Estas pouco mais de três mil mortes causadas até agora por este coronavírus de Wuhan representam um número ínfimo se o compararmos com os dados oficiais da OMS sobre os casos mortais de malária em cada ano: 435 mil mortes em 2017, 405 mil em 2018. Em cada ano da última década, sempre mais de 200 milhões de pessoas infetadas. A maior parte dos casos ocorre na África subsaariana. É obviamente por isso que este inferno permanente da malária continua fora das manchetes da informação e desprezado pela opinião pública pelo resto do mundo. Há planos, elaborados por várias equipas conjugadas de peritos, para, enquanto não está conseguida a vacina eficaz contra a malária, ser possível atenuar em grande escala esta mortalidade causada pela malária. Mas, para esta guerra, não há dinheiro. A ONU apenas conseguiu mobilizar um terço do investimento mínimo previsto no plano da OMS. É assim que apenas estão a ser conseguidos pequenos decréscimos nos números dessa calamidade que é a malária.

Faz agora 102 anos, o mundo, a tentar sair da Primeira Grande Guerra, foi confrontado com uma pandemia devastadora: foi a chamada gripe espanhola. Causou cerca de 50 milhões de mortes, a maior parte de pessoas entre os 20 e os 40 anos de idade. Nesse tempo, há um século, a medicina ainda não conhecia bem o comportamento dos vírus e as complicações associadas. Em 1918 a Ciência ainda não tinha chegado à possibilidade de criar antibióticos ou antivirais que pudessem mitigar o desastre global que foi esta gripe. Nesse tempo de fim da guerra, muitos países amordaçaram a divulgação de informações sobre a calamidade desta “espanhola”. A censura de então surgiu como forma de evitar maior desmoralização de pessoas já devastadas pelos efeitos da guerra. Mas a falta de informação contribuiu para que não houvesse maior esforço nos cuidados de higiene e assim fosse atenuado o contágio.

Já neste século 21 tivemos, em 2003, um primeiro sobressalto com a gripe das aves H5N1. Então o coordenador do combate pela OMS a esta crise alertou para o risco de pandemia que poderia levar “entre 5 a 150 milhões de vidas em todo o mundo”. Não houve pandemia e a crise ficou encerrada em 2011 com um total oficial de 331 mortes.

Em 2009, veio uma emergência mais inquietante: a gripe A, H1N1, inicialmente designada como gripe suína. O primeiro surto foi detetado em março deesse 2009, no Mexico. Rapidamente ficou espalhado o pânico. Ao fim de três meses, havia casos de H1N1 em 75 países e a OMS declarou pandemia. A OMS declarou encerrada a crise H1N1 em agosto de 2010, após 17 meses que causaram 18.449 mortes. Mas a OMS também lembrou então que a gripe sazonal é causa de morte de 250 mil a 500 mil pessoas, em cada ano, pelo mundo.

Chega-nos agora o Covid-19, carregado de medos e envolvido em quase histeria global, com propagação pelo sistema comunicacional que é tão intenso que, em alguns momentos trivializa, satura, confunde. Não sabemos se sabemos tudo ou se sabemos apenas quase nada.

Em concreto, sabemos que o Covid-19 se propaga muito rapidamente, pode ser letal, mas metade dos casos tratados estão curados.

Também temos a noção de que é essencial o diagnóstico muito rápido pelos serviços de saúde, para que o infetado não ande a multiplicar o número de contagiados.

A confiança nos serviços de saúde é vital. Portugal tem a sorte de ter Graça Freitas à cabeceira desta crise. A atual Diretora Geral de saúde já mostrou grande eficácia de liderança, com transparente clareza na informação permanente e oportuna, com sentido de serviço público na gestão de anteriores crises de saúde pública.

Agora, há que dar prioridade a esta crise Covid-19. Será preciso que o SNS providencie ventiladores suplementares para o caso de serem necessários nos hospitais. Também é preciso que o stock de máscaras de proteção nas farmácias seja abastecido de modo a dar resposta à procura das pessoas.

A cada um de nós, cabe reforçar os cuidados, com a higiene extremada.

O essencial está repetido: somos mobilizados para alerta máximo, mas sem ansiedades, sem medo, sem pânico. Sem ceder às comunicações especulativas que proliferam.

Esta crise vem evidenciar como é indispensável o jornalismo de referência. O Covid-19 está a ser espelho da espiral comunicacional obsessiva deste nosso tempo. É tão intensa que produz ruído incessante através das múltiplas teorias postas a circular no oceano de redes sociais. É assim que este Covid-19 é um vírus que já conquistou a coroa da comunicação – é preciso que também mereça a coroa da boa informação.

A TER EM CONTA:

É de esperar que nesta terça-feira, 3 de março, fique muito clarificada a escolha de quem vai discutir com Trump o próximo mandato presidencial nos Estados Unidos da América. O que agora têm sido apuramentos em alguns estados, passa nesta terça-feira por uma seleção em metade dos estados dos EUA. O dia quase decisivo chega por entre surpresas, da súbita retirada do cometa que estava a ser a candidatura de Pete Buttigieg, também a de Amy Klobuchar ao ressurgimento, alimentado pelo voto negro, do candidato que parecia condenado à irrelevância, Joe Biden. A escolha, agora, fica entre a via socialista de Sanders e o centrismo de Biden? Com Elizabeth Warren (ou algum dos desistentes das últimas horas) para o “ticket” como vice-presidente? A fortuna de Bloomberg ainda pode ter influência para a escolha? Vale seguir este super tuesday nos EUA.

Imaginamos o litoral como magníficas praias de areia para banhos de sol e de mar. Este nosso prazer está para acabar, arrebatado pelas alterações climáticas?

A tragédia dos refugiados está de volta às notícias.

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