“Entre muitas: Sierva María de Todos los Angeles, ‘Do Amor e Outros Demónios'; Mariana Alcoforado, ‘Novas Cartas Portuguesas': presas, cada uma em sua cela, cada uma em seu convento, como enterradas vivas. São imagens de partida para ‘amor.demónio’. São possibilidades de um outro sentido. São espectros de outras mulheres, outros tempos passados e futuros”, pode ler-se na sinopse.

A peça, com interpretação de Joana Mont’Alverne, cocriadora com Raquel S, que assume a direção, terá duas récitas presenciais, quinta e sexta-feira, e será disponibilizada no domingo na plataforma ‘online’ FITEI Digital.

À Lusa, Raquel S explica que a peça nasce da vontade de combinar as “Novas Cartas Portuguesas”, iniciadas há 50 anos pelas ‘três Marias’, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, com “Do Amor e Outros Demónios”, de Gabriel García Márquez.

Começou a interessar-se “por freiras reais”, e não só ficcionais, e procurou “esta literatura de mulheres”, procurando relacionar-se com a experiência deste tipo de fervor religioso com um retiro num mosteiro.

“Como é que encontramos no passado vidas e pensamento de mulheres que nos ajudem a pensar o futuro? De que forma é que o espaço de reclusão dos conventos foi, também, um espaço de liberdade (por exemplo, um espaço de criação literária)? Interessa-me muito o cruzamento de temporalidades, misturar o presente com o passado, o passado com o futuro”, conta.

Chega, assim, a Teresa de Ávila, Joana Inés de la Cruz e Johannas de Ledes, construindo “um altar de fantasmas para assombrar o futuro”.

Em palco, Joana Mont’Alverne dá corpo a um texto original que parte dos momentos definidos pela liturgia das horas, que organizavam os dias das Freitas, que divide as cenas em cartas escritas dentro de uma cela, cada um com “o seu tempo e o seu destinatário”.

“Temos cartas que são super concretas, uma carta de amor ou uma carta à mãe, por exemplo, mas também algumas com destinatários mais abstratos, como a cata à história ou uma carta às paredes. A peça procura essa resposta, procura alguém que ouça e responda. Procura imaginar uma comunidade, uma sororidade futura que responda”, afirma.

Trabalhando sobre “a imagem tantas vezes repetida da mulher dentro da cela”, o espetáculo procura “distorcer, derivar, inventar” essa mesma imagem, para encontrar nessas vidas, reais ou ficcionais, “imagens de futuro”.

“Que nos permitam conceber outras formas de coexistir, mas também olhar para as freiras como momentos de uma outra história, que se foi escrevendo ao lado da História. Quase uma história que podia ter sido, que está ainda do outro lado do vidro, à espera que a vamos buscar”, acrescenta.

“amor.demónio” é uma criação da associação cultural Noitarder, fundada pela dramaturga em 2018, quando abriu as produções com “Longe”, também estreado no âmbito do FITEI.

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