A NATO (que os portugueses e os franceses durante anos tentaram chamar de OTAN) foi fundada em 1949 num contexto completamente diferente do actual e resistiu a várias vicissitudes, uma delas a sua própria razão de ser.

Como lembra o “The Economist”, o tempo de vida médio das alianças, nos últimos cinco séculos, foi de 15 anos; portanto esta devia estar ufanamente a comemorar uma longevidade notável. No entanto as “comemorações” foram mais atrapalhadas do que concordantes e os problemas que a organização sempre enfrentou são agora multiplicados pela presente situação geo-estratégica.

Um preconceito que as esquerdas europeias sempre tiveram em relação à organização é que era mais uma, se não a maior, demonstração do imperialismo norte-americano, tentando colocar a Europa na sua órbita de influência. No entanto, o conceito original da NATO foi exactamente o oposto: proteger a Europa.

Na conferência de Yalta, em 1945, quando a derrota da Alemanha já era inevitável, as potências Aliadas – Estados Unidos, Reino Unido e União Soviética (URSS) - reuniram-se para decidir as suas zonas de influência no pós-guerra. Nessa época, embora fosse reconhecido que o regime soviético não tinha nada de semelhante com as democracias ocidentais, a URSS era vista como uma das vítimas do nazismo e não como um agressor; além disso, as piores barbaridades de Estaline ainda não eram conhecidas e as diferenças de regime não pareciam tão dramáticas. Foi portanto possível fazer um acordo sobre que países europeus ficariam na “custódia” de cada um dos três vencedores, admitindo-se que seriam os próprios países a escolher democraticamente os seus governos.

Esta situação deteriorou-se nos anos imediatos à vitória de maio de 1945, quando nos países sob a área de influência da URSS os respectivos partidos comunistas aplicaram o método leninista de tomada do poder, eliminando todas as forças políticas e estabelecendo regimes ditatoriais “populares”, muitas vezes com a participação activa do exército soviético. Somente na Grécia, que tinha sido distribuída ao “lado ocidental”, os comunistas não só não tomaram o poder, como foram eliminados.

Os ingleses e norte-americanos esperavam e incentivavam que os países europeus saídos da II Guerra Mundial tivessem governos democráticos e resolvessem as suas diferenças pacificamente, numa nova harmonia que viesse a evitar futuros conflitos. Estaline tinha uma visão diferente; queria garantir a sua segurança, controlando os assuntos internos dos países vizinhos. Contudo, o Reino Unido estava tão arrasado pela guerra como os outros países europeus, e muito naturalmente a situação polarizou-se entre as duas grandes potências militares, Estados Unidos e União Soviética.

A situação agudizou-se quando, em 1948, os três ocupantes ocidentais da Alemanha - Estados Unidos, Reino Unido e França - decidiram entrar num processo de unificação das suas áreas, tendo em vista uma Alemanha independente. Estaline opôs-se à ideia, com a justificação de que uma nova Alemanha se tornaria novamente uma ameaça. Assim se criou a divisão entre República Federal e República Democrática, sendo que Berlim, igualmente administrada pelos quatro países, ficava isolada na zona “democrática”. Os russos fecharam a fronteira e os norte-americanos criaram um corredor aéreo para abastecer a cidade sitiada.

Mais peripécias levaram a que a separação entre a Europa democrática e a Europa socialista se tornasse cada vez maior, criando-se aquilo a que Churchill famosamente chamaria “a cortina de ferro” logo em 1946. Estava oficializada a “Guerra Fria” que opôs os Estados Unidos e a União Soviética até à implosão desta última, em 1991.

Uma vez que os países europeus, todos mais ou menos arrasados pela guerra, não tinham condições de se defender contra uma possível invasão russa, surgiu então a ideia de criar um pacto entre eles e os Estados Unidos, a única potência militar no mesmo patamar da URSS. Nasceu assim a North Atlantic Treaty Organization, em 1949, com 12 países, que com os anos chegaram aos presentes 29. O conceito essencial da NATO era a protecção mútua: se um membro fosse atacado, todos os outros iriam em seu auxílio. (Embora isso não fosse expresso literalmente, o cenário considerado mais provável era uma invasão da Alemanha Federal.) A URSS respondeu imediatamente com o Pacto de Varsóvia, juntando todos os seus satélites.

Não cabe aqui – não há mesmo espaço – para contar os inumeráveis episódios da Guerra Fria, desde as centenas de conflitos localizados, como a Guerra de Angola, até à chamada “Crise Cubana dos Mísseis”, em 1962, passando pelas peripécias de espionagem, mudanças tele-comandadas de governos nacionais e toda uma narrativa lendária de espionagem. A situação passou da Europa para o Oriente e chegou-se a uma divisão mundial entre “capitalistas” e “socialistas”, cujas diferenças de ideologia eram tanto justificação como desculpa para disputar fontes de matérias-primas e interesses económicos.

O que interessa é que o desaparecimento da União Soviética, em 1991, fez também desaparecer a razão de existência da NATO. Todavia, a Europa continuando sem exércitos que se vissem, pois o anti-militarismo tornou-se dominante e o serviço militar obrigatório foi eliminado em vários países, todos os membros concordaram que era uma boa ideia manter a aliança, agora sustentada pelo maior poder militar do mundo, os Estados Unidos.

Em termos práticos, décadas de preparação para uma guerra que nunca chegou a acontecer transformaram a NATO numa imensa máquina burocrática (muito bem representada pela imponência sumptuosa do edifício-sede, em Bruxelas) que ninguém sabe se realmente tem capacidade operacional. A organização interviu em alguns conflitos localizados e ameaçou interferir noutros, mas realmente nunca teve de enfrentar o seu destino.

A Rússia, depois do período de fraqueza quando o sistema comunista foi desmantelado, voltou ao grupo das grandes potências, agora como um país capitalista com um governo autocrático. Com Putin, continua abertamente um adversário, mesmo que a ideologia tenha mudado. A atuação do próprio Putin em várias ocasiões tem visado as democracias europeias e o líder russo não tem escondido a vontade de expandir novamente o país.

Entretanto a NATO, não servindo realmente para nada de concreto, vivia uma existência tranquila, proporcionando cargos muito compensatórios às altas patentes dos países membros e fazendo “jogos de guerra” de vez em quando, para dar prova de vida.

Este quadro idílico mudou quando Donald Trump se tornou Presidente, em 2017, e alterou os objectivos estratégicos dos Estados Unidos. Um dos seus mantras é que os norte-americanos não têm de sustentar a segurança dos seus aliados. Ora, existe um compromisso dentro da NATO, institucionalizado em 2014, de que os estados-membros devem alocar 2% do PIB para a defesa, compromisso esse que a maioria não cumpre.

Quem gasta mais são os Estados Unidos, 3,6%, embora se possa argumentar que o faz para manter a sua hegemonia mundial e não especificamente por causa da NATO. A Grécia, estranhamente, gasta 2,4%, o Reino Unido 2,1% e a Polónia 2%. Os outros estão todos abaixo.

Trump tem feito uma enorme pressão sobre a NATO, questionando até se vale a pena mantê-la, enquanto se declara grande amigo de Putin, Xi Jinping, Kim Jong-un e outros declarados ou implícitos inimigos dos países da Aliança.

Neste quadro bastante depressivo para a organização, surgiu no mês passado um novo engulho: a Turquia, membro da NATO, comprou equipamento militar aos russos e atacou os curdos, considerados aliados dos ocidentais. Trump endossou a atitude de Erdogan, enquanto os governantes europeus se ficaram pela já habitual atitude de “não gostamos mas não vamos fazer nada”.

Foi neste ambiente que ocorreu a reunião de Londres. Dias antes, e a propósito da acção dos turcos, o Presidente Macron afirmou que a NATO “está em morte cerebral”, o que causou um grande mal-estar entre líderes habituados a falinhas mansas. E foi esta afirmação de Macron que levou a que Trump, logo no primeiro dia da reunião, dissesse exactamente o contrário, contradizendo-se também em relação a declarações anteriores, o que causou mais confusão e mal-estar.

Trump, sempre igual a si próprio, deu uma conferência de imprensa espontânea de 45 minutos, que terá sido motivo de conversa entre os outros líderes – o que o levou a considerar que Justin Trudeau tem "duas caras" – e finalmente meteu-se no Air Force One para Washington antes de a conferência acabar.

Como é de praxe, os chefes de Estado emitiram uma declaração finalcom nove alíneas, que consegue, em muitas palavras, não dizer nada. Mais uma obra-prima da linguagem diplomática. Quer dizer, todos se comprometem a defender-se uns aos outros e a gastar 2% do PIB em defesa, todos reconhecem que há novos desafios a vencer, que os perigos são muitos, que há que estar unidos, e por aí fora.

O que se seguirá? Muito provavelmente, “tudo como dantes, quartel de Bruxelas” – não rima, mas é verdade.

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