Após meses de tensão na fronteira comum, a Rússia invadiu a Ucrânia na madrugada de 24 de fevereiro, perante o horror da população ucraniana e a incredulidade e indignação da generalidade da comunidade internacional.

A oficialmente denominada “operação militar especial” visa proteger os habitantes russófonos do leste da Ucrânia que “enfrentam humilhações e genocídios perpetrados pelo regime de Kiev”, mas também “desmilitarizar e desnazificar” o país, segundo o Presidente russo, Vladimir Putin.

Desde então, sucederam-se bombardeamentos, morte, destruição e desespero, mas também solidariedade e reforço de alianças no Ocidente, tanto na União Europeia (UE), como na Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).

Eis alguns dos aspetos mais relevantes da guerra na Ucrânia:

Situação no terreno

Ninguém sabe ao certo qual é a situação atual na Ucrânia. As duas partes acusam-se mutuamente de atrocidades, reclamam vitórias e conquistas, e anunciam números de mortos e feridos, mas falta uma verificação independente.

As Nações Unidas divulgam diariamente um balanço das vítimas civis que consegue confirmar. A contagem vai num milhar de mortos e quase 2.000 feridos, incluindo muitas crianças, mas a ONU alerta todos os dias que os números reais serão muito superiores.

A cidade portuária de Mariupol, no Mar de Azov (sudeste), com 430.000 habitantes, tem emergido como um dos locais onde a morte e a destruição poderão ser mais trágicas.

As autoridades locais falam em cerca de 3.000 mortos e há imagens de corpos a serem enterrados em valas comuns. Também dizem que 80% dos edifícios foram destruídos ou danificados e que a cidade está sem água, eletricidade e mantimentos. Agências humanitárias receiam uma tragédia humana de grande dimensão.

Ao deixar a cidade esta semana, o cônsul grego Manolis Androulakis defendeu que Mariupol deve ser incluída na lista histórica de cidades que foram “completamente destruídas pela guerra”. E enumerou Guernica (1937, guerra civil espanhola), Estalinegrado (1942-43, Segunda Guerra Mundial), Grozni (1994-95, invasão russa da Chechénia) e Alepo (2012-16, guerra civil síria com apoio da Rússia ao regime de Damasco).

Maior crise de refugiados na Europa

A ONU diz que a guerra levou mais de 10 milhões de pessoas a fugir de casa, o equivalente à população de Portugal.

Desse total, mais de 3,5 milhões de pessoas procuraram refúgio nos países vizinhos, com a Polónia a receber mais de metade, e muitos continuaram para outras paragens, incluindo Portugal, que recebeu mais de 17.500 até terça-feira.

As restantes são consideradas pessoas deslocadas internamente, ou seja, fugiram do local habitual de residência, mas ficaram no país.

A ONU diz que a Europa está a viver a pior crise do género desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45).

A solidariedade tem sido muita, mas também há reparos a diferenças de tratamento de outros refugiados, como os sírios, muitos deles a fugir igualmente de bombardeamentos russos.

O que quer Putin?

Ninguém saberá com exatidão. Putin, que completa 70 anos em outubro, já tinha avisado em 1999: “Os russos e os ucranianos são um só povo, uma só nação”.

Em 2014, ordenou a anexação da Crimeia. “No coração e na mente das pessoas, a Crimeia sempre foi uma parte inseparável da Rússia”, justificou, na altura.

No poder há mais de 20 anos, culpa os dirigentes comunistas da União Soviética Vladimir Lenine e Josef Estaline pelo destino da Rússia imperial e dos seus povos.

Sob a sua liderança, Moscovo tem reclamado uma “zona de influência” em relação a muitos dos Estados pós-soviéticos.

Antes da invasão, exigiu ao Ocidente tratados a garantir a não adesão da Ucrânia à NATO, por considerar que isso “constitui uma ameaça direta à segurança da Rússia”.

Também exigiu à NATO que não instale novas bases militares nas fronteiras russas e que recue a sua capacidade militar e infraestruturas até onde se encontravam em 1997, quando foi assinado o documento que norteou as relações entre Moscovo e a Aliança.

Com a oposição interna e a comunicação social sob controlo, Putin mantém a opinião pública russa iludida ou sem voz sobre a guerra no país vizinho.

Chamam-lhe o novo czar e há quem não estranhe que a invasão da Ucrânia tenha ocorrido no ano do centenário da fundação da União Soviética (1922-1991), o último “império” governado a partir de Moscovo.

A resposta do Ocidente

Kiev tem pedido insistentemente à NATO que imponha uma zona de exclusão aérea na Ucrânia para travar os bombardeamentos russos.

Para justificar a recusa, os aliados dizem que um envolvimento direto pode desencadear uma guerra total, dado que teria de ser a NATO a garantir o cumprimento da medida e isso poderia implicar disparar contra aviões russos.

No entanto, os países da NATO têm fornecido equipamento militar à Ucrânia, apesar dos avisos de Moscovo de que tais carregamentos são alvos legítimos das suas forças.

A União Europeia (UE) e países como os Estados Unidos, o Reino Unido, o Japão ou a habitualmente neutra Suíça impuseram sanções duras contra interesses russos, desde a banca ao desporto.

Ficaram de fora da UE as compras de gás e petróleo, dada a elevada dependência europeia dos fornecimentos russos.

A Alemanha suspendeu o gasoduto Nord Stream 2, numa medida que levou Moscovo a ameaçar cortar os fornecimentos à Europa.

O chefe da diplomacia russa, Serguei Lavrov, contabilizou já mais de 5.000 medidas contra a Rússia, “quase o dobro do número de sanções impostas à Coreia do Norte e ao Irão”.

+++ Mediações e negociações +++

Líderes de vários países tentaram demover Putin da invasão e, posteriormente, da guerra, mas sem sucesso.

Israel e Turquia, com boas relações em Moscovo e Kiev, têm tentado mediar um acordo de paz, mas foi a Bielorrússia a acolher os primeiros encontros entre as duas partes, quatro dias depois da invasão. Estas negociações têm prosseguido por videoconferência nos últimos dias.

Lavrov e o seu homólogo ucraniano, Dmytro Kuleba, reuniram-se na Turquia em 10 de março, mas sem resultados visíveis.

A China e a Índia têm mantido uma posição ambígua em relação ao conflito, mas mais favorável à Rússia. Vários países pediram a Pequim que exerça a sua influência junto de Moscovo para travar a guerra, também sem resultados práticos. Os analistas dizem que a China espera a altura que lhe for mais favorável para agir.

De ator cómico a símbolo da nação ucraniana

Nascido há 44 anos no sul da Ucrânia quando o país era uma república soviética, Volodymyr Zelensky tornou-se o símbolo da resistência e da unidade do povo ucraniano, num contraste flagrante com Putin, a quem está a ganhar a guerra da comunicação.

Cresceu como falante de russo, mas também é fluente em ucraniano e inglês, e dedicou-se ao teatro antes de terminar a licenciatura em Direito.

Tornou-se comediante e estreou, em 2015, o programa “Servo do Povo”, em que interpretava a figura de um professor de História que chega a presidente.

O programa televisivo deu origem a um partido político e Zelensky tornou-se o sexto Presidente eleito da Ucrânia em 2019, com base numa proposta eleitoral anticorrupção e numa campanha eficaz nas redes sociais.

Casado com Olena Zelenska, com dois filhos, fez questão de permanecer com a família em Kiev apesar a invasão russa. Trocou o fato por roupa militar e tem explorado ao máximo a experiência de comunicador nas redes sociais.

Já falou em direto para vários parlamentos, incluindo o Parlamento Europeu, o Congresso norte-americano, o Bundestag (Alemanha) ou o Parlamento britânico, recorrendo à História de cada país para sensibilizar os respetivos deputados e opiniões públicas.

A eficácia dessa estratégia só terá falhado ao falar ao parlamento israelita, quando comparou a agressão russa ao Holocausto. Pediu armas e disse a Israel que pode mediar entre Estados, mas “não entre o bem e o mal”.

Face a críticas de vários políticos israelitas, incluindo do primeiro-ministro Naftali Bennett, que respondeu que o Holocausto “não deve ser comparado a nada”, Zelensky recuou e, numa nova mensagem, reconheceu que Jerusalém seria o “local certo” para conversações de paz com a Rússia.

Zelensky é o herói desta guerra para uma grande parte dos ocidentais e vários políticos europeus apelaram para que possa ser nomeado para o prémio Nobel da Paz deste ano, apesar de já ter terminado o prazo para as nomeações.

Que futuro?

Ainda há poucas semanas, o mundo mostrava-se otimista com o abrandamento da pandemia de covid-19.

A guerra na Ucrânia, além do sofrimento humano, fez renascer o pessimismo e organizações como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional já se manifestaram “horrorizadas e profundamente preocupadas” com o futuro.

Além de serem os dois maiores países da Europa, Rússia e Ucrânia também são dos principais produtores agrícolas mundiais e a guerra levanta o receio de fome ou escassez alimentar em nações mais vulneráveis. O aumento generalizado de preços foi uma das primeiras consequências do conflito.

Com um desfecho incerto, a guerra lançada por Putin parece ter unido ainda mais os ucranianos e fortalecido a UE e a NATO.

Para já, levou a UE a alterar a “bússola estratégica” para reforçar a sua política de defesa e segurança até 2030, um plano que deverá ser aprovado no Conselho Europeu na quinta e sexta-feira, em Bruxelas.

Também deverá influenciar o novo conceito estratégico a ser levado à cimeira da NATO em Madrid, em junho, para substituir o documento que foi aprovado em Lisboa, em 2010.

O conflito está a ser acompanhado por instituições internacionais de justiça para verificar se há matéria para eventuais processos por crimes de guerra e crimes contra a Humanidade.

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