De acordo com fontes oficiais da Ucrânia, as suas forças territoriais terão recuperado milhares de quilómetros quadrados de território nestes últimos dias na região de Kharkiv, a segunda maior cidade ucraniana, após seis meses de guerra. E, nesta segunda-feira, Kiev reivindicou a reconquista de 500 quilómetros quadrados em duas semanas de contraofensiva na região de Kherson, um ponto estratégico fundamental para russos e ucranianos devido ao acesso ao Mar Negro.

"As tropas russas estão a abandonar de forma apressada as suas posições e a fugir", lia-se numa nota oficial.

A avaliar pelos relatos dos repórteres no terreno, a Ucrânia está mesmo a rechaçar a Rússia de posições que ocupava há vários meses. A AFP esteve em Izyum, cidade estratégica na região de Kharkiv, onde se constatou o controlo ucraniano de uma cidade ocupada pelos russos desde o início da primavera.

Com isto, quais são as opções de Vladimir Putin após o revés militar russo na Ucrânia? Apesar de o presidente russo ainda não ter comentado publicamente o que se está a passar com as suas forças no nordeste da Ucrânia, está sob pressão dos nacionalistas no seu país para recuperar o território perdido.

Segundo a Reuters, os especialistas referem que Putin tem poucas opções de reparação rápida — e a maioria das medidas que poderia tomar vêm com riscos geopolíticos.

  • Estabilizar as tropas. Depois, reagrupar e atacar

Os analistas militares russos e ocidentais concordam que, do ponto de vista de Moscovo, as forças russas precisam de estabilizar urgentemente a linha da frente, deter o avanço da Ucrânia, reagrupar-se e, se possível, lançar a sua própria contra-ofensiva.

No entanto, existem dúvidas no Ocidente sobre se a Rússia tem as forças terrestres ou equipamento suficiente, dado o número de baixas que sofreu e a quantidade de equipamento que foi abandonado ou destruído nos últimos tempos.

Outra opção passaria pela utilização de mísseis de longo alcance para destruir as infraestruturas ucranianas de maior importância, uma medida que certamente iria atrair a condenação internacional.

  • Mobilização de reservas

Por isso, uma opção seria mobilizar mais tropas. Todavia, especialistas dizem que não há mão-de-obra disponível para o conflito, uma vez que a campanha de recrutamento não está a ter a adesão que se previa. Assim, restam as reservas.

A mobilização das reservas russas, que totalizam cerca de 2 milhões de homens com serviço militar nos últimos cinco anos, é exequível — mas é preciso tempo para treinar e destacar pessoas.

O Kremlin disse na terça-feira que, "neste momento", não pretende recorrer a uma mobilização a nível nacional.

Segundo os especialistas, uma mobilização seria popular entre os nacionalistas, mas não tanto entre alguns homens russos nos centros urbanos, menos interessados em aderir ao conflito.

  • Quais os perigos a considerar?

Contudo, ir por este caminho significaria que a Rússia assumia uma guerra aberta com a Ucrânia — e não uma "uma operação militar especial", com objetivos limitados. Além disso, seria admitir que o conflito está a correr mal para Moscovo.

Neste cenário, as forças russas poderiam também assistir a um maior número de mortes, por não ser possível garantir a proteção das tropas (como defendem ter feito até então).

É também por esse motivo que a Rússia alega não entrar numa guerra nuclear. Para além de infligir baixas em massa, tal medida poderia arrastar formalmente os países ocidentais para uma guerra direta com a Rússia.

Por outro lado, colocar a Rússia numa guerra assumida com a Ucrânia também pode implicar riscos políticos internos, já que há a possibilidade de uma reação pública contra um projeto "forçado".

  • O inverno pode trazer a solução para Putin (ou nem por isso)

Assim, Vladimir Putin, está muito limitado nas suas opções — e já se viu que negociar com a Ucrânia parece fora de questão. Mas, a médio prazo, a aproximação do inverno pode mudar a situação.

Putin espera que os preços da energia e possíveis faltas neste inverno levem a Ucrânia — apoiada pela Europa — a aceitar uma trégua nos termos da Rússia. Recorde-se que, no contexto de guerra na Ucrânia, a energia tem estado no centro de um braço-de-ferro entre Moscovo e os países ocidentais, que acusam a Rússia de utilizar o gás "como uma arma".

Neste sentido, alguns diplomatas europeus acreditam que o recente sucesso da Ucrânia no campo de batalha minou o desejo de alguns europeus de pressionar Kiev a fazer concessões. No entanto, países como a Alemanha parecem ter-se tornado mais duros com Moscovo nas últimas semanas — e mais determinados a resolver os problemas energéticos do inverno.

Contudo, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, prevê uma "rápida desocupação" do país este inverno, pelo facto de os militares russos "estarem a fugir em várias direções".

Para Zelensky, "o período invernal pode ser um ponto de inflexão na libertação dos territórios ucranianos ocupados pela Rússia". "Para isso, o nosso exército necessita de um fornecimento sistemático dos tipos de armas necessários", apontou ainda.

E se Putin bloquear a exportação de cereais? 

Putin queixou-se recentemente de que o acordo entre a ONU e a Turquia que permite à Ucrânia exportar cereais e outros alimentos através do Mar Negro é injusto para os países mais pobres e para a Rússia. Por isso, pretende reunir-se em breve com o líder turco, Tayyip Erdogan, para discutir a revisão do acordo.

Se Putin quiser prejudicar a Ucrânia através dos cereais, poderá suspender ou cancelar o acordo — ou recusar-se a renová-lo quando este expirar em novembro.

Tomada esta decisão, vai ter de lidar com as consequências: o Ocidente e os países mais pobres de África e do Médio Oriente vão acusar Putin de agravar a escassez global de alimentos, dizem os especialistas.

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