Ao perceberem o significado da palavra “despedida”, os portugueses inventaram uma outra: “saudade”. O sentimento gerado por centenas de famílias ao verem partir os seus para terras longínquas tornou-se ao longo dos séculos na força-motriz de Portugal enquanto nação e enquanto cultura. Olhe-se para o fado, por exemplo, que sem a saudade não exemplificaria a alma de um povo para o qual a esperança é sempre a última a morrer. Há sempre aquela luz que nos guia mesmo que a razão dite o contrário. Os que partiam nem sempre regressavam, e nós sabíamo-lo; mas também sabíamos que aceitar a perda seria muito mais desolador que manter viva a ideia de os revermos.

Na segunda noite do VOA – Heavy Rock Festival, a esperança deu o seu último suspiro. Notou-se isso no rosto de Tom Araya, baixista, vocalista e membro fundador dos Slayer, que no final do concerto – o último de sempre da banda em Portugal – ficou longos segundos, de semblante entristecido, mirando o amor que o seu público lhe dava através de palmas e gritos, e lhe foi dando ao longo de uma hora e meia de espetáculo. Antes de abandonar o palco, e depois de os seus colegas já o terem feito, não disse nem precisou de dizer muito mais: “Vamos sentir a vossa falta, adeus”.

O adeus, palavra que raramente queremos ouvir, é definitivo. Os Slayer anunciaram há muito que esta seria a sua última digressão, e houve indicações no passado de que a despedida será feita sem um derradeiro álbum, ainda que um vídeo recente tenha espicaçado a esperança dos fãs. Teremos por isso de nos contentar com “Repentless”, editado em 2015, e cujo tema-título foi o primeiro a ouvir-se nesta noite em que a experiência de ver um espetáculo de música ao vivo se assemelhou à de um velório irlandês: existe tristeza pela morte, mas existe muito mais a celebração daquilo que se foi em vida.

No caso dos Slayer, falamos em 40 anos de uma vida regada a metal e de discos que marcaram o género, influenciando inúmeras outras bandas e artistas. Discos como “Hell Awaits”, de 1985, “Reign In Blood”, de 1986, ou “Seasons in the Abyss”, de 1990, que há muito entraram para o cânone – não só o dos melhores discos de heavy metal de sempre, como o dos melhores discos de sempre, ponto. Falamos numa banda que ajudou a definir, juntamente com os comparsas Megadeth, Metallica e Anthrax, aquilo que se entende por thrash metal: velocidade, agressão, punk rock e metal de mãos dadas, solos de guitarra fabulosos, mosh e circle pits. Os “Quatro Grandes” do thrash, como afirmam os fãs e melómanos.

O espetáculo soou a despedida desde o primeiro até ao último minuto, com o quarteto (que hoje só conta com dois membros da sua formação original, Araya e o guitarrista Kerry King) a mostrar-se ligeiramente envelhecido pelos muitos anos na estrada, com os temas a circular pela Altice Arena em modo piloto automático. A emoção que ali se vivia provinha, sobretudo, dos fãs – até ao supracitado momento do vocalista, a quem só faltou deixar rolar uma lágrima.

Não quer isto dizer que tenha sido um mau concerto, bem pelo contrário. Os Slayer mostraram sobretudo uma competência invejável, despejando clássicos atrás de clássicos com raras pausas para respirar, ladeados por dois pentagramas invertidos e por mares de chamas mais ou menos elevados conforme a ação assim pedia. A velocidade sobrepôs-se à violência. Houve bastante headbanging, mas o público (que não era tão numeroso quanto aquele que, na noite anterior, festejou o regresso dos Slipknot a Portugal) não correu como havia corrido com bandas como os Gojira ou os Lamb Of God. Talvez por ter assimilado essa saudade ainda antes da partida, ou talvez porque têm tanta história quanto os Slayer, que não são propriamente uma banda para os metaleiros mais novos.

Apesar disso, foi a despedida que se exigia, sem que se notasse ali qualquer estagnação ou sem que os Slayer despejassem um balde de vergonha no seu passado. A pirotecnia foi intensa, sobretudo em canções como 'Hell Awaits', e a bateria de Paul Bostaph puxava-nos para um turbilhão de onde era difícil sair, aliada aos solos de Kerry. Até 'Gemini', o compasso nunca abrandou, e atingiu um certo zénite na fantástica 'War Ensemble', de “Seasons in the Abyss”.

A partir daí, foi possível ver – e ficar impressionado com – as chamas que formavam uma cruz em 'Disciple', a energia bruta de 'Payback', ou a mítica 'Raining Blood', última de um quarteto de luxo que incluiu também 'Seasons in the Abyss', 'Hell Awaits' e 'South of Heaven'. Quando damos por ela, já uma hora e pouco de concerto havia passado e o adeus estava cada vez mais próximo. Aconteceu com 'Dead Skin Mask' e com 'Angel of Death', canção que foi para muitos porta de entrada para o mundo dos Slayer, e sobre os quais não sabemos se acabarão no céu depois de morrerem – mas temos a certeza de que acreditam no inferno. “Vamos sentir a vossa falta”. Também nós.

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