Chegou ao fim o festival que nos ajudou a ficar em casa. “Ajudou”: é essa a palavra certa. O EuFicoEmCasa nasceu como lembrete, mas acabou como romance. Ao longo de seis dias, observámos dezenas de artistas fora dos seus habitats naturais – os palcos –, rimos com o inesperado, emocionámo-nos com a lisura, reapaixonámo-nos pelas canções. A pergunta passa a ser, doravante, não um quando é que isto – o isolamento – acaba, mas quando é que isto – um evento desta magnitude – regressa.

“Magnitude” é também a palavra certa. O EuFicoEmCasa, encarado além da sua ideia de base, foi um sucesso: nenhum concerto teve abaixo de mil visualizações, o que transposto para o campo do físico resulta em Hard Clubs cheios de meia em meia hora. No mínimo. Também tivemos Aulas Magnas, Coliseus, Altices Arenas a rebentar pelas costuras. «A única coisa que vos peço depois disto é que se lembrem dos artistas portugueses», comentou Ricardo Ribeiro durante a tarde. De facto, isso será o mínimo que o público, que comprovadamente existe, poderá fazer.

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A plataforma escolhida, o Instagram, serviu para as mais variadas loucuras, as que os palcos raramente permitem. Mas houve, no último dia, uma artista que pareceu recusar-se a encarar este como um concerto “especial”: Ana Moura. A fadista, fato de gala vestido, bebida a seu lado, convidou-nos a entrar virtualmente em sua casa, mas dispô-la para que esta se assemelhasse a uma sala de espetáculos, completa com uma “equipa de produção” que a ajudou a montar o cenário.

O arranque com 'Boa Noite Solidão', em que a vimos de guitarra nas mãos – algo pouco habitual – foi a maior surpresa de um concerto que contou ainda com aplausos pré-gravados (uma “piada” replicada por outros artistas, ao longo do festival), um microfone e a amplificação necessária. Quer dizer: necessária se estivéssemos a falar de um concerto à séria. Ana Moura esqueceu-se que quase todos os que a viram o fizeram a partir dos seus telemóveis, pelo que as colunas só vieram prejudicar o mais importante, o som.

Ainda assim, nota positiva para 'I'd Rather Go Blind', canção de Etta James, 'Vinte Vinte' (sem Branko e Conan Osiris) e 'Desfado', com os companheiros de casa a acompanhar por via das palmas e da dança. Foi a cappella que a fadista mais brilhou: 'Loucura (Sou do Fado)' foi divina, e a «oração» que se lhe seguiu, 'Creio', poema de Natália Correia, não ficou atrás. No final, homenagem à Deusa propriamente dita, Amália, com 'Estranha Forma de Vida'. No festival em que os artistas desceram à condição de humanos, Ana Moura foi igual a si própria: Diva.

Luísa Sobral também o foi, mas no campo da candura. Foi belo entrar no direto e levar, diretamente no rosto, com 'Maria do Mar', seguida pel''O Melhor Presente'. Um alinhamento pré-construído porque, conforme explicou, «não perguntei o que as pessoas queriam ouvir porque quero tocar algumas coisas novas». Uma delas foi 'O Bicho', canção escrita sobre e para esta pandemia. 'Para Ti', que dedicou às grávidas e às mães, 'O Verdadeiro Amor', 'João' e o refrão de 'Xico' puseram fim a uma ótima meia hora.

Ótimos, também, os Best Youth, que “fintaram” a quarentena: Ed, guitarrista, gravou a sua parte no dia anterior e Cate, a vocalista, teve-o como pano de fundo antes de deliciar os presentes com a sua voz. 'Red Diamond' um trip-hop suave e ideal para fazer bebés, foi uma das escolhidas; 'Hang Out', que é algo que não se pode fazer por estes dias, mostrou amor. Do amor à perseverança, salvé Tiago Bettencourt e 'Partimos a Pedra', cuja guitarra elétrica soou àquilo a que imaginamos que soa o calor do deserto, qual Josh Homme de Santa Cruz. 'Se Me Deixasses Ser', 'Canção do Engate' (numa bonita versão acústica) e 'Carta', dos Toranja, uma das canções que estavam a ser mais pedidas nos comentários, também soaram muito bem.

O grande momento do dia aconteceu durante o concerto de David Carreira. E nem foi através de uma canção, ou de quaisquer palavras de incentivo. Foi, isso sim, porque o músico decidiu ligar a uma fã aleatória – a Beatriz, que não devia ter mais que 12 anos, e que ficou claramente em choque com toda a situação. Será ela a levar o maior prémio deste isolamento. Em segundo lugar no concurso ficou Diogo Clemente, que pôde atuar por duas vezes: uma ontem, com Carolina Deslandes, e outra hoje, em substituição de Sara Correia, que se viu a braços com uma amigdalite.

De facto, foi no último dia de festival que as coisas correram pior: para além de Sara, também Fausto Bordalo Dias cancelou o seu concerto, com a organização a justificá-lo por motivos a si alheios. Como num festival normal, portanto. Por falar em normal, esperamos que Joao Só passe a levar o seu «Slash de bolso» - o filho – para o seu colo, em todos os espetáculos futuros. Nem precisa de tocar 'Vai Ficar Tudo Bem' nem nada. Assim como Júlio Resende não precisava de tocar com luvas, mas visto que se tratou de uma homenagem aos profissionais de saúde, brindemos ao gesto.

Selma Uamusse não esqueceu as raízes, dizendo-se «triste e preocupada» por causa de um problema que é «global», na sequência do primeiro caso de Covid-19 confirmado em Moçambique. Ricardo Ribeiro, para além dos fados, trouxe filosofia: «é muito utilizada a palavra “isolamento”, mas eu prefiro “solidão”». Nuno Ribeiro inclui uma curiosidade no alinhamento, a sua versão para 'A Garagem da Vizinha', de Quim Barreiros, e Xinobi partiu tudo na meia hora final, com trance e groove quanto baste e dezenas de amigos a comentar. Para a semana que vem, há mais?

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