Hoje é sábado. O "sábado", o dia tão falado, tão antecipado, tão mal amado pelos habitantes de 114 concelhos de Portugal continental ao longo desta semana. O primeiro dia em que a nossa liberdade de levar uma vida o mais próxima possível da normalidade foi reduzida a um dia de trabalho sem direito a hora de almoço.

Este dia 14 de novembro não é para dorminhocos. Para quem, como eu, vive num dos concelhos afetados pelas restrições de recolher obrigatório impostas pelo Governo português, como forma de combater a pandemia de covid-19, a oportunidade para aquilo que já damos de barato como quotidiano - sair de máscara na cara, gel desinfetante no bolso e distância na sombra e nos olhos - fechou-se depois da janela entre as 05h00 e as 13h00. Surpresa, surpresa, enfiámos um dia inteiro em oito horas.

Acordei eram 10h00 e saí para tomar um brunch, uma vez que o cronómetro da liberdade indicava que almoçar ia ser complicado. A rua estava bastante composta, mas a minha namorada garantiu-me que o mundo não é assim aos sábados de manhã. Acreditei nela. Comemos, fomos ao quiosque, comprámos decorações de natal e fomos ao supermercado. Em todo o lado, filas, uma forma de organização horizontal pela qual eu não sabia que os sábados eram conhecidos, mas que, ainda assim, não me impediram de em menos de três horas de estar de regresso a casa de barriga cheia, compras feitas e voltinha dada. Tudo feito com tranquilidade, sem a irreverência de viver no limite de um grupo de trabalhadores de uma obra de construção civil que ousaram almoçar por volta das 12h30, colocando os empregados do restaurante a anotar e servir os pedidos mais depressa do que alguém possa dizer “queria, já não quer?”.

Quando me sentei no sofá e me pus a par do mundo, descobri que para o país também tinha sido um dia produtivo. O setor da restauração, hotelaria, estabelecimentos de diversão noturna e cultura encheu o Rossio, em Lisboa, depois de ontem ter estado na Avenida dos Aliados, no Porto, para protestarem contra as limitações e as fracas respostas do governo perante as restrições impostas. Antes, já o governo tinha tido tempo para apresentar um apoio extraordinário de ajuda à restauração.

Fora da esfera da pandemia, houve tempo para o Partido Social Democrata tornar público os acordos de incidência parlamentar assinados com PPM, CDS e Chega para formação de um governo de direita nos Açores.

Às 13 horas já o dia tinha sido comprido, a casa parece-me extremamente pequena e as 05h00 de domingo mais longe do que a próxima sexta-feira. E é aí que me lembro: não tivemos almoço, mas teremos ceia, ou não tivesse o sr. Bruno Nogueira e companhia regressado para tornar mais leves - e livres - estas noites de confinamento de fim de semana.

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