“Pois é, filho, o Benfica é campeão”. Ainda ao telefone, o pai ditou as sortes da noite: “É o 37, filho. Vou agora para o Marquês”.

O jogo da 34.ª e última jornada da I Liga que opunha o Sport Lisboa e Benfica e o Santa Clara terminara com a vitória das águias por 4-1, três pontos que garantiram a conquista do 37.º título de campeão nacional pelo clube da Luz. Na Avenida António Augusto Aguiar, que liga a Praça de Espanha à avenida Fontes Pereira de Melo, em Lisboa, todo esse trajeto começava a ser pintado de encarnado e branco e com inscrições, como se de um código tribal se tratasse, do número 37.

A pouco metros de distância, alguns vendedores gritavam; “olha o cachecol do 37, olha o cachecol do 37...”. Pouca ou nenhuma gente ali parou para comprar a recordação. A ânsia tomou de assalto as almas que queriam pisar os terrenos sagrados da rotunda mais conhecida do país. Qual romaria.

O controlo policial, feito por homens e mulheres polícias, casas de banho portáteis, camiões e carrinhas e espaços de venda exclusiva de merchandising do clube, de bonés a t-shirts, passando por cachecóis, poderiam fazer-nos antecipar a entrada num estádio. Errado. Foi muito mais que isso. Foi um encontro de famílias, de gerações, de avôs, pais e mães, filhos e netos, casados e namorados, amigos e amigas, juntos, abraçados e unidos, dançaram, gritaram e elevaram as mãos aos céus, à volta de uma estátua que no topo tem um Marquês (de Pombal) e um leão vestiu-se de vermelho — um pano de fundo que é fotografado dezenas, centenas e milhares de vezes, em foto clássica ou como selfie seja por um, dois, três, quatro, todos quantos couberem no pequeno retângulo.

“Vou sempre ao banho do Marquês”

A família Rosa, do Seixal, apresenta-se em três gerações. O avô Luís, a mãe (e filha) Marina e o filho (neto) Luca, a quem o avô vaticina um futuro no mundo da bola ao nível de João Félix. “É avançado e já treina na Luz”, exclamou com alegria, ele que não perde pitada de todos os jogos no Seixal, onde o pequeno Luca começou aos “cincos anos”, atirou a mãe. Marina confidenciou que costumavam, nos anos recentes, ficar em casa, “numa coisa mais caseira, a festejar”, mas que agora estão ali todos, no Marquês de Pombal, pela segunda vez na vida e que, tal como na primeira, ficam a dormir num hotel ali próximo para evitar a “confusão, por causa do miúdo”.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

De farta cabeleira preta, chamava à atenção um homem que pedia à namorada para lhe tirar uma fotografia tendo como pano de fundo a estátua do homem plantado na rotunda com o seu nome. Armando Hidalgo esclarece, para que não haja enganos, que o volume capilar é falso. Veio de perto de Oliveira de Azeméis, de onde saiu “às 8h00 com a namorada e a irmã” numa carrinha de três lugares. Tem 37 anos, o número mágico da noite, e o futebol é um mundo que conhece bem. “Joguei até aos 34 anos. No Feirense, Sanjoanense, Romariz e outros da minha terra, nas segundas ligas, na divisão de Honra, semiprofissional”, contou o luso-espanhol. “Fui avançado, tinha claque, marcava umas vezes 15 golos, noutras 20, por época, mas faltou-me uma cunha, tinha azar com as lesões, entorses, e fui duas vezes operado ao joelho”, recordou.

Alexandre Ferreira, 65 anos, marca, desde sempre, presença no “banho do Marquês”. Já não se lembra do primeiro título, nem quando pôs os pés ali pela primeira vez. Sabe apenas dizer que se veste “sempre” de preto e com cachecóis das águias atados nos braços e pernas. Este campeonato, diz, “tem um gosto especial por causa do Lage, que foi buscar miúdos ao Seixal e foi campeão”, rematou.

“Vou dançar, vou beijar, toda a noite, toda a noite...”

À medida que vão chegando os adeptos, milhares, dirigem-se para as roulottes e para as bancas de venda de camisolas e bonés. A música entra em campo à 21:23.

Mais uma, entre centenas, destacam-se as famílias. São os Carvalho, do Barreiro. Um casal, um filho e duas primas. O pequeno Gonçalo foi ao Marquês pela primeira vez na barriga da mãe, Renata, que por sua vez costumava ir com a prima, Isabel Abrantes, de 52 anos, ao estádio da Luz. Em jeito de retribuição, Renata levou Isabel a pisar, pela primeira vez, o Marquês de Pombal. “Foram-me buscar a casa, em Almada. Foi uma oferta”, regozijou Isabel.

créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

José Arrais, que não se lembra com exatidão do primeiro título que festejou do Benfica, é presença assídua no Marquês de Pombal “desde o primeiro título de Jorge Jesus”, relembrou. “Foi, na altura, novidade. Agora é rotina”, adiantou.

O movimento frenético dos adeptos à volta da Rotunda foi interrompido com o primeiro aplauso da noite para a imagem, nos ecrãs gigantes, de Bruno Lage, treinador que relembrou Jaime Graça.

Muitos estrangeiros mergulham na festa com um ar entre o pasmado e o êxtase. Uns não falam nada mais que a língua mãe, outros, alemães, como Mathia e Alexandra, apresentam-se com tendo nascido em Dortmund e torcem pelo Bremen. Hoje, a festa é de outra cor.

“We are the Champions”

O primeiro ensaio da música popularizada pela banda “The Queen”, os  primeiros berros com as imagens do capitão Jardel a levantar a Taça da Liga NOS e o “Vivó o Benfica”. O relógio marcava 22:15.

créditos: JOSE SENA GOULAO / LUSA

Gabriel Marques tem 10 meses e está pela primeira vez a festejar na companhia do pai, Carlos, da mãe, Raquel e do irmão, Jorge, que mudou do Sporting para o Benfica este ano. “É o melhor clube do mundo”, porque ganha, diz.

Sara e Catarina repetem a vinda ao Marquês. O “Homem do Leme” é dedicado, pelo speaker de serviço, a Bruno Lage e Filipe Vieira. Seguem-se outras músicas bem conhecidas do repertório da banda que atravessa gerações, os Xutos e Pontapés.

Muitos pais levam filhos pequenos só para pisarem a rotunda, saltarem e gritarem, antes de seguirem o caminho para casa, um gesto que é misto de espiritualidade, devoção, uma passagem de testemunho ou da tal mística. Carolina, 15 anos, que pisa o Marquês pela primeira vez, foi mais longe na fé. “Moro no Montijo com a minha mãe. Obriguei o meu pai a trazer-me cá.

Arbustos à volta da rotunda servem de sanita a gente que não consegue evaporar o álcool que ingere. À medida que os ponteiros do relógio avançam, o som estridente do microfone sobe de tom. As luzes dos telemóveis são ligadas ao som de “We are the Champions”. As semelhanças com a noite de 12 para 13 de maio são mais que muitas. Questões de fé, diria, reforçam as parecenças. E o Fátima e Futebol também.

“Eles vêm por onde” perguntava, ao telefone, um adepto que se encaminhava para o Saldanha, saindo do Marquês de Pombal, onde esta noite parecia caber Portugal inteiro. Não estava longe da caminhada triunfal da camioneta das águias, que tinha à sua espera a polícia de intervenção num papel próximo de guarda pretoriana e que, a passo de caracol, acompanhou, a pé, a saída dos jogadores e a caminhada na passadeira vermelha até ao palco na praça que rebentava pelas costuras. O relógio marcava as 0:50. Mais de 40 minutos depois ouviu-se o hino. “Ser Benfiquista, é ter na alma...”

Fogo-de-artifício e hora dos discursos. Não se vê comício assim. As caras dos diversos candidatos às Eleições Europeias expostas nos diversos cartazes que rodeiam a estrada circulante que vai dar à Baixa, às Amoreiras ou Avenida da República soltavam a boca de espanto.

Tempo ainda para um número de artista de Eliseu (com uma mota) que anunciava o fim de festa, de onde muitos demoraram a arredar pé. Porque tal como escreveu em tempos idos Miguel Esteves Cardoso “Pedir a Portugueses - quanto mais benfiquistas - que se sentem durante um voo é como chegar ao Aquário e pedir às focas para saírem imediatamente da água. Nem ouviram”, rematou numa crónica sobre a sua ida a Estugarda para ver o clube da Luz, na final da então taça dos campeões, frente o PSV Eindhoven. E assim foi. As luzes apagaram-se, mas os adeptos continuaram a fazer a festa.

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