A questão da Irlanda do Norte não é uma questão; é uma dor de cabeça que nunca se vai embora e parece cada vez pior. O pano de fundo é o sectarismo permanente entre protestantes e católicos, sempre presente, como os muros de cinco metros de altura que ainda separam as duas comunidades, apesar de 24 anos de paz militar. Neste cenário inconcebível decorrem acontecimentos que só complicam o antagonismo, mesmo quando parecem reduzi-lo. Os protagonistas são quatro: os chamados unionistas, que querem manter a Irlanda do Norte como parte integrante do Reino Unido; os ditos republicanos, que almejam unificar a ilha da Irlanda; o governo de Sua Magestade, com posições que variam ao longo do tempo, e a União Europeia, que não sabe como resolver uma situação irresolúvel.

Vamos por partes, relembrando o que toda a gente sabe. Em 1921, depois de uma guerra sangrenta de dois anos, o Reino Unido finalmente reconheceu a independência da República Irlanda. Durante séculos, Londres tinha tratado a ilha como uma colónia a explorar, ao contrário das outras nações da Inglaterra, a Escócia e o País de Gales, que se integraram no ordenamento jurídico económico nacional com alguma autonomia. Os senhores da terra eram ingleses, muitos deles absentistas, e consideravam os predominantemente católicos irlandeses como uns inferiores comedores de batatas, tratados como servos.

Aquando da independência, seis condados do norte da ilha, predominantemente anglicanos, recusaram-se a seguir os outros 26 e permaneceram no Reino Unido, formando a Irlanda do Norte, com a capital em Belfast.

A minoria católica desta mini-Irlanda nunca se conformou com a situação e em 1969 formou o IRA (nome completo: Exército Irlandês Republicano Provisório), uma organização terrorista que perpétuo atentados à bomba, execuções e toda uma série de actividades violentas, que incluíram o assassinato do primo da Rainha, Lord Montbaten, em 1979, e explosão de bombas em Londres. Os unionistas responderam com a sua própria organização paramilitar, apoiada pelo exército britânico, encarregado de estabelecer a ordem no que era para todos os efeitos uma região do país. Os católicos consideravam o exército e a polícia como forças ocupantes, conluiadas com os protestantes, e não faltaram verdadeiras situações de guerra urbana.

As duas comunidades separaram-se completamente, apesar de viverem nas mesmas cidades; tinham escolas, comércio e pubs separados e viviam em estado de violência permanente.

(Quem quiser conhecer o absurdo da situação que existia em Belfast, basta ler “Milkman”, de Anna Burns, que ganhou o Booker Prize em 2018. uma tradução em português.

O IRA criou um partido legal para defender os seus interesses, o Sinn Féin (tradução: “Nós Próprios”), e os protestantes, o DUP (Pardido Democrático Unionista). Havia outros partidos, entre os quais o Aliance, que agora ganhou nova importância – já lá chegamos.

Ao fim de incontáveis estropiamentos, mortes e destruição, finalmente, em 10 de Abril de 1998 celebrou-se o famoso Good Friday Agreement (Acordo de Sexta-feira Santa), que terminou o estado de guerra a deu início a um período de hostilidade pacífica, que se esbateu ao longo dos anos, mas ainda perdura – daí a manutenção dos muros entre as comunidades, assim como as escolas e comércio separados.

Os essenciais do Agreement são a amnistia para os criminosos de ambos os lados, a constituição de um Governo regional bi-partido (com um primeiro-ministro do partido que ganha as eleições e um vice-primeiro ministro do outro) e a livre circulação de pessoas e bens entre as duas irlandas.

Este último aspecto, a livre circulação, é que de facto mudou completamente o cenário, e tem permitido uma paz estável. Entretanto a Irlanda independente tornou-se um país desenvolvido e civilizado, e a do Norte só tem vantagens em participar desse mercado comum. Deixou de haver fronteiras, tanto entre as duas irlandas como entre elas e a ilha britânica, resultando num crescendo de trocas económicas e oportunidades de trabalho.

Ao nível político, deixou de correr sangue, mas continuaram os radicalismos. O Sinn Féin recusa-se a enviar para Londres os seus deputados eleitos para o Parlamento Britânico. Por outro lado, os dois partidos têm-se recusado a governar em conjunto, mantendo um executivo de gestão que pelo menos resolve os problemas do dia-a-dia. 

Tudo funcionava razoavelmente até surgir o famigerado Brexit. A República da Irlanda permanece na EU, onde aliás é um dos membros que mais tem beneficiado com o mercado comum, fazendo uma ponte informal entre a União Europeia e os Estados Unidos, onde há uma grande comunidade irlandesa. A IBM, Google, Microsoft, Intel, Apple e Facebook têm os seus escritórios europeus sediados em Dublin. Ao nível social, o país também se tem aproximado dos padrões da UE; basta dizer que o catolicismo deixou de ser a religião oficial e que um dos principais ministros, Leo Varadkar, é gay assumido.

A questão é como um país da União Europeia pode ter uma fronteira aberta com o Reino Unido, via Irlanda do Norte. Não pode, evidentemente. Mas a criação de uma fronteira entre as duas irlandas contraria a parte mais importante do Acordo da Sexta-feira Santa, a única que funcionava bem e a principal responsável pela paz entre as duas facções. As negociações sobre a separação entre Inglaterra e UE foram complicadas, mas acabaram por se resolver, com excepção do caso irlandês. É impossível não haver qualquer tipo de controlo na fronteira irlandesa, se não todas as limitações derivadas da separação britânica ficam com uma “porta do cavalo” que praticamente as anula. Theresa May tentou várias soluções, mas não conseguiu o apoio do Parlamento e acabou por cair. Boris Johnson foi eleito com a promessa de “get the Brexit done” e para tal tinha de encontrar uma saída. Muito ao seu estilo, criou uma situação dúbia, cheia de vaguidades e inoperante. Basicamente, a fronteira para bens entre a duas irlandas foi deslocada para o Mar da Irlanda, que separa a ilha da Irlanda da ilha da Grã-Bretanha. O movimento de pessoas também sofreu algumas limitações, mas nada que não se resolva caso a caso.

Claro que os unionistas objectaram imediatamente, tanto no Parlamento inglês, onde têm deputados eleitos, como na praça pública. Para eles, qualquer sinal, por mais pequeno que seja, de que não fazem parte integrante do Reino Unido é uma ameaça – o começo dum processo que poderá acabar, deus proíba, com a união da ilha da Irlanda, onde seriam uma minoria às mãos dos tenebrosos católicos.

As alíneas incluídas no Brexit, mal delineadas e ainda em discussão, são uma teia de pormenores e excepções. Certos produtos podem atravessar as fronteiras, outros carecem de fiscalização, algumas pessoas podem, outras precisam de visto, etc. etc. Uma alínea prevê que se o acordo não funcionar, uma das partes pode pedir revisão ou simplesmente anulá-lo – o que o substituiria, ninguém sabe.

E agora, no dia 5, aconteceu o impensável: pela primeira vez na História, o Sinn Féin obteve uma maioria nas eleições. E o Aliance teve a maior subida desde sempre, nove lugares. (Os resultados estão aqui). Na verdade, o Sinn Féin manteve 27 deputados, enquanto o DUP perdeu três, ficando com 25.

As razões desta mudança do eleitorado são várias, provavelmente todas concomitantes. Por um lado, o partido teve a inteligência de fazer uma campanha focada nos problemas diários, como o custo de vida e a inflação; por outro, evitou a questão da adesão à República da Irlanda através dum referendo.

Quanto ao DUP, centralizou a sua campanha no chamado Protocolo para a Irlanda do Norte, incluído no Brexit, que cria a tal “fronteira no Mar da Irlanda” e disse que se recusará a fazer parte do governo enquanto o protocolo não for anulado ou modificado.

Liz Truss, a ministra dos Negócios Estrangeiros inglesa, já disse que quer o documento anulado, contra a vontade da assembleia irlandesa; somando os votos dos vários partidos, 54 deputados são a favor da sua manutenção, 36 contra. A renegociação está prevista para 2024, mas os irlandeses não terão voz na matéria. Além disso, anular o protocolo obtido por Boris Johnson há cerca de dois anos seria uma contravenção da lei internacional.

Suspender o protocolo não resolve o trilema que o criou: a impossibilidade de deixar o mercado único e manter controlos alfandegários entre as duas irlandas ou entre a República e o Norte. Além do mais, qualquer tentativa britânica de mexer no protocolo levaria a longas disputas legais com a União Europeia, sem resultados visíveis durante anos.

Os irlandeses, sabendo que a charada do protocolo não tem solução à vista, preferiram votar no partido que lhes falou do que lhes interessa no imediato, os seus problemas do dia-a-dia.

O Sinn Féin não só teve o cuidado de não levantar o tema do referendo da campanha, atraindo os unionistas que o temem, como já disse que realmente não vai dar nenhum passo nesse sentido. Depois de anos de radicalismo bélico, os republicanos finalmente perceberam que é melhor ir devagar. Um dia, num futuro, poderá haver um referendo, que talvez decida uma união da ilha; mas o assunto não é premente.

Na prática, a vitória do Sinn Féin é apenas simbólica, uma vez que vai continuar a situação em que o partido minoritário se recusa a governar com o maioritário. O que também é simbólico, é o facto de a Aliança, que representa os pacifistas, aqueles que não querem disputas políticas que lhes compliquem o quotidiano, ter tido o maior ganho eleitoral. Ainda vai nos 17 deputados, mas teve um aumento de 100%. Talvez nesta postura pragmática esteja o futuro da Irlanda do Norte.

Ainda não foi desta vez que o círculo se tornou quadrado, mas a forma está menos arredondada. Se Londres não se meter numa daquelas aventuras de que Boris tanto gosta, talvez a situação se normalize ao ponto de um dia o Norte aceitar ser governado por Dublin.

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