O amor romântico de um casal deixou de ser o único vínculo legítimo para muitos e, embora não seja novidade, há cada vez mais pessoas que decidem viver assim e expor seus relacionamentos alternativos.

O poliamor, definido como as relações sexuais e afetivas entre mais de duas pessoas; a anarquia relacional, que se recusa a classificar os vínculos em categorias; e os relacionamentos abertos são algumas formas de “amor livre”. Mais honestos e consensuais, segundo seus adeptos.

“Não é uma guerra contra a monogamia, mas contra a mononorma, que é a imposição desse formato”, afirma Deb Barreiro, de 29 anos, ativista do Amor Livre Argentina.

Deb tem um relacionamento com Gabriel López (39) desde 2012; May (36) começou a namorar Gabriel algum tempo depois e há quase um ano os três formaram um “trisal” poliamoroso, que definem como uma relação aberta e “dinâmica”.

Os relacionamentos não tradicionais são desafiados a construir valores que respondam a outras necessidades, descreve Deb. Mas o sucesso implica retirar o que foi adquirido.

Ciúmes, a outra parte

Para Julio César Jerez, mexicano de 40 anos, atravessar a barreira do amor romântico e da monogamia implica “deixar de lado as suas características prejudiciais”.

A primeira, ele diz, é “acreditar que somos pessoas incompletas até encontrarmos a metade da laranja”. A outra é “identificar que a exclusividade amorosa e sexual representam o amor verdadeiro”.

Deixar isso de lado ajuda a excluir emoções “negativas”, como o ciúme, diz Jerez, que teve relações com mulheres casadas que priorizaram os seus casamentos, o que é chamado de poliamor hierárquico.

A ruptura também ocorre com preconceitos de fora, pois existem pessoas que reduzem esses vínculos ao sexual. “Acredita-se que o poliamor é um jogo que consiste apenas em ‘polissexo’”, afirmou Jerez.

O espectro de relações não monogâmicas inclui até aquelas que se constroem sem sexo. É o caso de Federico Franco, um “anarquista relacional”, que se recusa a rotular ou enumerar seus vínculos.

Fim do amor?

Etaremos a vivenciar o fim do amor tradicional? “Não acho que estejamos perto do fim da monogamia”, diz Tamara Tenenbaum, de 30 anos, escritora argentina e autora de “O Fim do Amor”. “O que estamos a ver é o fim do casal como único modo de vida”.

O reflexo mais claro traduz-se, na prática, num boom de publicações, séries, filmes e livros.

Embora os transgressores hoje não tenham idade definida, os millennials, nascidos entre 1981 e 1990 e que cresceram em ambientes mais liberais e abertos, são os que demonstram mais interesse particular nas novas relações.

A escritora peruana Gabriela Wiener concorda. “Vejo muita tendência, curiosidade e tentativas, mas ainda há um abismo entre a teoria e a prática”, destaca.

Ela atribui a mudança ao movimento feminista mais recente. “O núcleo dos casais é um dos focos da violência de género, por isso falamos sobre toxicidade do amor romântico e procuramos novas maneiras de amar”, analisa.

Para Tenenbaum, os relacionamentos não monogâmicos podem ser “libertadores” para as mulheres: “A infidelidade dos homens foi historicamente autorizada: na monogamia tradicional eles tinham uma parceira monogâmica e outros vínculos externos”.

Desafiar a realidade

Os relacionamentos poligâmicos carecem de proteção legal. Mas há aqueles que desafiam essa realidade.

Em 2017, Manuel Bermúdez, Victor Prada e John Rodríguez formaram a primeira união poliamorosa na Colômbia em Medellín, ou a inédita “constituição do regime patrimonial de trisal”. Assim, obtiveram direitos semelhantes aos das pessoas casadas, após lutar na Justiça.

Na América Latina, muitos preferem manter suas preferências íntimas ou descartam a luta legal.

De uma maneira ou de outra, dizem, e em qualquer de suas formas, o amor busca que tenham sucesso.

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