O piar do mocho chama-me. Os meus passos tomam a estrada que me leva ao refúgio verde, ao pulmão que me permite respirar no meio da selva de betão e de obrigações.

Passo o portão, respiro fundo e o meu corpo diz-me que está feliz. As árvores e a vegetação abraçam-me ternamente. O piso de terra batida ecoa os meus passos, agora mais calmos e seguros. Estou em casa.

Passei a manhã à espera deste momento. O café tem gente feliz. Aos acordes do jazz junta-se o cantar dos pássaros e o som das folhas das árvores que dançam ao ritmo do vento. No parque de merendas há quem faça um piquenique ou, simplesmente, se deite na relva à procura de um sono leve.

Ao descer um pouco mais pelo trilho de terra batida consigo ver uma casa. Hoje, é o refúgio da equipa de jardineiros; ontem, recebia a minha família. Desse tempo não existem memórias gravadas, apenas imagens construídas de histórias contadas. Ainda não tinha nascido, ainda não tinha oferecido ao mundo o meu primeiro choro. Afinal, será que é o piar do mocho que me chama ou o passado que nunca experienciei? Teria sido feliz aqui, tivesse sido a primogénita.

No vale, os viveiros acolhem várias espécies de plantas. Um espaço verde onde a natureza é celebrada. A mãe terra está grata.

Continuo a caminhar até alcançar o fim do parque. E volto. Novamente o viveiro, a casa onde os meus pais foram felizes, o parque de merendas, um jardineiro que rega a relva, o café que continua animado e, bem lá no fundo, a saída. Está na hora de regressar ao mundo das obrigações. Passo o portão. Oiço o piar do mocho. Amanhã volto.


Texto por Rosária CasquinhaHoje, Dia dos Namorados, publicamos uma seleção dos textos que resultaram da iniciativa lançada pelo SAPO24 e O Primeiro Capítuloassinados por novos nomes de quem tem na escrita uma forma de expressão. 

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