A crise climática já está a causar estragos em alguns países e regiões, e não estamos no caminho certo para implementar o Acordo de Paris [sobre as alterações climáticas]. Criminosos e terroristas estão a explorar ‘áreas cinzentas’ na regulação do ciberespaço. O regime de desarmamento nuclear está a enfraquecer e o risco de proliferação está a aumentar. A xenofobia e o discurso de ódio estão a envenenar o debate democrático”.

“Portanto, a pandemia deve ser um sinal de alerta. A resposta exige unidade e solidariedade, que possibilite uma recuperação forte baseada em comunidades e economias resilientes e sustentáveis, e permita enfrentar os outros seriíssimos desafios que enfrentamos”, concluiu.

Guterres reconhece “enorme frustração” perante “falta de unidade” internacional

“É, para mim, motivo de enorme frustração a falta de unidade da comunidade internacional na procura de soluções coerentes para os principais desafios mundiais, incluindo, entre outros, os conflitos que se arrastam no Afeganistão, Iémen, Síria”, disse António Guterres em entrevista, por escrito, à Lusa, poucos dias depois de terem passado quatro anos da sua aclamação pela Assembleia-geral da ONU para o cargo de secretário-geral daquela organização (a 13 de outubro de 2016), função que assumiria poucos meses depois, em janeiro de 2017.

Conflitos estes que, segundo frisou o responsável, “são fonte de sofrimento para milhões de pessoas em zonas de guerra” e “estão na origem de um número recorde de pessoas que se veem forçadas a abandonar as suas casas como refugiados e deslocados internos”.

“No mundo interligado em que vivemos, urge reconhecer uma verdade essencial: ao demonstrarmos solidariedade, zelamos também pelos nossos interesses próprios! Todos perdemos, quando se ignora esta realidade”, reforçou o representante.

E argumentou que a continuação de conflitos em vários pontos do mundo “gera instabilidade, acentua fragilidades e aumenta todos os tipos de riscos”, incluindo o extremismo e o terrorismo global, que “são uma ameaça para todos”.

Afirmando que não cabe ao próprio enumerar tudo o que foi alcançado até ao momento no decorrer do mandato, Guterres referiu, porém, que foram feitos alguns progressos na reorientação do trabalho da organização internacional em matéria de paz e segurança em torno da prevenção de conflitos.

“É difícil comprovar o sucesso da prevenção, mas estou convicto que houve várias ocasiões em que os nossos esforços contribuíram para aliviar crises, evitar potenciais situações de violência e salvar vidas”, disse.

Ainda sobre conflitos, o secretário-geral da ONU afirmou sentir-se “encorajado” pelo facto do apelo para um cessar-fogo global, que lançou em março deste ano no âmbito do combate à pandemia do novo coronavírus, ter sido apoiado por cerca de 180 Estados-membros da organização, por mais de 20 movimentos armados e por centenas de organizações da sociedade civil e regionais.

“Estamos determinados em continuar a trabalhar neste objetivo até ao final do ano para que nos possamos concentrar no nosso inimigo comum: a pandemia da covid-19”, sublinhou.

Sobre outras áreas de atuação, o secretário-geral da ONU mencionou ainda o seu “Apelo à Ação” no domínio dos direitos humanos, a agenda de desarmamento que propôs e os esforços que desenvolveu para promover a cooperação em tecnologia digital.

Mas outros apelos foram lançados pelo secretário-geral da ONU, como foi o caso, segundo mencionou o representante, de um “novo Contrato Social”, “assente numa nova geração de programas de proteção social” com o intuito de promover “sociedades com maior igualdade, mais inclusivas e mais sustentáveis”, ou de um “Novo Acordo Global”, visando uma “globalização justa, baseada nos direitos e na dignidade de cada ser humano, na vivência em equilíbrio com a natureza, e nas responsabilidades para com as gerações futuras”.

As questões da igualdade de género são outras das matérias mencionadas pelo responsável.

“Apraz-me registar que, no decurso do meu mandato como secretário-geral, tenha sido alcançada paridade de género entre todos os altos funcionários da ONU. Não se trata, apenas, de garantir oportunidades iguais para as mulheres; a paridade é essencial para garantir a eficácia e eficiência da ação das Nações Unidas. A nossa equipa deve ser representativa do universo das pessoas que servimos”, vincou.

A 01 de janeiro de 2017, o ex-primeiro-ministro português e ex-Alto Comissário para os Refugiados sucedeu ao sul-coreano Ban Ki-moon, que cumpriu dois mandatos à frente da organização internacional (2007-2016), e tornava-se no nono secretário-geral da ONU para um mandato de cinco anos, até 31 de dezembro de 2021.

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