Às 23 horas do dia 16 de março que deixámos de poder atravessar a fronteira com Espanha. Desde ontem que soubemos que não podíamos voar para fora da União Europeia, com exceção feita aos países de grande presença portuguesa (Canadá, Estados Unidos da América, Venezuela e África do Sul) e PALOP.

Hoje, Ovar acordou cercada por militares que controlavam as entradas e saídas de um concelho concelho no qual o governo decretou o estado de calamidade.

A isto tudo somam-se as ruas desertas de Portugal que mostram um país refugiado, ciente do perigo que lá fora tem levado milhares de vidas. Só nas últimas 24 horas, em Itália, morreram 475 pessoas. Em Espanha, aqui ao lado, já morreram, no total, 568 pessoas. É tenebroso ver estes valores a aumentar como se não fossem vidas, como se fossem um número qualquer.

Sabíamos, desde a semana passada, que vivíamos um novo normal. Trouxemos os empregos para casa, os que podiam, e fechámo-nos do mundo. Passámos a sair só para o essencial, para ir ao supermercado, à farmácia ou só para apanhar ar, como as boas regras da saúde mental exigem.

Mas hoje, a partir de hoje, quando Marcelo Rebelo de Sousa decretou o estado de emergência em Portugal, passámos a saber que este, muito provavelmente, não será o novo normal, com o decreto a dar espaço ao governo para tomar medidas mais restritivas das nossas liberdades e garantias nesta luta contra a pandemia.

Já não há um novo normal, já nada parece normal. Baralhamos as horas aos pijamas, inventamos novas formas de entreter os miúdos ao mesmo tempo que colocamos um post-it na nossa cabeça para não nos esquecermos de mandar aquele e-mail depois de lhes darmos a sopa. Já não vamos beber um café à esplanada e não há planos para o fim de semana fora da sala de estar. Sair à rua parece um exercício.

É normal que não consigamos normalizar esta ideia de viver na indefinição, num país em que as novas medidas se sucedem dia após dia, quando ouvimos que esta pandemia durará até maio. Nunca o mês de maio pareceu tão longe. Maio parece ser 2028. Maio parece ser aquele “então depois temos de combinar um café” que parece na verdade nunca vai acontecer. Maio parece ser na outra ponta do universo.

E se é difícil imaginar viver estes dois meses num lugar onde o normal não existe, é bonita a mensagem com que o Presidente terminou hoje o seu discurso ao país, quando nos contou do momento em que falou com a neta, enfermeira, da primeira vítima mortal.“Presidente, só faltam nove dias para voltar à luta”, disse-lhe ela.

Por muito estranho que este lugar nos pareça, não ficamos nele sem dar luta. Ela nos hospitais e nós no sofá. A luta faz-se de várias formas, tal como se contam os dias.

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