Autor de êxitos como "Loucos", "Matemática do Amor" ou "Quem me dera", este último na voz de Mariza, Matias Damásio conquistou Angola, Portugal e tem na mira a América Latina. Com a promessa de novos temas, talvez um disco, para os primeiros meses do próximo ano, é com um horizonte mais alargado que nos garante que a próxima entrevista já vai ser para falar na vitória de um Grammy Latino.

O cantor angolano, romântico assumido, fala com carinho de Portugal, mas é ao mencionar a avó que as emoções vêm ao de cima. Foi ela que lhe ensinou como um simples toque ou um abraço pode ser o maior ato de amor.

Em entrevista ao SAPO24, a poucas semanas de dois grandes concertos, um em Lisboa, no Campo Pequeno, a 10 de dezembro, outro no Porto, no Super Bock Arena, a 16 de dezembro, recorda como o tilintar de uma moeda o fez entrar para a música.

"Se me perguntares a quem dedico isto tudo? À minha avó. Dedico-lhe tudo o que sou, o homem em que me transformei."

A pergunta para um milhão de euros: como é que se escreve uma canção de amor?

Tens duas margens: quando [uma relação] começa ou quando termina. São dois momentos fantásticos, uns mais dolorosos e outros mais felizes, mas com uma emoção muito grande. Escrever uma canção de amor é percorrer a ponte entre essas duas margens. Apesar de ser um tema muito vulgar, é preciso muito cuidado ao pegar na caneta. Na estética e na forma como se fala. A canção de amor escreve-se com memórias, com conhecimento, com sentimento. Quem escreve sobre amor tem emoção no coração. Não há outra forma.

Não é possível falsificar o sentimento?

Não, tem de se sentir. O amor é a coisa mais bonita, mas quando acaba é a coisa mais terrível. A maior parte das pessoas que escreve sobre amor, sejam poetas, cantores, o que seja, são românticos. Tem de se ser romântico....

É romântico?

Sou. Acredito piamente no amor, para mim ainda é o maior sentimento da vida.

É romântico desde que se lembra ou um há momento em que tudo mudou?

Acho que desde sempre. Fui criado num ambiente de pobreza, mas nunca me faltaram abraços, beijos, carinho, a partilha de pequenas coisas... Um beijinho ou um abraço, uma palavra de carinho, um 'te quero', um 'gosto muito de ti', coisas que muita gente hoje dá pouco valor, são atos de romantismo. Então, tornei-me um romântico incurável.

Quem é que lhe ensinou a ver as coisas dessa forma?

A minha avó, a avó Augusta, uma das mulheres mais românticas do mundo. Sinto o toque dela até hoje. A forma como ela tocava na minha cabeça, a forma como me abraçava, como, mesmo já sabendo comer, me dava com a colher à boca. Fui a único neto a viver com a minha avó, era um mimado. Tinha gestos que me marcaram, até hoje. Ela foi a minha principal referência. Ensinou-me a estar próximo, a proteger, a amar, a expressar...

"Custa-me dizer, mas digo-o de uma forma desapaixonada: entrei para a música como sobrevivência. Sei que era mais bonito dizer que foi pela arte, que sonhava com os pássaros a cantar."

A sua avó ainda o ouviu cantar?

Não... Ouviu, mas não profissionalmente. Quem me dera, n'é? E é uma das pessoas de quem sinto muita falta quando estou nos palcos. Quem teve um passado difícil tem sempre uma pessoa que quer homenagear. Para mim, essa pessoa é a minha avó. Se me perguntares a quem dedico isto tudo? É a ela. Dedico-lhe tudo o que sou, o homem em que me transformei. Se ela pudesse acompanhar esse processo, acho que teria orgulho em mim.

Disse uma vez numa entrevista que vem "de um bairro onde sonhar era proibido". Desafiou essa proibição...

Eu sonhava com sonhar sair do bairro, mas nunca sonhei ser assim alguém importante ou artista. O bairro era um sítio... Se dissesses 'eu quero ser piloto' levavas uma surra para despertar. Era uma coisa que não fazia parte da realidade. A guerra, um bairro pobre no sul, longe de Benguela... Estou a dizer isto até com alguma graça, mas ainda existem sítios assim hoje. Onde as crianças ainda têm muitas limitações. Não diria que tinha mais força, mas sinto que Deus me foi protegendo e me foi empurrando para lugares. E aproveitei todas as coisas negativas a meu favor. Cresci sem televisão e rádio, que o meu pai não tinha possibilidades, mas havia música 24 horas por dia no bairro. Música, música, música.

Essa música vinha de onde?

Nos bairros pobres, naquela altura, mas hoje é igual, vendiam-se muitas bebidas alcoólicas fermentadas. Em todos os bares havia um gramofone, acho que era regra ter um aparelho de som [brinca]. E ouvias muita música, de tudo um pouco. Foi ali que tive o primeiro contacto com a música.

Quando é que começa a compor, ainda foi no bairro?

Não. Já em Luanda, aprendi a tocar guitarra com o Guito e com o Timóteo, amigos do bairro.

E quando é que percebe que pode fazer da música profissão?

A maior atividade das pessoas pobres é arranjar uma solução para ter dinheiro. Estudando, trabalhando ou roubando, o que seja. Via os meus amigos a tocar e a minha primeira motivação foram as moedas, é engraçado. Não foi o som que eles tocavam, foi o som que daí resultava, o do dinheiro. Vim da lixeira com o som, já ando a bater com as panelas, 'isto pode resultar', pensei eu. Em vez de ir fazer blocos ou cavar buracos, vou aprender a tocar para ter dinheirinho. E resultou, recebia umas moedas. Em 2002 participei de um concerto, na Gala Sexta-Feira, mas não me classifiquei. Fiquei suplente, pediram-me o número de telefone, mas eu não tinha. Tive de dar o número de uma vizinha. Fiquei um mês inteiro à porta da vizinha à espera que o telefone tocasse. Ele lá tocou, ganhei o concurso e o prémio. Um volkswagen golf, com zero quilómetros. Naquela altura, com as condições que tinha, era uma coisa...

Custa-me dizer, mas digo-o de uma forma desapaixonada: entrei para a música como sobrevivência. Sei que era mais bonito dizer que foi pela arte, que sonhava com os pássaros a cantar. Entro pela moeda, e quando olhei para aquele carro pensei: 'aqui é onde vou tirar o pé da lama'. E passei a ser um artista excelente porque percebi que aquilo era uma coisa bonita de se fazer, que amava fazer, mas que podia ser uma solução para sair da pobreza. A motivação de ver as pessoas a cantar as minhas músicas só surgiu depois. Lutei, aprendi guitarra, gravei profissionalmente e em 2005 lanço o meu primeiro CD, um sucesso em Angola. A música passou a ter muito mais valor que a moeda. Já tive outros negócios, que deram dinheiro, mas não a mesma emoção que a música me dá.

"Comecei a sonhar tarde, mas quando comecei sonhava muito. É próprio. Quando uma pessoa tem dificuldades e apanha o caminho, tudo é triplicado. Sonhava com retroativos."

O que é que fez ao carro?

Vendi no mesmo dia em que o ganhei. Nem o queria experimentar, só tirei uma fotografia porque eles precisavam de ter uma prova em como entregaram o prémio ao vencedor. Precisava de construir a casa para os meus pais. O meu pai teve a amabilidade de fazer dez filhos, sou o primeiro, mas ele fez mais nove. Eu só pensava na família, tornei-me pai de vários irmãos muito cedo, os meus primeiros filhos foram os meus irmãos. A minha profissão mudou a nossa vida, do bairro para todos estes palcos.

créditos: Rita Sousa Vieira / MadreMedia

Até chegar a estes palcos, alguém lhe chamou de louco?

Várias... O meu pai. A minha mãe, quando comecei a olhar o horizonte e a dizer que ia ser um grande artista. Foram as pessoas que disseram 'ele está louco, isso não vai funcionar, é impossível para a nossa realidade, pelos rótulos'. Comecei a sonhar tarde, mas quando comecei sonhava muito. É próprio. Quando uma pessoa tem dificuldades e apanha o caminho, tudo é triplicado. Sonhava com retroativos. Sonhava com tudo: ser "o" artista, o maior de Angola, ir a Portugal... E fui fazendo coisas incríveis. Só fazendo é que as pessoas foram acreditando que o menino da lixeira podia ser o maior artista de Angola e um dos maiores de África. Mas quero conquistar mais coisas...

Por exemplo...

Vou ganhar um Grammy Latino nos próximos dois anos.

Roubou-me a próxima pergunta.

Daqui a dois anos vamos estar a falar sobre os Grammy.

Porquê o Latino? "Não quero do roxo, quero do preto! Não é o Latino, quero à séria. Se vier o Latino também já fico contente. Mas quero o preto, que eu sou africana", disse-me uma vez a Mariza em entrevista.

Sinto que estamos mais próximos do Latino. Apesar de sonhar muito, sonho por partes. Este é um sonho para já, para 2023 ou 2024. Na próxima entrevista se calhar já vou falar num Grammy Internacional.

Isso quer dizer que teremos novo disco para breve?

Sim, a sair entre janeiro e março. Quero fazer novos projetos musicais, tenho muitas, muitas músicas feitas, outras tantas gravadas. Está tudo entupido, tenho de começar...

Entupido?

Tem um cano, n'e? Agora é preciso começar a abrir a torneira para sair as canções. É preciso lançá-las. Acho que o primeiro trimestre vai ser muito dinâmico a nível de lançamentos. Não sei se será um CD, se será um EP, mas que há muita música para lançar, há.

O mercado latino é um mercado onde ambiciona chegar? Fui recordar alguns dos seus videoclipes antes da entrevista e neles há muitos comentários de brasileiros a pedir um concerto no Brasil.

O Brasil é uma ambição. Estou a fazer várias colaborações lá, escrevi agora para o grupo Sorriso Maroto, tenho amigos artistas. Não posso adiantar nomes, mas vão surgir aí grandes parcerias. Duetos românticos.

Não quer deixar uma pista?

Não, não [ri-se].

Pergunto-lhe de outra forma, há algum artista brasileiro com quem gostasse de colaborar?

Vários. São vários... Não existem sonhos inalcançáveis, mas acho que este é quase impossível: Roberto Carlos. Se ele não fez duetos lá, não sei se vem fazer com o Matias Damásio. Fala com ele.

Quem me dera entrevistar o Rei, quem me dera...

... "abraçar-te no outono, verão e primavera" [música que escreveu para Mariza].

"O pessoal do SEF estava a movimentar uns papéis... Para me pedirem autógrafos. Foi quando percebi que estava a entrar como artista conhecido em Portugal."

Por estar a cantar Mariza, atuará com ela em Nova Iorque, no próximo ano, numa das quatro noites em que subirá ao palco do The Town Hall. Os EUA são outro mercado importante e que queira explorar?

É Nova Iorque, é o centro do mundo a nível musical. Para nós representa um passo enorme, quero desde já agradecer à Mariza pelo convite. É uma grande artista com um poder e uma influência internacional gigante. Tive o privilégio de escrever essa canção para ela. Foi mesmo um privilégio.

É diferente compor para outros?

O que a Mariza cantou provavelmente eu não cantaria. São estilos e formas diferentes de estar na música. Mas isso também me desafia, compor para outros estilos dá-me, por vezes, mais liberdade. A música pop tem limitações, o "Quem me dera" tem uma letra enorme. Se eu a adaptasse ao que faço seria mais complexo. Com a beleza e com a essência da música da Mariza resultou muito bem. Não é difícil, mas é diferente. Compor para outros artistas e outros estilos tira-nos da zona de conforto.

Voltando ao "Loucos", esse tema mudou a forma como Portugal ouve a sua música?

Já tinha vindo a Portugal noutras vezes, mas eram espetáculos para as comunidades angolanas e cabo-verdianas. Já tinha feito um Coliseu, cheio, bonito, alegre e feliz, mas apenas 'nosso'. É possível vir e fazer salas só para esses grupos. Mas acho que o sonho de qualquer artista é que a sua música chegue ao público em geral. Em Portugal quero cantar não só para os angolanos, mas para todos os portugueses; em Inglaterra quero cantar para todos, comunidades e ingleses.

O "Loucos" e a minha relação com a Sony Music mudou completamente a forma como os portugueses me ouvem, colocou-me nos maiores festivais e nas rádios nacionais, foi uma mudança radical. Contava isto antes: já tinha casa em Portugal — porque um bom angolano tem cá casa, é regra —, já era muito conhecido em África, já tinha feito Coliseus, o "Loucos" foi lançado, e sete ou oito meses depois, quando cheguei, o pessoal do SEF estava a movimentar uns papéis... Para me pedirem autógrafos. Foi quando percebi que estava a entrar como artista conhecido em Portugal. E hoje Portugal é a minha segunda casa, sou muito acarinhado, de norte ao sul. É impressionante como em cada aldeia, cada região, cada sítio onde vamos nos dão carinho e apreciam a nossa música.

Nós, nossa...

Digo sempre nossa porque é tanta gente que uma pessoa não consegue acreditar que tem uma carreira a solo. O termo nossa vem sempre, é difícil para mim dizer 'a minha música'.

É diferente cantar cá ou em Angola?

É, aqui faz mais frio e lá mais calor. Só isso. Se fechar os olhos não sei se estou em Lisboa ou em Benguela. A forma como cantam, como sentem as músicas, é igual. A única diferença é que, como a minha carreira é muito mais antiga em África, há canções que só tocaram lá, por isso o repertório é diferente. Podia dizer que em Angola sinto-me em casa. Tá, mas em Portugal sinto-me igualmente em casa.

O que é que as pessoas lhe dizem quando o encontram?

De tudo um pouco, mas o mais comum é relacionarem a vida delas com a minha música. 'Casei com a tua música', ' comecei a namorar com a tua música', 'as tuas letras'... É impressionante. A música é feita de forma muito humilde, são contadas emoções, não é muito diferente de escrever num diário. Quando ela é editada, quando passa para milhões de pessoas, é um processo mágico. As pessoas apropriam-se da música, interpretam a música, às vezes até de forma diferente de nós que a escrevemos. Às vezes penso como é que um mero cidadão como eu consegue tocar as pessoas desta forma.

O que é que que podemos esperar destes dois concertos, primeiro no Campo Pequeno, em Lisboa, e depois no Super Bock Arena, no Porto?

Muita música, festa, uma banda incrível e um artista feliz por regressar aos palcos. Virá a Yola Semedo de Angola, de Portugal o convidado é surpresa.

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