Mesmo em cima do fim do ano perdemos Amos Oz, um homem inteligente e moral, um combatente sereno pela paz e pelo bem. Faz sentido juntar-nos a todos neste sentido de perda, porque a consciência dele e aquela mente clara se tornaram preciosas para que possamos entender os mecanismos das paixões humanas que levam ao fanatismo, coletivo ou individual. O ano que acaba ficou marcado pela grave inflamação do que no ser humano leva à intolerância e ao ódio. Até no mais elementar: vemos como em comentário a textos de opinião a simples discordância é logo traduzida em insulto e descarga de ódios.

Amos Oz é o exemplo de militante do entendimento e da procura de soluções para a harmonia. Oz é um pseudónimo, que em hebraico significa “força”. Ele transmitia essa sensação de força, para o bem. Uma viagem em reportagem permitiu-me encontrá-lo uma vez, vê-lo e ouvi-lo ao vivo. Impressionou a energia cristalina como a daquele azul de transparência celeste nos olhos num rosto vincado pelas rugas e marcado pela vida num lugar construído em cima da areia do deserto do Neguev. Também impressionou a altura daquela voz, sempre voz baixa, quase sussurrada, no entanto cheia de força e a dizer palavras carregadas de beleza. E o humor constante.

Recordo uma anotação que então inscrevi no velho bloco de notas: “os fanáticos são sentimentalões sem salvação” (ele disse-o a sorrir). Amos Oz incitou-nos sempre a sermos capazes de nos colocarmos no lugar do outro e procurar entender o que ele sente e pensa. Avisava que “só assim é possível chegar a pactos”. Deixou sempre clara a lição: sem entendimento ficamos sempre insatisfeitos, precisamos de saber chegar a um ponto de encontro.

Amos Oz era um fervoroso crente na solução de dois Estados naquela Terra Santa onde vivia: Israel e a Palestina, com as fronteiras definidas pelas linhas de marcação precedentes à Guerra dos Seis Dias, em 1967. Oz morreu, levado por um cancro, com a noção de que essa solução necessária pode demorar muito, muito tempo a ser realizada, mas não tem alternativa. Depende de muitos, dos EUA, da Europa, de Israel e dos árabes e, neste momento, há demasiadas hostilidades.

Li neste último mês a tradução para francês, com o título Chers Fanatiques, de um livrinho (128 páginas) que junta três textos de Amos Oz. Num deles, neste último livro publicado em vida de Oz, ele alerta: “Sem a opção rápida pelos dois Estados, é muito provável que, para impedir o estabelecimento de um Estado árabe entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, se instale uma ditadura temporária de judeus fanáticos, um regime racista que hostilizará ao mesmo tempo, árabes e judeus moderados”. Amos Oz temia mais do que um banho de sangue.

Amos Oz tinha a noção de que os tempos atuais, em especial nestes últimos dois anos, estão nefastos para a tolerância e para o triplo ideal de fraternidade, igualdade e liberdade. Mas acreditava que este tempo dominado pelo medo e pelo ódio vai ter uma alternativa porque “se não formos capazes de conseguir um compromisso com os nossos vizinhos, não seremos capazes de sobreviver”.

Amos Oz é um gigante da paz e da tolerância.

VALE VER:

The New York Times, através da reportagem de David M. Halbfinger, leva-nos a entender, a partir de um caso, a realidade da vida na Faixa de Gaza.

O Brasil entrou na era Bolsonaro, no mesmo ano em que o mundo foi sacudido pela notícia do brutal assassinato de Marielle Franco. Essa memória é-nos trazida agora pelo The Guardian.

Imagens que marcam 2018, escolhidas por El País.

Três primeiras páginas escolhidas neste último dia do ano: esta, esta e esta.

Melhor 2019.

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