O Cardeal José Tolentino Mendonça começou por agradecer o convite a Marcelo Rebelo de Sousa, referindo os planos iniciais de assinalar as celebrações do 10 de Junho na Madeira, a sua terra natal. De seguida, apresentou-se "como mais um entre os 10 milhões de portugueses", dirigindo-se "às mulheres e aos homens" do país.

"Estamos juntos a edificar o todo", disse o Cardeal. "Cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele, pois quando arquitetamos uma casa não podemos esquecer que, nesse momento, estamos também a construir a cidade", refletiu. "E quando pomos no mar a nossa embarcação, não somos apenas responsáveis por ela, mas pelo inteiro oceano. Ou quando queremos interpretar a árvore, não podemos esquecer que ela não viveria sem as raízes".

Tolentino Mendonça evocou ainda a importância de Luís Vaz de Camões para o país. "Camões não nos deu só o poema. Se quisermos ser precisos, Camões deixou-nos a herança, a poesia. Se à distância destes quase 500 anos continuamos a evocar coletivamente o seu nome, não é apenas porque nos ofereceu em completo o mais extraordinário mapa mental do Portugal do teu tempo, mas também porque iniciou um inteiro povo nessa inultrapassável arte de navegação interior que é a poesia", começou por referir.

"A poesia é um dia náutico perpétuo, é um tratado de marinhagem para a experiência oceânica da vida. É uma cosmografia da alma e isso explica, por exemplo, que Os Lusíadas sejam, ao mesmo tempo, um livro que nos leva por mares até à Índia, mas que nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios", apontou.

"Se é verdade, como escreveu [o filósofo] Wittgenstein, que os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo, Camões desconfinou Portugal. A quem tivesse dúvidas sobre o papel central da Cultura, das artes ou do pensamento na construção de um país, bastaria recordar isso. Camões desconfinou Portugal no século XVI e continua a ser, para a nossa época, um preclaro mestre da arte do desconfinamento, porque desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar um espaço, mas é poder, sim, habitá-lo plenamente, poder modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, sentir-se protagonista de um projeto mais amplo e em construção que a todos diz respeito. Desconfinar é não se conformar com os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo", lembrou Tolentino Mendonça.

"Camões é uma inspiração para sonhar sonhos grandes e isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior de uma mudança de época", afirmou.

Tolentino Mendonça recordou ainda uma passagem d'Os Lusíadas, que celebra a chegada dos portugueses à Índia, sendo o avistamento de terra comunicado a Vasco da Gama. "O Canto VI tem uma exigência composição em antítese, à qual não podemos não prestar atenção: é que à visão do sonho concretizado não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima, que Camões sabiamente se empenha em descrever", precisou, dizendo ainda que "não há viagens sem tempestade, não há demandas que não enfrentem a sua própria complexificação, não há itinerários históricos sem crises", numa clara alusão à pandemia e à crise que se verifica atualmente.

"Numa estação de tetos baixos, Camões é uma inspiração para sonhar sonhos grandes e isso é tanto mais decisivo numa época que não apenas nos confronta com múltiplas mudanças, mas sobretudo nos coloca no interior de uma mudança de época", enfatizou.

O cardeal Tolentino Mendonça avisou também que "a vida é um valor sem variações", defendendo o relançamento da aliança intergeracional para ajudar os idosos, as "principais vítimas da pandemia", a serem "mediadores de vida para as novas gerações".

Na perspetiva do cardeal, é preciso "reforçar o pacto comunitário", o que implica "relançar a aliança intergeracional" porque o pior que "podia acontecer seria arrumar a sociedade em faixas etárias".

"A tempestade provocada pela covid-19 obriga-nos a refletir sobre a situação dos idosos em Portugal e desta Europa. Eles têm sido as principais vítimas da pandemia", lamentou.

Para Tolentino Mendonça, é preciso "rejeitar firmemente a tese de que uma esperança de vida mais breve determina uma diminuição do seu valor intrínseco" porque "a vida é um valor sem variações".

"Uma raiz do futuro de Portugal passa por aprofundar a contribuição dos seus mais velhos, ajudando-os a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações", defendeu.

O poeta lembrou também a sua avó materna, que, sendo analfabeta, foi a sua primeira biblioteca.

Assim, o presidente das comemorações do Dia de Portugal pede uma visão "mais inclusiva do contributo das diversas gerações" porque "é um erro pensar uma geração como dispensável ou um como um peso", já que é impossível "viver uns sem uns outros", sendo "essa a lição das raízes".

Mas o robustecimento da aliança intergeracional, na perspetiva de Tolentino Mendonça, "é olhar seriamente para outra das nossas gerações mais vulneráveis", como os jovens adultos, com menos de 35 anos, que já viveram duas crises e, apesar das elevadas qualificações, estão condenados ao trabalho precário ou a atividades informais.

"Reforçar o pacto comunitário implica um olhar novo sobre a ecologia", pediu ainda, considerando que é preciso "construir uma ecologia do mundo", onde em vez de "senhores despóticos" haja "cuidadores sensatos".

Num discurso carregado de citações de escritores desde Herberto Hélder a Luís de Camões, o cardeal deixou uma mensagem: "Portugal é e será por isso uma viagem que fazemos juntos".

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