Para isso, é preciso apostar na informação, na educação e na sensibilização. É fundamental iniciarmos uma conversa sobre violência sexual contra homens e rapazes e debater questões que são mais específicas, como, por exemplo, onde acontecem este tipo de casos ou quem são os abusadores. Há também outras que são estruturais, nomeadamente as expectativas sociais sobre o papel do homem.

Em média, um rapaz que tenha sido abusado sexualmente na infância demora cerca de 26 anos até procurar apoio, e em alguns casos são 40, 50 ou mesmo até 60 anos em silêncio. Entre os principais obstáculos que os próprios sobreviventes identificam, encontram-se fortes sentimentos de vergonha e autoculpabilização relacionados com o abuso. Mas estes não são os únicos fatores. Os estereótipos de género sobre como o homem deve comportar-se também influenciam a forma como são geridas as consequências do abuso e o acesso aos serviços de apoio. A crença de que os homens não podem ser vítimas de violência sexual tem um peso muito forte (algo que assistimos bastante no trabalho que realizamos nas escolas) e pode impedir os sobreviventes de procurar apoio. Ideias como “um homem a sério não chora” ou “homem que é homem resolve os seus problemas sozinho, não pede ajuda”, contribuem para esta narrativa nociva e reforçam estereótipos de género, acabando por se tornar obstáculos.

No primeiro mês de atividade da Quebrar o Silêncio - a primeira associação portuguesa de apoio especializado a homens sobreviventes de violência sexual - registámos 19 pedidos de apoio, 6 dos quais ocorreram nas primeiras 24 horas. Desde então, os números têm aumentado e, à medida que vamos sensibilizando para a realidade de que os homens também podem ser vítimas de violência sexual, vamos registando alguma mudança. Apesar da resistência que encontramos (e encontramos muita), a verdade é que assistimos a alguns avanços fundamentais. Exemplo disso é o reconhecimento da "intervenção junto de homens vítimas de violência doméstica e de violência e abuso sexual” como área específica do Plano de Ação para a Prevenção e o Combate à Violência Contra as Mulheres e à Violência Doméstica 2018-2021, integrada na Estratégia Nacional para a Igualdade e a Não Discriminação – Portugal + Igual, que foi aprovada pelo Governo em março de 2018.

O trabalho que falta fazer agora passa por criar um contexto social em que os homens se sintam seguros e protegidos para poderem partilhar as suas histórias e procurar apoio, sem recearem ser mal recebidos, desacreditados e até mesmo responsabilizados pelo próprio abuso de que foram vítimas. Estará a sociedade pronta para dar este passo?

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