Entramos no recinto da Comic Con, este ano transferido para o Passeio Marítimo de Algés, e ficamos com a sensação de ter entrado num outro mundo. Um mundo repleto de criaturas fantásticas, mágicas, anteriormente confinadas aos domínios da imaginação, a todas as formas através das quais esta se expressa: à televisão, ao cinema, à banda desenhada, aos videojogos. O “Comic” faz parte do nome, mas este não é um evento apenas dedicado às comics. Nem o é dedicado apenas aos geeks e nerds, aos fanáticos (normalmente) no bom sentido que formam as comunidades de fãs que discutem, interagem, seguem com afinco as mais variadas formas de entretenimento.

Explicar a um completo leigo em matéria de cultura pop aquilo em que consiste a Comic Con pode ser uma tarefa algo hercúlea. Será melhor, como nos explica Nuno Markl – que, no evento, é o apresentador e mestre de cerimónias de quatro painéis intitulados “Cave do Markl” –, recorrer a alguma “doçura”. “Talvez seja melhor falar num lado que é quase como um 'parque de diversões', tentar que ele não fique com a ideia de que isto é uma coisa muito hardcore, [só] para fãs...”, diz.

Não o é, de facto; eles existem, alguns vestidos como as suas personagens prediletas (o chamado cosplay), mas também encontramos curiosos, famílias, gente minimamente conhecedora da matéria à procura de expandir os seus conhecimentos, ou artistas a mostrar – e à procura – da sua inspiração. “Isto é tão variado, para tanta gente, que eu acho que toda a gente encontra aqui um motivo para se divertir: quem veja cinema ou séries de televisão, quem já tenha lido BD e goste de Lego... Não é uma coisa assim tão geek quanto isso, embora seja, obviamente, povoada por bastantes”.

Alguns desses geeks são, até, rostos conhecidos da nossa praça. Como Cláudia Pascoal, que na companhia de Isaura venceu este ano o Festival da Canção. A cantora gondomarense participou no primeiro dos quatro painéis de Markl juntamente com Carolina Torres e Ricardo Araújo Pereira, interpretando uma canção da série de animação norte-americana “Rick And Morty”, que tem vindo a gozar de uma vasta popularidade entre jovens (e não só) devido à sua irreverência. A premissa da série resume-se a isto: um avô cientista, bêbado e misantropo (Rick), que leva o seu neto de 14 anos, tímido e irritadiço (Morty) a viajar por inúmeros universos paralelos.

Na Comic Con, Cláudia Pascoal vestiu, inclusive, a camisola: envergou uma t-shirt com as supracitadas personagens ali estampadas. Sobre “Rick And Morty”, fascina-a a “improbabilidade e a incoerência de tudo, a nível social”. “Gosto de pessoas diferentes”, admite. “Tento ser mais Rick na vida real, mas sou mais Morty, possivelmente, porque quero ter uma vida, e todas essas coisas...” Mas não é essa a única série da qual se posiciona como fã: “Vou dizer umas palavras sobre Dr. Who, Uncharted, Tomb Raider, tudo o que vier”.

Não que a Comic Con seja um evento dedicado por exclusivo à diversão e à brincadeira. Também existe espaço para coisas sérias. O público pôde assistir, por exemplo, a um painel sobre o RTP Lab, um projeto da estação pública que pretende dar visibilidade “a novas formas de produção de conteúdos”, seja na ficção ou no humor, através de um concurso no final do qual são selecionados os candidatos que mais se destacaram. No ano passado, um dos vencedores foi a #CasaDoCais, programa que quebrou algumas barreiras e tabus em relação à comunidade LGBTQ mais jovem. Os vencedores deste ano também já foram escolhidos: “Frágil”, “On C@ll”, “Bad & Breakfast” e “Menos Um”, todos com estreia marcada para o final deste ano.

Carolina Torres é um dos rostos de “Bad & Breakfast”, como produtora e atriz. A série desenrola-se numa Lisboa invadida pelo turismo, tratando com humor um dos assuntos na ordem do dia: a sobrelotação da cidade por parte de quem vem de fora, e o êxodo de quem viu as suas rendas aumentarem de forma exponencial. Em “Bad & Breakfast”, os turistas são atraídos por duas beldades que os drogam ao ponto de adormecer, sendo-lhes posteriormente colocado um chip que permite que estes sejam controlados por uma app, tendo o matadouro como destino final... “Quando o Miguel [Leão, escritor e realizador] me explicou a ideia eu até fiquei um bocado nervosa, porque o facto de ser uma série de ficção científica é muito ambicioso”, explica.

A ideia de base é, sobretudo, a de que os intervenientes na série – e quem os vê no ecrã – se divirtam. Até porque, diz Carolina, os turistas “não [lhe] fazem confusão”: “Só acho que a cidade não tem capacidade para os receber”. Tratá-los como carne para matadouro é só uma forma mórbida, num sentido cómico, de discutir este assunto. “As grandes cidades europeias também recebem imensos turistas todos os dias. Cenas mesmo agressivas, eventos que levam milhares de pessoas... Há muita coisa a ser restaurada em Lisboa, muitos prédios abandonados na Baixa, que não servem só para airbnb”.

O RTP Lab, conta, é uma forma de dar uma oportunidade a este tipo de ficções, diferentes daquelas a que tanto a televisão como o público portugueses estão habituados. A aposta é esta, para já, mas Carolina espera que de futuro passe também pelo entretenimento. “Acho que podíamos ter entretenimento muito interessante no nosso país. Temos personagens reais, e podíamos pegar nelas e fazer coisas interessantes”, afirma. Por ser a estação pública, e por conseguinte serviço público, o papel da RTP é importante nesta demanda? “Não é importante, é obrigatório. As privadas fecharam a grelha, perceberam o que funcionava e não querem tentar mais”. Mas o paradigma parece estar a mudar, para melhor. “É fixe sentirmos que não precisamos de ir embora para fazer coisas, como atriz, como produtora, como argumentista”, se bem que tenha “projetos de programas de música que estão na gaveta e as pessoas dizem-me coisas como 'pá, sim, mas a cultura não vende'”...

Antes de Herman e Depois de Herman

A vida destes jovens criativos parece estar, assim, mais facilitada – até porque a Internet possibilitou a fragmentação de públicos e de fãs, de gente que olha para o presente, para o futuro, e até para o passado, o que faz com que haja espaço (e orçamento) para tudo. No que toca ao passado, destaca-se o trabalho da RTP Memória, que tem devolvido ao pequeno ecrã algumas das séries que marcaram gerações, com recurso ao vasto arquivo da estação pública. Mas, mais que as séries, há uma figura que é imediatamente reconhecida por graúdos e miúdos: a de Herman José, peça fulcral do humor em Portugal, tanto quanto humorista como enquanto comediante. Confusos? Júlio Isidro, o “senhor televisão”, explicou as diferenças entre ambos os rótulos num painel dedicado a Herman: “um humorista pode só escrever. Um comediante interpreta”.

Herman escreveu e interpretou e foi a cara de várias rábulas que ainda hoje são citadas e dissecadas em conversas entre amigos. Bordões como “eu é mais bolos” fazem parte do léxico de quase todos os portugueses. Convidado a contar a história da sua vida em treze sketches e personagens, Herman José não esteve presente, mas o público da Comic Con pôde ver um vídeo com as suas escolhas e os motivos por detrás de cada uma delas. (E esses sketches e personagens são, a saber: “Senhor Feliz e Sr. Contente”, 1975; “Olho Vivo”, 1977; “Tony Silva”, 1980; “Eng. Callote Saraiva”, 1983; “Vilaças”, 1985; “Rainha Santa”, 1988; “Emigrante”, 1990; “José Severino”, 1991; “Última Ceia”, 1996; “Lauro Dérmio”, 1997; “José Esteves”, 1998; “Nelo”, 2010; “Zé Pedro”, 2018.)

Júlio Isidro sabe bem quem é Herman José, tendo dado ao humorista/comediante a sua primeira grande exposição mediática. Aliás, não se limita a saber quem é Herman; assume-se, também, como seu fã, dividindo o humor português em dois períodos: Antes de Herman e Depois de Herman. E também sabe bem o que é a memória, trabalhando em televisão há mais de meio século. Uma memória que, explica, “só pode moldar o presente”. “Nem consigo conceber a evolução do mundo, a nossa evolução pessoal, a nossa evolução coletiva, a visão do que possamos ser no futuro sem memória”, afirma.

Essa memória, em especial a de Herman, poderá não estar tão presente no imaginário dos mais jovens, sobretudo daqueles que formam grande parte do público da Comic Con. Como levar Herman José até aos que não o viram nascer ou crescer? “Penso que este Herman, mesmo o analógico, se devidamente apresentado relativamente às suas referências, chega perfeitamente à malta mais nova. O Herman é transversal. Só não o é em relação ao pessoal conservador, e há conservadores de todas as idades”...

E que diria Herman José caso tivesse, fisicamente, vindo até à Comic Con? “Penso que iria fazer uma enorme rábula”, graceja, entre mais elogios. “E iria dizer que se divertiu muito com o Júlio. Devemos ser dos poucos que já nos vimos nus várias vezes, porque frequentávamos o mesmo ginásio... O que existe entre mim e ele é uma grande admiração e respeito mútuos, sobretudo porque pisámos caminhos completamente diferentes. É melhor nenhum de nós ter de fazer o elogio fúnebre do outro...”

A Comic Con prossegue ao longo de todo o fim de semana, com discussões, sessões de autógrafos, anteestreias, cosplay, e tudo o mais que estimule os aficionados da cultura pop. Os preços dos bilhetes variam entre os 25 euros e os 175 euros.

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