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Acusados de terem perdido Kemba Walker a troco de nada e de oferecerem uns exagerados 58 milhões de dólares por três anos de contrato ao base Terry Rozier, tornando-o no 45.º jogador mais bem pago de toda a NBA, as previsões diziam que os Charlotte Hornets podiam deitar foguetes se ganhassem mais de 25 jogos na fase regular. Para o Bleacher Report, a projeção era de 22 triunfos e 60 derrotas. No entanto, com 24 jogos disputados, os Hornets apresentam um surpreendente registo de nove vitórias e 15 derrotas. É um registo negativo, sim, mas bem acima do que se esperava. O motivo desta boa entrada em 2019/20 tem um nome e não é Terry Rozier. Aliás, se Rozier era apontado como candidato a «Most Improved Player» no início da época, agora os especialistas dizem que essa distinção até pode ficar em Charlotte, mas noutras mãos.

Devonte' Graham, base de segundo ano, teve uma época de estreia muito modesta. Com o All-Star Kemba Walker e o veterano francês Tony Parker como bases principais, Graham não teve muitas oportunidades. Participou em apenas 46 dos 82 jogos dos Hornets, com uma média inferior a 15 minutos por jogo - muitos deles no chamado "garbage time", e foi limitado a 4.7 pontos, 1.4 ressaltos e 2.6 assistências, com uns míseros 28.1% de eficácia nos lançamentos de três pontos. Não fossem os constantes elogios do treinador James Borrego e nem teríamos ouvido falar de Graham. Este ano? Mesmo com a chegada de Terry Rozier, vindo dos Boston Celtics para ser a figura dos Hornets, Devonte' Graham subiu o seu tempo de jogo para quase 34 minutos por partida e regista médias de 19.1 pontos, 3.7 ressaltos e 7.8 assistências, com uns impressionantes 42.1% no tiro exterior.

Mais impressionante ainda é perceber que Devonte' Graham faz parte de um exclusivo grupo de seis atletas que têm médias acima de sete assistências e três triplos marcados por jogo. Quem são os outros? James Harden, Luka Dončić, Damian Lillard, Trae Young e Kyle Lowry. Destes seis, Graham é o único com eficácia de três pontos acima de 40%. Mas há mais. É o segundo jogador da NBA com mais triplos marcados na época (88), apenas atrás do inevitável James Harden (101) e à frente de outros grandes atiradores como Buddy Hield (78), Davis Bertans (78), J.J. Redick (73) e Trae Young (72). Outro número que salta à vista? É o terceiro jogador de toda a liga com mais assistências (186), num pódio onde convive com LeBron James (246) e Luka Dončić (194).

Com 24 jogos na temporada, os Hornets já não são uma das piadas da liga e a maior fatia dessa responsabilidade é de Devonte' Graham. Mas não surgiu do nada. "Trabalhei muito este verão. Depois das saídas do Kemba e do Tony, sabia que o meu papel ia crescer, mas não assim tanto", confessou recentemente, para depois acrescentar que até Michael Jordan, um dos donos da organização de Charlotte, lhe dá conselhos: "Diz-me para eu continuar a ser agressivo e que eu abdico de alguns lançamentos que posso fazer, mas - vocês sabem! - é o MJ a ser o MJ".

Uma coisa é certa: Graham agarrou a oportunidade que teve. Na verdade, não tem feito outra coisa na vida a não ser agarrar-se às oportunidades. Nasceu quando a mãe tinha apenas 14 anos, mas a família mais próxima nunca adoptou um discurso de vitimização. Em vez de encararem o nascimento inesperado de Devonte' como um problema, a mãe e a avó focaram-se em dar amor ao novo membro da família, porque a palavra que mais usam em casa é "gratidão". Talvez por isso Devonte' Graham tenha as palavras "FOREVER GRATEFUL" tatuadas no peito. E como se isso não fosse lembrança suficiente, a mãe recorda-o de ser agradecido em todas as conversas que têm.

Dewanna King, mãe de Devonte', não sabia que estava grávida até dar à luz, mas aceitou o destino e, mais uma vez, procurou soluções em vez de se focar em problemas. Arranjou dois trabalhos, acabou o liceu e foi para a universidade. Mudou de casa mais do que uma vez, para evitar problemas nos bairros perigosos onde moraram nos primeiros tempos. A avó ajudava nas poucas vezes em que o dinheiro não chegava, para que o pequeno Devonte' pudesse fazer aquilo pelo que se apaixonou aos quatro anos de idade: jogar basquetebol. É, de resto, por isso que usa o número 4 no equipamento.

Quando Devonte' Graham chegou ao liceu media 1,60 metros e, depois de ler um artigo onde descobriu que Chris Paul fazia o mesmo em miúdo, começou a pedir altura nas suas orações. Mas as orações não eram ouvidas e, precisamente por ser pequeno, não atraiu interesse de grandes universidades, acabando por se comprometer com Appalachian State, o que viria a revelar-se um erro. No último ano de liceu deu um salto em altura - literalmente - e, apesar do interesse que começava a gerar, o treinador de Appalachian State, Jason Capel, não o libertou da carta de intenções assinada anteriormente. Graham acabou por passar um ano em Brewster Academy, uma «prep school» de New Hampshire, mas foi aí que conheceu e partilhou o campo com Donovan Mitchell, actual estrela dos Utah Jazz. Ambos queriam provar que a altura não era decisiva no basquetebol e lideraram Brewster a uma época de 33 vitórias em 33 jogos e um título nacional.

Entretanto, Capel foi despedido de Appalachian State e, finalmente, Graham conseguiu desvincular-se e chegar a acordo com a universidade de Kansas, onde esteve quatro anos ao serviço do mítico treinador Bill Self. Quatro anos num sistema com dois bases em simultâneo e que o obrigavam a jogar como «point guard» e como «shooting guard», precisamente aquilo que encontrou em Charlotte, depois de ter sido eleito de forma unânime o Big 12 Player of the Year em Kansas, superando... Trae Young.

"Não estou surpreendido pelo sucesso, porque aqui existem oportunidades, mas também porque trabalha muito", afirmou o treinador adjunto Nate Mitchell, que o ajudou este verão a aumentar o alcance de lançamento, no lançamento a partir do drible e na tomada de decisão a partir de situações de bloqueio directo. "Sair de bloqueios e lançar de três ou escolher o melhor passe é algo importante na liga e ele está a fazê-lo ao nível de Damian Lillard, Kemba Walker ou Steph Curry", acrescenta Mitchell.

A confirmação do sucesso chega pela imprensa, que começa a dar destaque aos feitos de Devonte' Graham, mas sobretudo pelas mensagens escritas que a mãe lhe envia no final dos jogos. Durante o primeiro ano de NBA, depois de ter sido selecionado como a 34.ª escolha do draft e andar entre a liga principal e a G-League, as SMS diziam coisas como "Muitos turnovers" ou "Passa menos e lança mais". Sempre que recebia uma nova notificação com uma SMS da mãe, tremia. Passou esse ano a estudar a forma como Kemba Walker saía dos bloqueios e decidia entre lançar e passar, e a ouvir os conselhos de Tony Parker sobre como encontrar formas de criar o seu próprio lançamento - em especial, o «floater» - no meio de tantos gigantes. O estudo e a paciência compensaram. Este ano começou a receber umas mensagens novas da mãe: "Muito bem" ou "É assim mesmo que se lança".

No telemóvel de Devonte' há centenas de SMS da mãe sobre a forma como joga. Tantas SMS que dava para escrever um livro com a sua história. Mas Graham ainda se lembra das mais antigas, tal como tem sempre presente os «scouting reports» que o apontavam como apenas um «role player». "Não consigo colocar um tecto no seu potencial. Sinceramente, não esperava que jogasse a este nível tão cedo na temporada", assume o treinador James Borrego. A capacidade de lançamento após passe ou a partir do drible, a versatilidade para jogar em mais do que uma posição e o QI basquetebolístico elevado fazem de Devonte' Graham um jogador perfeito para a NBA atual. E Borrego confia nele para lançamentos decisivos, como se viu quando marcou o triplo - o nono dessa partida - que deu o triunfo sobre os New York Knicks em pleno Madison Square Garden ou quando marcou os lances livres decisivos - para um total de 35 pontos - na vitória sobre os Indiana Pacers.

Allen Iverson, um jogador pequeno que triunfou numa liga de gente grande, é a inspiração de Devonte' Graham - o penteado denuncia isso mesmo -, mas a resiliência que personifica foi-lhe passada nos genes pela mãe e é reconhecida pelos colegas de equipa, sobretudo os veteranos, que Devonte' ouve como uma esponja. "O Marvin Williams diz que, na NBA, temos que estar sempre prontos. Se não jogarmos em dez jogos seguidos e formos chamados para entrar no décimo primeiro, temos que estar prontos. Se estivermos prontos, podemos garantir que jogamos nos próximos quinze", revelou há dias. Devonte' esteve sempre pronto, à espera de uma oportunidade. Agarrou-a. E já não treme quando recebe uma nova SMS da mãe.

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