Annan era um aristocrata da diplomacia, um homem de esperança, poliglota, sempre cortês e elegante - Jaime Gama, Jorge Sampaio, Durão Barroso, Ramos Horta, o próprio Guterres, todos verificaram isso em momentos cruciais. Quando em 1997 iniciou dois mandatos como secretário-geral, Kofi Annan tinha a ambição de conseguir que a ONU se tornasse um instrumento eficaz de pacificação. Conseguiu esse êxito em Timor-Leste. Em quase tudo o mais, sendo um grande homem de paz, perdeu a paz.

O balanço da década de um estimulante homem generoso como Kofi Annan na secretaria-geral da ONU tem ensinamentos que António Guterres seguramente teve em conta ao assumir o cargo: é muito difícil, talvez impossível, por muito engenho e coragem que se tenha, contornar os bloqueios que resultam dos interesses opostos das grandes potências que há 70 anos paralisam as Nações Unidas.

O secretário-geral da ONU tem a possibilidade de se impor como um papa laico. Tem o poder da palavra – a procura de compromisso, quase sempre, leva-o a não dizer tudo o que desejaria dizer -, tem a tarefa de comandar a insuportavelmente complexa burocracia do sistema ONU, mas o poder de decidir escapa-lhe, está no Conselho de Segurança que, através do sistema de vetos, bloqueia sistematicamente qualquer bom avanço. Diga-se uma vez mais: o processo de independência e pacificação de Timor-Leste é um raro pleno positivo para a ação determinante por parte da ONU.

Guterres em ano e meio de mandato tem tentado muito intervir para fazer parar infâmias como são a guerra na Síria ou a asfixia da Palestina. Acaba de apresentar um plano com várias medidas humanitárias e de desenvolvimento para proteger a população palestiniana. O costume diz-nos que os EUA, alinhados com Israel, vão bloquear tudo. Kofi Annan também quis muito baixar a tensão e aliviar a tensão na Terra Santa. Há sempre interesses mais poderosos a barrar a esperança.

Também tem sido assim na Síria. Mas não apenas em tabuleiros obviamente principais para o jogo das superpotências. Até na Birmânia da Nobel da paz Aung San Suu Kyi a ONU penou para chegar à proteção dos muçulmanos rohingyas.

Os pais fundadores da Organização das Nações Unidas, logo a seguir à devastação da Segunda Grande Guerra, pensaram que a ONU deveria ter as suas forças armadas, um exército com tudo o que fosse necessário para impor a paz. As grandes potências têm sempre rejeitado essa autonomia. A ONU intervém como força militar em vários conflitos, mas com recurso a tropas dos países membros. As potências não deixam transferir para a ONU a intervenção nos conflitos principais.

Kofi Annan apareceu no sistema da ONU em 1993, quando o então secretário-geral Boutros-Boutros Ghali o escolheu para adjunto e, ao mesmo tempo, líder dos Capacetes Azuis, força de paz então criada sob a bandeira da ONU. Teve como primeiras missões as crises graves na Somália, no Ruanda, nos Balcãs e no Iraque. Correu sempre mal porque os Capacetes Azuis nunca tiveram meios para serem eficazes. Porque as potências não quiseram que a ONU tivesse autonomia.

A missão na Somália afundou-se nos massacres em Mogadiscio.

Na crise dos Grandes Lagos de África, o comandante canadiano dos Capacetes Azuis pediu repetidamente meios para uma ação militar preventiva que evitasse o massacre das etnias em confronto no Ruanda. A luz verde nunca chegou, o contingente ONU foi sempre mínimo e o genocídio no Ruanda foi de pavor.

Nos Balcãs, também trágico o massacre de Srebrenica, apesar de declarada zona se segurança, mas à mercê das milícias sérvias.

Em 97, Kofi Annan subiu a secretário-geral da ONU. Foi imposto pelos EUA, contrariando vários países, encabeçados pela França, que queriam segundo mandato para o egípcio Boutros-Boutros Ghali. Mas os mesmos americanos logo abandonaram e ultrapassaram Annan quando este se bateu para evitar a invasão do Iraque. Annan tentou tudo. Foi a Bagdad e posou para a fotografia a apertar a mão a Saddam. Convenceu-o a consentir inspeções internacionais no Iraque – mas não convenceu a gente de Bush a ir primeiro ver se Saddam tinha ou não armas de destruição maciça. Quando verificaram que não havia, já estava desencadeada a terrível guerra interminável que o secretário-geral da ONU declarou ilegal. Annan até foi Nobel da Paz, mas voltou a perder a paz.

É certo que conseguiu impor uma trégua entre Israel e a Hezbollah (2006) e harmonizar a complexa transição para o poder civil na Nigéria (1998). Lançou os ambiciosos objetivos de desenvolvimento para o novo milénio, mobilizou campanhas e fundos para o combate à SIDA, à tuberculose e à malária. Contou com Jorge Sampaio para vários desses esforços.

Nos 12 anos decorridos desde que deixou o posto de secretário-geral da ONU, Kofi Annan dedicou-se a tentar vitalizar a missão que deixou incompleta nas Nações Unidas. Foi mediador na pacificação do Quénia quando este país mergulhou em onda de violência. Para além de ações de proteção de populações desfavorecidas, de promoção do bom governo e do combate à corrupção, da mobilização para a agricultura sustentável em África, Annan interveio repetidamente com propostas para reforma da ONU e, em particular, do paralisante Conselho de Segurança.

António Guterres, com maneiras cordiais muito semelhantes às de Annan, lá no 39º andar do arranha-céus da ONU em Nova Iorque, desenhado pelo brasileiro Oscar Niemeyer com o franco-suiço Le Corbusier, há-de pensar muitas vezes na experiência de Kofi Annan: respeito, grandeza nas intenções– mas impotência para impor a paz e a proteção de populações abusadas.

A missão impossível de todos no topo da ONU tem sido a de conseguir que o secretário-geral possa ser mais do que um administrador dos funcionários de uma organização imensa, complacente perante o maligno sistema de bloqueios governado pelas potências, com EUA e Rússia à cabeça. A inação ou a impotência de líder sem poder para liderar tem deixado que sigam sucessivos horrores e banhos de sangue.

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