As comemorações do Boxing Day são sempre especiais. A tradição por si só é motivo suficiente para trazer as pessoas aos estádios mas os acontecimentos são normalmente igualmente excitantes. Esta época com oito partidas no dia 26 de Dezembro, cuja média de golos rondou os 3,6/partida, tivemos um Harry Kane a fazer o seu trigésimo nono golo em 2017, ultrapassando o recorde de golos num ano civil na Premier League, estabelecido por Alan Shearer há vinte e dois anos a esta parte.

Por aqui, já não é novidade que, por vezes, voltamos atrás no tempo para espreitar o passado da Premier League. Já tivemos a oportunidade de rever o título de 1989, decidido no último jogo da temporada, e hoje viajamos para a década de 90, para reviver as emoções daquele que foi considerado um dos melhores jogos de sempre do Boxing Day, que opôs Sheffield Wednesday e Manchester United, precisamente no dia 26 de Dezembro de 1992.

Mais que um jogo

À partida, nenhum jogo jogado no Boxing Day (a meio da época) decide o que quer que seja, mas talvez não tenha sido o caso deste clássico. Num encontro em que o United se viu desde cedo a perder por duas bolas a zero, seria apenas na segunda parte, e após conceder o terceiro, que a recuperação viria a acontecer. Mas antes de irmos aos detalhes do jogo em si, vejamos de que forma este jogo constituiu um ponto de viragem do já então Manchester United de Sir Alex Ferguson.

Antes desse encontro, - realizado na primeira época da Era moderna da competição -, os Red Devils apresentavam-se numa forma pouco recomendável. Com 17 jogos jogados, o United contava apenas com oito vitórias, somando ainda seis empates e três derrotas. Apresentava-se, portanto, inconsistente, o que lhe valia um quarto lugar na classificação que, ainda assim, o colocava a apenas cinco pontos do primeiro. Depois da fantástica recuperação no jogo que hoje visitamos, a série de resultados foi bastante diferente. Nas restantes 18 partidas, Sir Alex e a sua equipa viriam a conseguir 12 vitórias, 4 empates e apenas duas derrotas. O que lhes valeria o título de campeão, acabando com um jejum que já durava desde 1967.

O confronto em si, como se pode perceber, significou muito mais que uma recuperação de um resultado negativo. Na verdade, o ponto para cada uma das equipas no final da partida acabou por ser quase irrelevante. O que ficou para a história foi uma mudança de atitude, o nascer de uma equipa que lutava até ao último segundo, que deixava tudo em campo e que, sem ser (de longe!) a melhor equipa do mundo, tinha características muito difíceis de bater.

Contudo, o mérito desta equipa não era apenas a atitude, mas também o futebol em si. Com processos simples, mas fora das normas para a altura, dava prazer ver jogar o United, que se recusava a entrar no jogo mais direto que a maioria dos adversários explorava com frequência.

Com tempo viriam a tornar-se a melhor formação inglesa dos anos 90, culminando uma década dourada com a mítica vitória em Camp Nou, na final da Liga dos Campeões de 1999, frente ao Bayern Munique. Um jogo também cheio de emoção e que deixaria vincada, mais uma vez, a capacidade de luta desta equipa, o seu espírito de grupo e a persistência para recuperar e dar a volta a resultados negativos.

A equipa - espírito e filosofia - de 1999 nasceu, com certeza, nessa emotiva tarde de Boxing Day, em pleno estádio de Hillsborough.

Os noventa minutos

"Tudo é mais fácil quando se marca cedo" é algo que se costuma dizer no mundo do futebol e, na maioria das vezes, com toda a razão. Quando se marca cedo e por duas vezes, bom, aí as coisas tornam-se ainda mais fáceis. A não ser se se estiver a jogar contra o Manchester United de Sir Alex Ferguson, claro.

O Sheffield Wednesday entrou fortíssimo no jogo. Numa era em que o jogo direto e a procura incessante do golo era a prioridade, a equipa de Trevor Francis, na altura treinador-jogador, iniciou a partir a todo o gás. Já o Manchester United, demorou muito tempo a entrar no jogo.

Os comandados de Alex Ferguson tentavam já jogar um futebol diferente, com mais combinações a meio-campo, para depois, sim, explorar as ‘cavalgadas’ de Ryan Giggs e Lee Sharpe nas alas. Na frente, para finalizar, Eric Cantona e Mark Hughes contavam com a ajuda do escocês Brian McClair. Tanto tempo levou a entrar no jogo a equipa de Manchester, que ao minuto seis já se via a perder por duas bolas a zero. Com um início de jogo extremamente aguerrido, a entrega dos jogadores do Sheffield Wednesday era inquestionável. “Carrinhos a vir da esquerda, direita e centro” dizia o comentador.

Com o passar do tempo, contudo, a equipa de Sheffield não conseguiu aguentar o ritmo inicial e os Red Devils começaram a tomar conta do jogo. Na altura, eram já visíveis os pormenores de combinações que deram depois origem a um futebol rápido e agressivo no último terço do terreno. Contudo, mesmo cirando oportunidades, o United parecia não conseguir converter as ditas em golo, e foram mesmo os Owls (que recentemente despediram Carlos Carvalhal) que, já na segunda parte, conseguiram mais um tento. Estávamos no minuto 62 da partida e depois de grande superioridade do United, uma bola bombeada para a área do United e um excelente trabalho de combinação entre David Hirst e John Sheridan culminava no terceiro golo para a equipa da casa.

Mas o United não desistiu e, com uma atitude à imagem de Sir Alex, continuou a tentar chegar ao golo, que conseguiria passados cinco minutos. O que se seguiu, foi uma sinfonia de bem jogar. Com clareza e rapidez, os Red Devils chegavam como queriam à área do Sheffield Wednesday e foi apenas uma questão de tempo até mais dois golos entrarem na baliza adversária.

Destaque, entretanto, para o trabalho de Lee Sharpe na ala esquerda, em ambos os cruzamentos para golo, e para Peter Schmeichel, que ao fazer uma defesa do outro mundo, travou aquela que poderia ter sido a machadada final no jogo. Com o marcador em 3-2 o guardião dinamarquês travou da melhor forma um contra-ataque rapidíssimo do Sheffield Wednesday dando assim mais uma oportunidade à sua equipa de poder continuar a tentar empatar o jogo, algo que acabou por acontecer minutos mais tarde.

Assim como nos noventa minutos, levou algum tempo até o United ‘entrar’ na liga. Mas depois de perceber que, com confiança e persistência, o seu futebol poderia levar de vencido qualquer adversário, a sua chegada ao topo da classificação foi mesmo uma questão de... tempo. O United acabaria a época em primeiro, com oitenta e quatro pontos e tinha início a Era Sir Alex Ferguson, com oito campeonatos nos dez anos que se seguiram.

É a história do começo de uma força muito especial no futebol inglês.

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