“Who is America?” é o novo projecto televisivo de Sacha Baron Cohen, e a fórmula não dista muito daquilo que popularizou o actor. Exclusivamente centrado nos Estados Unidos, o programa traz Cohen dentro de novas caras, novas personagens, e confronta-as com cidadãos americanos de diferentes notoriedades - tanto peixe graúdo como arraia-miúda. Há políticos, celebridades de reality shows, elites, mas também working class anónima ou líderes de pequenos grupos activistas. Apesar da diversidade dos intervenientes apanhados (porque isto não deixa de ser um programa de apanhados, um “E se Fosse Consigo” da 1ª divisão) o objectivo passa por retratar uma ideia tipificada, coesa, da América. Já vimos retratos mais generosos.

Três factores estimularam a expectativa em torno deste “Who is América?”. O primeiro era o regresso de Baron Cohen, não só à televisão, mas sobretudo ao programa de apanhados/mockumentary, com o britânico a lançar as suas personas ficcionadas para junto de pessoas reais e despercebidas. Ou seja, isto podia entender-se como um retorno aos formatos onde Sacha tinha sido mais inventivo: o formato da TV, e o formato de certo descontrolo. Quer no “Da Ali G Show”, quer no filme do Borat, quer no filme “Brüno”, por muito que existisse um planeamento rigoroso e uma montagem orquestrada, a verdade é que havia o lado impossível de controlar – o da reacção das personagens reais face àquelas mirabolantes personagens fictícias. Mas o descontrolo também chegava ao próprio Baron Cohen, a ser muito mais surpreendente quando lançado na realidade. Sempre que foi protagonista de filmes 100% ficcionais, com argumento e sem o elemento real (caso de “Ali G – O Filme”, “O Ditador” ou “Irmãos e Espiões”), Sacha ficou aquém. A irreverência dos textos não é suficiente. Na coragem descarada mora o seu maior trunfo.

O segundo factor a causar expectativa está intimamente ligado ao anterior. Com os alter ego Ali G, Borat e Brüno, Sacha Baron Cohen não se limitou a baralhar meio mundo; ele atingiu sucesso e notoriedade no mundo inteiro. Assim sendo, era impossível continuar a ludibriar as pessoas com figuras que as pessoas conhecem de ginjeira. Havia então essa expectativa: como é que Sacha, uma cara conhecida com disfarces conhecidos, ia conseguir continuar a enganar os seus entrevistados? Quão maquilhado teria ele de estar, ou quão incautos teriam de ser os seus alvos? O que ficava óbvio é que o rol de personagens iria renovar-se.

A 3º expectativa veio na forma dum habilidoso golpe publicitário. Habilidoso porque não foi preciso fazer nada. Para o “Who is América?” ser falado e aguardado, bastou que alguns dos protagonistas trapaceados começassem a refilar publicamente do logro. Sarah Palin, antiga candidata à vice-presidência dos Estados Unidos, foi o caso que despoletou amplo interesse na série até aí praticamente desconhecida. Numa mensagem azeda nas redes sociais, Palin revelou ter sido feita parva por Baron Cohen. Julgou estar a ser entrevistada por um veterano das forças armadas, mas afinal era o comediante inglês debaixo de maquilhagem prostética e com um sotaque enganador. Quem é que não quereria ver isso?

A personagem com quem Sarah se deparou é Billy Wayne Ruddick, uma caricatura dos teóricos de conspiração alinhados com a alt-right (como se fosse o Alex Jones dos pobres). Tanto entrevistou Palin como Bernie Sanders, duas personalidades políticas absolutamente opostas. Apesar deste espectro alargado, é previsível que a crítica subentendida só tenha um lado – Baron Cohen envergonhará quem quer que seja que concorde com as ideias estapafúrdias do seu personagem. E a sátira agrava-se exactamente nisto: por mais estapafúrdia que nos pareça a ideia, haverá sempre algum americano a concordar.

Nos 3 episódios já transmitidos em Portugal (canal TV Séries), a personagem a surgir um maior número de vezes foi a do coronel israelita Erran Morad, que se anuncia como agente da Mossad (e logo a seguir nega-o, porque é suposto ser segredo). Erran joga com o fascínio idealizado que alguns americanos têm sobre Israel — o do Estado que faz o que for preciso para se proteger, e que normaliza a violência para lá dos padrões comuns. É através dessa ilusão que Morad vai arrancar os comportamentos mais espalhafatosos e chocantes das pessoas com quem interage. A estratégia é fácil: procurar gente que seja tão devota de armas de fogo como de xenofobia. Depois, basta valer-se do fetichismo pela Mossad: se um método resulta, então está válido, mesmo o mais absurdo. É aqui que Cohen vai sugerir (e conseguir) comportamentos perfeitamente absurdos por parte das suas “vítimas”. Quando digo que se trata das humilhações do século, não sei até que ponto exagero. Que o diga Jason Spencer, um legislador do Estado da Geórgia que se demitiu depois de ter aparecido no 2º episódio de “Who Is América?”. Lá, Spencer baixava as calças e gritava palavras proibidas por sugestão dum Sacha Baron Cohen disfarçado. Algo me diz que veremos humilhações maiores antes do fim da série.

Para além de Ruddick e Morad, há outra personagem recorrente no programa: Dr. Nira Cain-N'Degeocello. É a encarnação de Sacha que parece vir equilibrar politicamente a balança, visto ser uma caricatura da esquerda ultraliberal (no entendimento norte-americano do termo). Esta figura apresenta zelo insano pelas terminologias sociais, raciais e de género (numa sequência hilariante no 3º episódio, Nira praticamente repreende o rapper negro Bone Crusher por se assumir como “black”, classificando essa palavra como uma odiosa “B-word”; o correcto seria “Afro-marginalizado”). Apresenta ainda militância de culpa branca, para além de ser um neo-hippie nos costumes e na pansexualidade. Parecia trazer o tal equilíbrio político porque, de facto, há uma zombaria subjacente em todas as intervenções excêntricas da personagem. Contudo, mais do que essa zombaria com a esquerda, o Dr. Nira tem sido usado sobretudo para registarmos as reacções extremadas dos conservadores com quem interage. Fica claro qual o alvo primordial do programa.

Que problemas detecto, então, no programa? Se por um lado saudei o regresso de Sacha Baron Cohen àquele que tinha sido o seu melhor formato, há que convir que, 20 anos depois, parte considerável da surpresa se perdeu para o espectador. Para além disso, o clima que justificou este tipo de comédia no início do século (mote do meu texto na semana passada) foi substituído por outras circunstâncias. Cohen talvez tenha tentado acompanhar as exigências do tempo com um programa ainda mais orientado para a mensagem política, procurando assim ombrear com os Jon Stewart, os John Oliver, os Bill Maher, ou os Stephen Colbert desta vida. O problema é que em tempos de Trump e de populismo, a via trapaceira, aparatosa e chocante da comédia política arrisca-se a não chocar assim tanto.

Para além disto, o esforço satírico do “Who is América?” revela mais entusiasmo na tentativa que no resultado. Há várias falhas disfarçadas na maneira como o programa é conduzido, sendo essa “condução” um sintoma claro de como a coisa nem sempre funciona. Baron Cohen está sempre à caça de reacções absurdas por parte das suas “vítimas”, mas é notório que as coisas mais irracionais e ridículas que ele arranca de algumas pessoas só acontece pela acção dos seus bonecos. Quer mostrar-nos um lado sombrio, ignorante e perigoso dos americanos, só que esse negrume nem sempre é obtido de forma natural, e depende duma espécie de coacção nas propostas estupidificantes das personagens de Cohen. Há quem simplesmente alinhe na bizarria em frente às câmaras, porque é demasiado estranho até para se estranhar.

Considerando isto, torna-se óbvio que o retrato que o inglês quer fazer dos Estados Unidos é viciado e desumanizado. Sacha Baron Cohen só dá por revelada uma pessoa quando ela faz transparecer os seus piores defeitos. É como se a única América genuína fosse uma América defeituosa – embora isto tenha efeitos cómicos mais interessantes, faz-nos sempre duvidar das conclusões sociopolíticas para onde o programa se quer encaminhar. É claro que o autor poderá assumir-se como um brincalhão sem agenda; isto, sendo mentira, tem o seu fundo de verdade: o programa tem mais preocupação em insinuar objectivos políticos do que propriamente em defini-los. Ora, a agenda pela agenda não é agenda nenhuma.

Há, outra vez, que considerar o elefante na sala (até porque o paquiderme é o símbolo do Partido Republicano). Donald Trump na presidência dos Estados Unidos é um manancial de comédia (e de tragédia) tão gigantesco que quase torna a comédia obsoleta; não poucas vezes a realidade tem transcendido a piada. A própria afirmação da “realidade transcende a piada” se tornou num lugar-comum. Então, para além de Cohen estar a arriscar-se a visar uma matéria estafada (e são os Estados Unidos de Trump que ele visa), está também a ser uma sirene tardia para um incêndio que todos vemos há muito. Já não existe uma América perigosa, perniciosa e embrutecida que precisa de ser revelada; essa é a América mais badalada desde as eleições presidenciais de 2016.

Finalmente, há que apontar alguns momentos falhados, sobretudo por nos fazerem duvidar se Cohen tem sequer consciência do falhanço. Nos episódios transmitidos até agora, Bernie Sanders e Dick Cheney destacam-se como os entrevistados mais mediáticos. Embora nenhum desses sketches fosse absolutamente desprovido de piada ou olvidável (e o humor boçal arremessado a Cheney talvez venha a perdurar), acontece que ambos os políticos reagiram com desinteresse e condescendência durante toda a situação. Nem mesmo as sucessivas rasteiras pregadas ao antigo Vice-Presidente surtiram efeito; Cheney limitou-se a pequenos consentimentos que nunca o comprometeram. Noutro sketch, Sacha tenta ridicularizar uma concorrente descerebrada dum reality show descerebrado – logo por si uma tarefa preguiçosa, ainda para mais inquinada pelo ardil montado à pobre azêmola. Noutra situação ainda, a personagem ultraliberal vai escarafunchar o racismo numa pequena comunidade no Arizona, mas a maneira como enreda a população é tão malvada que qualquer graça fica em perigo (como se o racismo, por si só, não fosse já suficientemente desengraçado).

Quase a entrar na 3ª década do séc. XXI, Sacha Baron Cohen propôs-se a auscultar os Estados Unidos de uma forma mais profunda do que já tinha feito. Só que em vez de um diagnóstico, há um dedo na ferida – um dedo disfarçado, prostético, e cheio de sal. Podemos ficar frustrados com este pontapear de uma América caída, e podemos temer que se comece a martirizar um populismo que se devia excisar. Talvez se salvem algumas gargalhadas. Será que salvam?

Sítios certos, lugar certos e o resto

Anda meio Portugal a martirizar António Costa pelas fotografias aviltantes de aparência encenada que publicou no Twitter. Será que ninguém considera a receita extraordinária que a venda dessas stock photos vai oferecer à nossa Economia? São stock photos mais clássicas que as stock photos mais clássicas. Em 2028 ainda estarão em powerpoints de trabalhos do 9º ano, em seminários motivacionais, em angariações de clientes ou em molduras de lojas chinesas.

E quando o heróismo não se queda na aparência.

Sarapanta – um dos nossos mais belos jornalistas a aproveitar da melhor forma o seu “exílio” no frio.

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