O título que dá a promessa de Sérgio Conceição na antevisão a esta segunda eliminatória dos 16avos da Liga Europa. Diz-se que não se deve fazer promessas que não se consiga cumprir, mas neste caso era relativamente fácil, dada a forma como o Porto jogou na Alemanha na passada quinta-feira.

Foi uma pálida imagem a que os dragões deixaram em Leverkusen, de uma equipa passiva, pouco pressionante, dominada por um adversário que não precisou de forçar muito para obter a vitória. Os alemães superaram os dragões em tudo: mais remates, mais posse de bola e, claro, mais golos.

Já o treinador do Bayer Leverkusen, Peter Bosz, não poupou nas palavras: “A nossa estratégia vai ser voltar a ganhar. Não quero saber da posse de bola. Queremos atacar e vencer o jogo”. Sucinto e objetivo, o repto do técnico holandês teria laivos proféticos, mas lá vamos.

Em teoria, poderiam apresentar-se dois Portos nesta partida:

No pior dos cenários, subiria ao relvado do Dragão a equipa que se deixou eliminar no início da época de forma surpreendente contra o Krasnodar, na qualificação para a Liga dos Campeões, apresentando argumentos técnicos mais do que suficientes, mas sem a capacidade mental de lidar com a adversidade. 

No melhor, regressava a turma que, perante uma situação de eliminação iminente como a que ocorreu no ano passado, agigantava-se. Sim, recorde-se que há quase 12 meses, o Porto tinha como adversário a Roma e a competição era a Liga dos Campeões, sendo que, depois de uma derrota por 2-1 no Stadio Olímpico na primeira mão, a equipa de Conceição conseguiu mesmo ultrapassar os transalpinos, vencendo por 3-1 no Dragão. Ou o Porto que vergou RB Leipzig ou Schalke 04 das últimas ocasiões que recebeu equipas alemãs em casa.

Instava, então, que se voltassem a cumprir feitos idênticos. Mas há alterações de contexto que matizam as circunstâncias desta vez: no ano passado, o Porto encontrava-se no topo da Liga Portuguesa quando operou a reviravolta, alheio ao facto de que o seu lugar seria tomado pelo Benfica.

Agora, os dragões encontram-se a um ponto do primeiro lugar — quando há três semanas estavam a sete — e, apesar de uma equipa como a portuense sentir-se obrigada a disputar todas as competições em que participa até às últimas, não haverá certamente adepto portista que não trocasse uma possível progressão nas fases da Liga Europa pela vitória do campeonato, caso fosse necessário focar-se nisso a 100%.

Ainda assim, a vitória estava a um golo de distância, e o Porto quereria fazer do Dragão a sua fortaleza inexpugnável, onde venceu 12 dos 13 últimos jogos que aí decorreram, sem sofrer golos. Havia duas estatísticas que se anulavam à entrada da partida: os dragões, apenas precisando de ganhar 1-0, marcaram em casa em todos os jogos desde o início da época; todavia, também no mesmo estádio, a equipa vinha a sofrer golos nas competições europeias há oito jogos.

A mudança teria então de ocorrer, e a começar pelo onze. Na vitória contra o Portimonense no fim-de-semana, Conceição já tinha sentado Manafá — uma das piores unidades na Alemanha —, colocando Tecatito Corona no seu lugar, e hoje voltou a fazer a mesma escolha, ficando Alex Telles com a outra ala. Já a dupla de centrais, Mbemba e Marcano, volta a ser a mesma, apesar de Pepe já se encontrar recuperado e no banco.

Povoando o meio-campo dos dragões estiveram Uribe, Sérgio Oliveira e Otávio, situando-se nas alas Luís Diaz e Marega. Já na frente, Soares deu o lugar ao homem instrumental no relançamento o Porto na eliminatória, Zé Luís.

Do lado dos alemães, claro destaque para ausência do mais importante jogador na vitória do Bayer em Leverkusen, Kevin Volland, que se lesionou nessa partida e possivelmente não mais regressará nesta temporada, sendo Moussa Diaby escalado para o seu lugar. Alario e Havertz, os dois responsáveis pelos tentos na primeira mão, também regressaram para assombrar a defesa portista.

Regressemos às conferências de imprensa dos dois treinadores: “subir o nível” versus “ganhar o jogo”, a primeira promete sem garantir, a segunda garante sem fazer promessas. No duelo entre as duas, sobrepôs-se a declaração de Bosz.

O jogo iniciou-se com o Porto muitíssimo interessado em levar a iniciativa de jogo para o meio-campo do Leverkusen, tentando usar Otávio para estabelecer uma ligação entre Sérgio Oliveira e Uribe, mais recuados em duplo pivot, e Marega e Luís Diaz, o primeiro quase como segundo avançado pela direita, o segundo claramente a funcionar como extremo esquerdo.

No entanto, apesar de, agora sim, jogar de forma mais pressionante e com outro intuito, a produção ofensiva do Porto resultou em muita parra e pouca uva, somando algumas jogadas vistosas — quase sempre passando pelos pés de Otávio — que se revelaram inconsequentes. 

Bayer Leverkusen FC Porto
créditos: EPA/FERNANDO VELUDO

Com as tentativas completamente goradas de destabilizar pelo jogo interior e procurar os laterais para servir Marega ou Zé Luís isolados, e a bater-se contra um adversário especulativo, o Porto acabou mesmo por sofrer. Bosz tinha prometido que o Leverkusen não vinha jogar com futebol total, e sim com objetividade, e o golo que Lucas Alario marcou deve tê-lo feito sorrir de orelha a orelha, mais não seja para não ter de engolir as suas palavras.

Na primeira oportunidade de que dispuseram, os alemães chegaram ao golo e fizeram parecer fácil aquilo que ao longo de 45 minutos se revelou impossível para o Porto. Numa jogada de insistência muito bem trabalhada por Demirbay, o médio alemão seguiu pelo espaço interior direito, fletiu para dentro e resistiu à tentação de rematar à entrada da área. Em vez disso, deixou para Havertz que viu Alario solto de marcação do lado esquerdo. O argentino, no limite do fora-de-jogo — o lance foi ao VAR — não perdoou perante Marchesin.

Depois deste lance, voltou o filme de Leverkusen, um drama insuportável onde o Leverkusen, agora com uma vantagem de dois golos na eliminatória, começou a gerir a posse de bola e o Porto, temeroso de sofrer mais golos, deixou de pressionar com a mesma intensidade. Pior: a narrativa teve laivos de terror, já que Luis Díaz saiu agarrado à perna direita, sendo substituído por Nakajima.

Ao fim de 45 minutos, o Porto só tinha feito um remate, aos 40, com Otávio a atirar ao lado esquerdo de cabeça, correspondendo a um cruzamento de Corona. No entanto, o lance que refletiu a primeira parte dos dragões ocorreu antes, aos 36 minutos, quando Uribe faz um passe sem nexo para o guarda-redes adversário, resultante da falta de critério mas também das movimentações deficitárias de Marega e Zé Luís. Estava fechada a primeira parte, sem glória.

A necessitar urgentemente que a sua equipa marcasse um golo para se relançar no jogo, Sérgio Conceição operou uma mudança radical na sua equipa. Saindo Uribe para entrar Pepe, o Porto passou a jogar com uma linha de três centrais, ficando o meio campo a cargo de Otávio e Sérgio Oliveira, ladeados nas alas por Corona e Alex Telles. Ficando Nakajima como uma espécie de “10”, Marega e Zé Luís passaram a jogar como uma dupla de avançados.

Aquilo que parecia ser uma boa ideia no papel, revelou-se um absoluto desastre. Sendo incapaz de controlar a profundidade nas costas da defesa, o Porto sofreu dois golos de uma assentada.

Começando numa grande saída de bola de Tapsoba, o central deixa para Amiri, que soltou para Diaby. O remate do extremo francês, em cima da mancha de Marchesin, resulta num choque espalhafatoso, sendo que a bola sobra para Havertz. O médio alemão, vendo Demirbay à esquerda pronto a rematar, passou-lha, tendo este rematado à queima-roupa perto do guardião argentino.

Como um mal nunca vem só, a linha defensiva do porto voltou a mostrar a permeabilidade de um pedaço de algodão doce. Já atrás dos centrais, Havertz solta para Diaby, mas o extremo é incapaz de passar por Marchesin. Porém, a bola sobra-lhe e este devolve-a para Havertz, que atirou para uma baliza vazia.

Com o desastre instalado, Conceição desfez a defesa a três, passando Pepe e Marcano a serem os centrais, voltando Alex Telles à sua posição natural e Mbemba jogando na ala direita. No entanto, era tarde demais.

O Porto, porém, ainda viria a reduzir — isto depois de Nakajima desperdiçar uma grande oportunidade, passando para o Zé Luís marcado em vez de rematar a baliza. Quando a equipa parecia morta, marcou. Recebendo um lançamento lateral, Otávio foi até à linha cruzar e encontrou Marega solto, com o maliano a reduzir de cabeça.

O Leverkusen acusou o golo, e só pelo intermédio de Leon Bailey voltou a visar a baliza de Marchesin, com o guarda-redes argentino mais uma vez a corresponder. De resto, os dragões pressionaram, mas sem nunca mostrar real perigo, exceção seja feita a um lance em que Marega recebeu a bola isolado na área, mas controlou-a sem qualidade.

De resto, coroando uma noite horrível para os dragões, Soares — entrado para o lugar de Zé Luís — teve como única ação significativa na partida um vermelho direto por uma cotovelada em Tah, no entender do árbitro romeno István Kovács (que, diga-se, teve uma performance longe de ideal, compensando a sua falta de controlo do jogo com um arraial de cartões).

Findados os 90 minutos, quando o Porto de Conceição tinha de ser como aquele que derrubou a Roma, foi mais parecido com o que se deixou conquistar pelo Krasnodar, tanto mais que também só voltou a marcar golos quando a situação já era irremediável por si só. Era preciso subir o nível, mas este caiu a pique, e os dragões estão fora das competições europeias. Já o Leverkusen: Bosz garantiu, Bosz cumpriu.

Bayer Leverkusen
créditos: EPA/FERNANDO VELUDO

Bitaites e postas de pescada

O que é que é isso, ó meu?

Quem não arrisca, não petisca, mas demasiados riscos corridos podem acabar num prato vazio à mesma. A perder por 1-0, Sérgio Conceição optou por mudar a sua tática, tirando Uribe para entrar Pepe, formando assim uma linha de três defesas. Um pouco como aconteceu ontem a Rúben Amorim, a opção tática revelou-se tão permeável que, em 15 minutos, o Porto sofreu dois golos, o que arredou-o por completo de disputar a eliminatória.

Tapsoba, a vantagem de ter duas pernas

De Ouagadougou para o futebol europeu, a história de Edmund Tapsoba cada vez mais parece de encantar. Contratado para as camadas jovens do Leixões, o central do Burkina Faso rapidamente mudou-se para Guimarães, onde foi crescendo no Vitória. Pela mão de Ivo Vieira, esta foi a sua época de afirmação, e meio campeonato depois, estava a jogar na Bundesliga pelo Bayer Leverkusen. Hoje, demonstrou porque é que foi uma das grandes contratações do mercado de inverno, aliando um rigor defensivo pouco usual para um futebolista de 21 anos a um conforto a sair a jogar que só lhe antevê um futuro brilhante.

Fica na retina o cheiro de bom futebol

Esperemos que a atual epidemia do Covid-19 não remeta o nome de Jesús Corona para o esquecimento (mas sabemos o quão cruel a natureza do SEO pode ser), porque ele não o merece. Aos 70 minutos, o mexicano voltou a dar um ar da sua graça, com uma jogada individual deliciosa que o deixou isolado para centrar para o coração da área do Leverkusen. Pena não ter havido o mesmo engenho para finalizá-la.

Nem com dois pulmões chegava a essa bola

Nem dois, nem dois milhões. Ninguém — humano, pelo menos — chegaria à bola que Uribe bombeou para a grande área do Leverkusen a não ser o guarda-redes finlandês Lukáš Hrádecký. Espelho do que foi grande parte do jogo do Porto, o lance não só mostrou o desacerto na forma como os dragões construíram, como também nas más movimentações ofensivas dos seus avançados, que resultaram em pouquíssimos lances de perigo.

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