Muitos dos eleitores que prometiam fidelidade eterna a Trump deixaram de lhe achar graça. A três meses de 3 de novembro, que é o dia marcado para eleições nos EUA, todas as sondagens dão Trump derrotado. Biden é favorito para ser o próximo presidente dos EUA, e a escolha que anunciar esta semana da candidata a vice-presidente pode compensar o carisma que lhe falta. Mas neste 2020 que a pandemia tornou fatídico, tudo pode ainda acontecer.

Trump sabe que, com as coisas como estão, vai ser posto fora da Casa Branca. Mas está a tentar tudo, à maneira de Frank Underwood, para passar do fracasso anunciado para um cenário miraculoso de vitória. A esperança dele requer ganhar tempo, daí ter-lhe surgido na cabeça o estratagema de adiar as eleições, com duplo pretexto: por um lado, o risco de multidões a votar com o vírus à solta, por outro, a suspeita injustificada de que o voto por correio é propício à fraude eleitoral. Este expediente faliu logo no dia em que foi tuitado.

A data das eleições nos Estados Unidos da América (“na terça-feira depois da primeira segunda feira de novembro de cada quatro anos”) está fixada por legislação federal desde 1845, e o presidente não tem competência para, unilateralmente, alterar esta regra. Precisaria de recorrer ao Congresso, onde os democratas, com maioria na Câmara dos Representantes, nunca viabilizariam esse desejo de Trump. Acrescente-se que os republicanos, liderados por Mitch McConnell, também não alinham com essa ideia de subversão da regra e foi mesmo o líder da maioria republicana no Senado a deixar claro que “o dia das eleições é 3 de novembro e assim se fará”. Para reforçar a determinação McConnell lembrou que “nunca na história dos EUA, que foi atravessada por guerras e depressões, deixámos de celebrar as eleições na data fixada pela regulamentação federal”. Assim, a conveniência de Trump de adiar as eleições fica afastada. Mas, com Trump e quando a pandemia está um cataclismo nos EUA, ninguém pode garantir que a normalidade democrática vai ser cumprida.

A data das eleições nos Estados Unidos da América (“na terça-feira depois da primeira segunda feira de novembro de cada quatro anos”) está fixada por legislação federal desde 1845, e o presidente não tem competência para, unilateralmente, alterar esta regra

As dúvidas também passam pela contagem dos votos, exposta a muitas querelas, com contagens, recontagens e recursos judiciais. Sabemos como o sistema judicial dos EUA está submetido à influência do sistema político. Ainda hoje há suspeitas de que juízes eleitorais no estado da Florida, na sequência de várias recontagens de votos, ofereceram a presidência a George W. Bush e derrotaram Al Gore, com as decisões sobre recursos que resultaram em vitória de Bush por apenas 577 votos – mas os bastantes para, através da vitória naquele estado, lhe dar a presidência. Vários precedentes de suspeita assim levantam o receio de que o pesadelo de muitas embrulhadas entre pela contagem de votos destas próximas eleições. É por isso que vários estrategos do campo democrata estão a insistir que a Biden não basta ganhar, precisa de triunfo expressivo, tão claro que não deixe qualquer margem para dúvidas e contendas.

Trump revelou-se um perdedor. O golpe da pandemia arrebatou-lhe o principal argumento, servido de bandeja, com que Trump contava para a reeleição fácil: o ciclo de pujante crescimento da economia. A economia robusta servia para muitos eleitores deixarem de lado as dúvidas levantadas pela errância e desfaçatez do Presidente. Mas não só a economia entrou em colapso sem precedentes (32,9%em taxa real. no segundo trimestre deste ano), arrastando milhões de americanos para o desemprego sem proteções, como ficou à vista de todos a desgraça causada pela condução de Trump na resposta à pandemia.

O Presidente, obcecado pelo interesse eleitoral pessoal, forçou a reabertura económica dos diferentes estados e assim contribuiu para a desgraça que está o curso da pandemia nos EUA. Trump desprezou recomendações de peritos que teriam ajudado a conter a propagação do vírus. Não só ridicularizou o uso de máscara como desqualificou a importância da distância social como proteção. Com a pandemia, a vida dos americanos ficou ameaçada por Trump, e esse pesadelo não lhe é perdoado por muitos dos que tinham votado nele. O presidente que pretende mostrar-se forte revela-se um fraco. Clama pela ordem mas instala a desordem. Quando a tensão racial reclamava sabedoria apaziguadora, o Presidente interveio para ampliar o incêndio.

Trump é um perdedor mas Biden não é um ganhador.  Todas as sondagens dão Biden na frente e Trump reprovado. Mas é generalizada a opinião de que este quadro resulta mais do demérito de Trump do que do mérito de Biden. Ninguém tem memória de algum desempenho notável de Biden no tempo em que foi vice de Obama.

Nos EUA, na eleição presidencial, vota-se numa dupla: presidente e vice. A escolha de Biden para nº2 pode dar à candidatura o carisma e robustez que lhe faltam. Tem-se como certo de que a escolha incidirá numa mulher e provavelmente negra. Há uma larga dezena de personagens fortes com estas características a agitar as apostas para a escolha que vai ser anunciada nesta semana.

Entre as dez, há três nomes mais fortes: a reformista, eloquente e popular Kamala Harris, 55 anos, senadora pela California, onde foi Procuradora Geral; Susan Rice, 55 anos, elogiada estratega da diplomacia de Obama, de quem foi conselheira de segurança; Karen Bass, 66 anos, uma das mais produtivas legisladoras, aplaudida pelas propostas de apoio à saúde pública, aos estudantes e pela defesa dos direitos humanos.

Os dados disponíveis hoje, 3 de agosto, sugerem que Karen Bass está mais perto de ser a escolhida. Mas, tanto Kamala como Rice também têm argumentos de peso. Qualquer delas dará robustez e ampliará votos na candidatura encabeçada por Biden.

Mas tudo nestas eleições de 2020 nos Estados Unidos tem uma dose de incerteza. Nem sequer se sabe como vão decorrer as convenções, tanto a democrata como a republicana. Costumam ser o grande espetáculo político de aclamação das candidaturas de cada um dos lados. Os democratas marcaram a convenção deles para 17 de agosto em Milwaukee (Wisconsin), e uma semana mais tarde é a vez dos republicanos, em Charlotte (Carolina do Sul). Com o coronavirus à solta parece impensável que muitos milhares de pessoas fiquem apinhadas num lugar fechado.

Se Frank Underwood estivesse no lugar de Trump deveria estar a urdir qualquer coisa para tentar que milhares de afroamericanos enfurecidos fossem mobilizados para atacar a convenção republicana. Todos estão prevenidos para o estilo das personagens. Mas a incerteza continua a dominar os capítulos desta temporada.

A ver:

O cinema volta aos festivais, nesta semana em Locarno.

A arte para fotografar.

Esta capa da Der Spiegel.

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