Ao longo dos últimos meses, temos podido acompanhar em direto, e praticamente desde o início, a forma como a ciência tem vindo a descobrir quem é este novo agente infeccioso e como ele se comporta. Neste processo, o público tem assistido ao desenrolar da investigação e ao surgimento gradual de algumas descobertas.

Mas perante a gravidade do que está em causa, vai ficando à vista a insuficiência do que a ciência consegue dar. Algumas indagações têm vindo a consumir o pensamento de muitos e a gerar perplexidade: como pode demorar tanto tempo encontrar um tratamento? Como é que não sabemos se os anticorpos geram imunidade? Como é que não sabemos ao certo de onde veio o vírus? Assuntos que pareceriam elementares e que sobre os quais esperaríamos que a ciência nos esclarecesse imediatamente têm, afinal, respostas inconclusivas.

Mas há ainda mais assuntos que nos confundem. Por exemplo, as regras que os cientistas dizem ser importantes cumprir parecem por vezes ser arbitrárias e ter bases pouco sólidas. Afinal as máscaras protegem-nos ou não? Que máscaras? Quando é que as devemos usar? Porque é que devemos ficar a dois metros uns dos outros e não a metro e meio? Porque é que alguns espaços podem reabrir e outros não? Já para não falar das informações falsas ou altamente empoladas sobre a infeção que circulam nas redes sociais e que dificultam ainda mais o esclarecimento de todos.

O campo fica assim aberto para que eventualmente se reduza a confiança nos cientistas. Para além disso, torna-se ainda mais evidente que afinal há espaço na ciência para que diferentes posições políticas dela possam derivar. Fazer como a Suécia ou como Portugal? Tudo isto se acrescenta à crise da verdade, ou dos factos, que se vem intensificando nos últimos anos, ajudada pela reverberação das redes sociais. De facto, várias áreas científicas sensíveis têm tido que se defender de opiniões, estas segundas colocando-se no mesmo patamar de verdade que as primeiras. Veja-se o debate em torno das vacinas ou do aquecimento global.

A partir destas observações, gostaria de trazer para a discussão duas ideias.

A primeira é a de que a ciência é na verdade uma tarefa humana eminentemente repleta de fragilidades. É melhor a colocar dúvidas do que a produzir certezas e é também altamente permeável a vários interesses ou simplesmente a erros sistemáticos naturais aos seres humanos. Porém, muitas vezes comunica-se como se assim não fosse, como se pudesse ser omnipotente e omnisciente (e assim criando as bases para a crise de confiança que atravessa).

A segunda ideia é a de que os seres humanos parecem ter, regra geral, dificuldade em lidar cognitivamente com a complexidade. A natureza funciona em grande medida de forma não-linear, com ruído, e o melhor que se consegue obter são imperfeitas aproximações a essa realidade. Mas, por reflexo, aquilo com que contamos são causalidades perfeitas e controláveis. É difícil operarmos com os matizes de cinzento entre o preto e o branco. A propagação da infeção, por exemplo, é um fenómeno que depende da forma intrincada como os humanos interagem em redes, a vários níveis, e de como pequenos movimentos imprevisíveis dentro dessas redes podem gerar efeitos catastróficos. Como criar regras de uma lógica infalível neste mar de incerteza?

Mas talvez este momento esteja a trazer uma oportunidade para que a ciência possa, na verdade, reforçar-se. Ao se mostrar assim, quase despida, terá que ser humilde. Terá que revelar a sua longa marcha, as suas dúvidas, mas mostrará assim também a colaboração em que assenta, o profundo debate, e o esforço em se aproximar o mais possível à realidade. Cresce, mas é frágil. Nessa fragilidade está ancorada a sua força. Talvez aí se possa vir a refundar a confiança de todos nós nela.

Bernardo Moura é médico interno de Psiquiatria no Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e doutorando pelas universidades de Lisboa e Maastricht.

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