Em 1994, o convite, de Manuel Faria, João Gil e Tim, os produtores do disco, foi feito “apenas a bandas”, mas hoje seria “uma escolha equilibrada entre bandas e artistas”, afirmou Manuel Faria, acrescentando que “a nova geração que fazia música em 1994 era sobretudo constituída em banda, passados estes anos todos há muita gente a aparecer como artista a solo”, salientando haver “muitos que ficam de fora”.

Nesse duplo álbum entravam, por exemplo, Madredeus, Mão Morta, Xutos & Pontapés, Brigada Victor Jara e os cabo-verdianos Tubarões, além de grupos que já não existem, como Diva, Essa Entente, Delfins e Sitiados.

Quando passam 30 anos da morte de José Afonso, desafiado pela Lusa a imaginar uma nova e hipotética coletânea, Manuel Faria escolheu 22 bandas e artistas portugueses e uma brasileira. “O Zeca tinha uma ligação muito forte com África e alguma também com o Brasil”, recordou.

O alinhamento teria Clã, Diabo na Cruz, Capitão Fausto, The Soaked Lamb, Deolinda, Amor Electro, Virgem Suta, Memória de Peixe, D.A.M.A., Expensive Soul, Dead Combo, Linda Martini, Paus, noiserv e Samuel Úria.

A estes juntar-se-iam The Legendary Tigerman, Camané, Gisela João, Pedro Abrunhosa, Sam the Kid, Carlão, Sara Tavares e Marisa Monte.

Embora o coração de Manuel Faria “tenha um lado um pouco mais alternativo”, o produtor e músico considera ter escolhido “um espetro bastante alargado”.

Pedro Abrunhosa, apesar de não se enquadrar na nova geração de músicos portugueses, foi escolhido porque o seu álbum de estreia, “Viagens”, “foi o único disco que saiu ao mesmo tempo que o 'Filhos da Madrugada'”. “Quando gravámos, ele não era ainda um artista com discos editados, conhecia-o como músico de jazz”, referiu Manuel Faria.

No disco de 1994, três das bandas (Vozes da Rádio, Frei Fado D’el Rei e Essa Entente) foram escolhidas por concurso, que teve no júri, além de Manuel Faria, João Gil e Tim, um grupo de jornalistas.

“Curiosamente a música dos Vozes da Rádio, ‘Os Índios da Meia Praia’, é a música de todo o disco que mais passa na rádio ainda hoje em dia”, disse Manuel Faria.

O processo de escolha das músicas não foi igual para todos. “Demos uma coleção completa de toda a discografia do Zeca a todos para ouvirem, depois decidimos que o ‘Venham mais cinco’ ia para os Tubarões, porque havia muitas bandas que a queriam, e que a Grândola seria feita por todos. Sugerimos a algumas bandas músicas, mas houve outras que escolheram”, recordou.

Hoje em dia, seguiria “a mesma lógica”, e “a música mais óbvia para determinada banda seria dada a outra”.

À agência Lusa, o rapper Sam The Kid disse que “entraria de certeza absoluta” numa nova coletânea de homenagem a Zeca Afonso, “mas com um instrumental”.

Antes de escolher o tema com o qual participaria, iria "ouvir a discografia toda", bem como os ‘beats’ [batidas] que já criou com músicas de Zeca Afonso. “No entanto, provavelmente iria fazer um do zero, porque os que tenho feitos já foram feitos há muito tempo e hoje em dia faria melhor, sem dúvida”, disse.

Já David Santos, ou noiserv, escolheria "Endechas a Bárbara Escrava", um poema de Camões que José Afonso musicou nos anos 1960. "Além de gostar muito desta música, num espetáculo que fiz com o Sérgio Godinho fizemos uma pequena versão dela, portanto seria a oportunidade ideal para a terminar e imortalizar o momento", contou.

Os Memória de Peixe, formados por Miguel Nicolau e Marco Franco, escolheriam "Coro da Primavera". "Representa para nós uma obra-prima, heterodoxa, cheia de balanço, contrapontos, espaço e psicadelismo", afirmou o guitarrista Miguel Nicolau.

Pedro Silva Martins, guitarrista e compositor dos Deolinda, recordou que já fez muitas versões de canções de José Afonso, sobretudo numa fase de aprendizagem enquanto músico. Mas voltaria a fazer de “Mulher da erva”, por razões afetivas.

“Uma vez, eu, o meu irmão [o guitarrista Luís Martins] e o António Zambujo resolvemos fazer um concerto na terra do meu pai, num contexto familiar para os amigos. (…) Fizemos uma versão de ‘Mulher da erva’ e foi incrível com o Zambujo a cantar. A melodia é tão bonita, foi um momento muito especial”, recordou.

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