Mother - Uma Força Única (2009)

Hye-ja, a mãe (Kim Hye-ja)

Há várias danças icónicas no cinema, mas esta cena vem ao jeito de celebração dos últimos Óscares e de duas formas: uma, pegando no segundo filme de Bong Joon-ho, o grande vencedor da última edição das estatuetas douradas; outra, ao relembrar a dança feita por Joaquin Phoenix em "Joker". É certo que esta não tem escadas ou maquilhagem de palhaço, mas espelha bem uma performance de topo por parte de Kim Hye-ja, célebre atriz sul-coreana.

O enquadramento, a sua linguagem corporal e o que diz sem abrir a boca, dizem tanto da capacidade do realizador — que sabe o que quer — como da atriz. É a cena de abertura de um belíssimo filme que não é ainda muito conhecido. Ou, melhor, não o era. Agora, com os Óscares, o cenário deverá ser diferente.

Sobre o papel, vale a pena saber que Kim faz de "mãe de família" desde os anos 1970 — seja na TV seja no cinema. Isto é, durante mais de três décadas, interpretou personagens que se comportavam dentro de um certo conjunto regras, limitadas às expetativas da sociedade e cultura do período em que se inseriam — e que consequentemente ditam o que uma atriz pode ou não fazer. Tendo isso em conta, e de acordo com o Film School Rejects, Bong Joon-ho escreveu o papel de "Mother" especificamente a pensar em Kim, de maneira a que esta pudesse romper com os estereótipos de sempre.

O resultado da experiência está bem patente naquilo que Roger Ebert escreveu na sua crítica ao filme: "é uma força da natureza". Bong saltou para a ribalta com o seu "Parasitas", mas há 10 anos atingiu momentos semelhantes com "Mother". E Kim é só o motor deste belo ensaio (ao jeito de thriller) sobre a relação entre uma mãe e um filho, que Bong considera ser a "base de todas as relações humanas".

No filme, além de emprestar o nome verdadeiro à personagem, dá vida à mãe de Do-Joon (Won Bin), um homem de 27 anos com uma ligeira deficiência mental e que é preso por ser suspeito de um brutal assassínio de uma jovem. No entanto, Hye-ja apercebe-se de que a investigação do homicídio foi conduzida sem grande preceito e de que os sistemas policial e judicial da sua cidade não são céleres nem eficazes. É então que parte numa saga obstinada à procura de justiça e da inocência do filho — a quem a determinada altura lembra que "Eu e tu somos um".

Alma em Suplício (1945)

Joan Crawford (Mildred Pierce)

Em Portugal, "Mildred Pierce" virou "Alma em Suplício" quando estreou entre nós, em 1946, bem pertinho do Natal (2 de dezembro). A longa-metragem é de Michael Curtiz ("Casablanca") e é baseada no romance homónimo de James M. Cain, publicado em 1941, nos Estados Unidos. A liderar o elenco, dando vida a Mildred Pierce, está Joan Crawford (1908-1977), atriz que conta com vários papéis em que as suas mulheres revelam um caráter forte e cujo único Óscar da carreira é precisamente pelo papel neste filme.

Sinopse: a história começa quando o marido de Mildred Pierce a abandona por outra mulher. Traída e magoada, decide embarcar numa nova vida com as duas filhas e ser ela própria a capataz da família. No entanto, a filha mais velha, Veda, ressente-se da mãe por ter degradado o seu estatuto social na sociedade pela maneira como as sustenta. O dinheiro, o status, é para ela o mais importante.  

A narrativa embarca depois nas dificuldades de Pierce no dia-a-dia e nos imbróglios do seu segundo casamento (que não vamos trazer à baila para aqui porque, enfim, spoilers), mas as cenas partilhadas com a filha mais velha (interpretada por Ann Blyth, hoje com 93 anos, e que também esteve nomeada na categoria de Melhor Atriz Secundária, ainda que o papel tenha estado perto de ser interpretado por Shirley Temple) são das imagens que mais ficaram na memória. Especialmente a parte das bofetadas, que aqui recordamos.

Crawford tinha fama de ser uma mulher dura nos estúdios da MGM, mas foi alguém que subiu a punho antes de construir uma carreira de sucesso em Hollywood como atriz. Essa personalidade vincada foi, aliás, algo que deixou o realizador de "Casablanca" apreensivo quando soube que iria trabalhar com Crawford. Porém, a sua dedicação e profissionalismo fizeram com que este rapidamente mudasse de opinião numa sessão de teste, algo que as estrelas na altura não faziam — se bem que depois andariam às turras porque a atriz queria a sua personagem fosse uma mulher sofisticada ao nível de guarda-roupa e o realizador nem tanto. 

Cabe a curiosidade de que, tal como Pierce, Crawford serviu às mesas e foi vendedora. Portanto, sabia em primeira mão a luta da personagem. Além disso, diz-se que este foi o seu papel favorito nos mais de 100 créditos que tem enquanto foi atriz durante cinco décadas. O que acaba por ser curioso, tendo em conta que ganhou um Óscar por ele, mas não foi à cerimónia recebê-lo. 

Segundo reza a lenda em Hollywood, esta acreditava que Ingrid Bergman iria ganhar por "Os Sinos de Santa Maria" e não compareceu na cerimónia, alegando estar doente. No entanto, quando estava na cama, acabou por descobrir que afinal foi ela a vencedora — de pronto se apressou a ligar aos meios de comunicação e a colocar maquilhagem para receber o seu Óscar no conforto dos lençóis (e que por acaso já foi vendido num leilão em 2012).

PS: Há ainda uma nova versão em mini-série de Mildred Pierce, de 2011. O elenco é de luxo: Kate Winslet, Guy Pearce e Evan Rachel Wood (que agora está na ribalta devido a "Westworld", mas que aqui faz um papelão enquanto adolescente mimada e arrogante). Os cinco episódios estão todos disponíveis na HBO Portugal. 

Forrest Gump (1994)

A mãe de Forrest (Sally Field)

Por muito triste que seja ver a despedida da veterana Sally Field, a sua personagem é responsável pela analogia dos chocolates, uma das frases mais populares da pop culture ["A mamã disse sempre que a vida era como o caixa de chocolates. Nunca sabemos o que vamos ter"]. Portanto, mesmo sendo uma cena triste, e o filme em si estar constantemente a ser recordado como aquele que roubou Óscares a The Shawshank Redemption e a Pulp Fiction, em 1995, acho que ninguém leva a mal fazer aqui a sua menção. 

A mãe de Forrest envelhece drasticamente ao longo do filme. É-nos apresentada como sendo uma mãe confiante, independente e amorosa, mas a realidade é que o público assiste àquilo que acontece na vida real e que tanto nos custa ver: o envelhecimento de alguém que tanto gostamos. Em "Forrest Gump", seguimos todo este percurso.

Não obstante, há um dado curioso aqui pelo meio: a mãe de Tom Hanks, Sally Field, é apenas 10 anos mais velha do que o ator na vida real. E, anos antes, em "O Ponto Final" (1988) foi seu par romântico. Pormenor de Édipo à parte, a frase dos chocolates é de facto uma das cenas mais marcantes do filme e que merece aqui ser recordada. 

Assim, pedia encarecidamente ao leitor para fazer de conta que Sally Field não ganhou o seu primeiro Óscar, em 1980, por "Norma Rae" (especialmente se nos lembrarmos da cena em que explode na fábrica de têxtil em que "ninguém me tira daqui"). Ou que em "Um Lugar no Coração" (1982) tenha dado novamente vida a uma mulher que não se deixa debelar ou desarraigar, por mais trapaças que a vida lhe pregue, numa trama passada nos anos 30, no Texas. Isto porque, em ambos os casos, o seu papel é igualmente de uma mãe e com os mesmos ganhou prémios importantes. Contudo, a cena escolhida não é de nenhum destes filmes. Isto porque hoje é Dia da Mãe e o que é preciso é oferecer chocolates às mamãs e não ligar a estatuetas douradas. 

Quarto (2015)

Ma (Brie Larson)

Já se sabe que é impossível agradar a gregos e a troianos, pelo que há quem considere que não tenha sido uma interpretação tão consensual assim (ou até mesmo que não foi ela quem mais brilhou no filme). No entanto, a verdade é que Larson antes de ser a Capitã Marvel e de estalar toda uma polémica em torno desse mesmo papel, não só venceu o Óscar, como também saiu por cima nos Globos de Ouro, nos prémios do Sindicato dos Atores, nos Critics Choice Awards e levou para casa uma máscara dos BAFTA.  

"Quarto" (e o livro de Emma Donoghue que deu origem ao filme) foi influenciado pelo caso do austríaco Josef Fritzl e não é de todo fácil de digerir. Larson interpreta Ma (embora o nome da personagem seja Joy), uma jovem que foi mantida em cativeiro num barracão de jardim durante sete anos, e deu à luz um filho, Jack, agora com cinco (interpretado pelo não menos impressionante Jacob Tremblay), que nasce dos abusos sexuais levados a cabo pelo sequestrador (Old Nick). Os dois vivem num espaço de 10x10, apenas com a luz natural que reluz da clarabóia, já que não há janelas. E para Jack aquele lugar é, literalmente, o seu mundo.

Sobre a anatomia desta cena em particular, num vídeo publicado no YouTube do New York Times, Abrahamson explicou que tinha pedido à atriz para "não o assustar", mas que tinha de "passar a mensagem". E não era uma fácil, diga-se, pois tinha de fazer ver a uma criança de cinco anos que havia um mundo lá fora, que corriam perigo, e que, basicamente, tudo aquilo que ele conhecia, não era verdade. 

"A Brie tem esta qualidade muito especial — a de conseguir emocionalmente colocar-se em sítios muito sombrios e crus. Mas fá-lo com simplicidade e graciosidade", disse Abrahamson ao The Telegraph. "Na sua performance, há apenas veracidade e honestidade". Qualidades que se veem nesta cena em particular e que o levaram a escolher Larson para o papel de Ma depois de ver "Temporário 12" (2013).

A atriz diz que para se preparar para o papel se isolou num quarto durante um mês, para tentar perceber a sua própria reação ao confinamento. Além disso, reuniu com um especialista em traumas de abusos sexuais para perceber como é que a mente humana de uma pessoa que tenha passado por este tipo de situação podia reagir.

Exterminador Implacável 2: O dia do Julgamento (1992)

Sarah Connor (Linda Hamilton)

Como assim, um filme de ação dos anos 90 numa pequena lista com cenas de mulheres (mães) no cinema? Pois bem, a verdade é que era preciso terminar com uma bad ass mom como exemplo. 

As mães são incríveis e são capazes de qualquer coisa pelos filhos. Aliás, esta lista é o melhor exemplo disso. E se é verdade que ainda se ponderou a hipótese de colocar aqui a Mulher-Elástica de "The Incredibles: Os Super-Heróisporque esta era efetivamente uma mãe super-heroína, a realidade é que considerei que uma mulher que dispara e enfrenta maquinaria vinda do futuro (e com más intenções!) tinha de figurar entre as eleitas. 

Não será certamente a escolha mais consensual de sempre, mas não deixa de ser alguém que faz os impossíveis pelo filho — e há muito homem que treme só de pensar em fazer elevações como Linda Hamilton faz durante a famosa cena da sua fuga no Hospital. Além disso, uma das histórias sobre este momento do filme é de que a atriz partiu — a valer — o nariz do guarda. A coisa é disfarçada com um corte de cena, mas há quem diga que Linda se baixou rapidamente para ver como tinha ficado o ator depois do golpe demasiado realista.

De resto, não é para todos aguentar a preparação física que Hamilton recebeu para o papel. É certo que os atores do mundo da Marvel e dos super-heróis sabem bem o que é "encher" para ficarem com peito maçudo à Capitão América, mas Linda recebeu formação para manusear armamento, teve treino militar e aprendeu várias técnicas de judo. Mais: teve de ter atenção à dieta e às calorias que ingeria para não descurar do físico — algo que até mereceu elogios de Arnold Schwarzenegger.

Quem deveria de estar e não está

Como se referiu logo no primeiro parágrafo, estas cenas são apenas cinco meros exemplos de mães que marcaram a tela. Existem muitas outras que podiam figurar na lista — o que não quer dizer que sejam menos importantes ou até mais relevantes. No entanto, cada família é um caso, e cada matriarca desempenha o seu papel consoante o mundo em que vive. A sua relevância vai depender de como a nossa vivência perscruta o seu retrato.

Ou seja, não quer dizer que esta seja uma listinha onde não existisse um espacinho para Sandra Bullock e pelo papel que desempenhou em "Um Sonho Possível" (2009) ou para Barbara Stanwyck em "O Pecado das Mães" (1937) uns anos (valentes) antes. Aliás, poderá existir até quem possa considerar que a Sr. Bates, mãe de Norman Bates em "Pyscho" (1960) — vamos lá esquecer o spoiler no fim, sim? — ou Rosemary Woodhouse (Mia Farrow) em "A Semente do Diabo" (1968) de Polanski podiam e deviam estar nestas contas. Só que a intenção inicial do artigo era serem só mesmo cinco momentos.

Por isso, deixamos a questão: qual seria a cena ou filme cuja protagonista, a mãe, saltava para o topo da lista? 

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