Na semana passada, o Ricardo Brito Reis escreveu que a contratação de Igor Kokoskov representa a queda do último muro na NBA.

A adição do técnico sérvio por parte dos Phoenix Suns é, sem dúvida, a transposição de uma barreira que resistia e um marco histórico no basquetebol americano (e mundial). Mas há ainda outro muro para mandar abaixo. Um que resiste, não só na NBA, como em todo o mundo: contratar uma mulher para treinadora principal.

Em todo o mundo, há mulheres a liderar empresas, universidades e governos. Mulheres ao leme de escolas, hospitais, partidos e exércitos. Médicas, advogadas, professoras, cientistas, políticas, empresárias. Em praticamente todas as áreas profissionais do mundo há mulheres em posições de poder e responsáveis por liderar homens. Menos no desporto. 
No desporto é raríssimo encontrar alguém do sexo feminino a comandar os destinos de atletas ou de equipas masculinas. Encontramos alguns exemplos em desportos individuais (no ténis, por exemplo, Amelie Mauresmo treinou Andy Murray entre 2014 e 2016), mas nos desportos coletivos é algo praticamente inaudito.

No futebol, não há qualquer caso de uma mulher a treinar uma equipa masculina em alguma das principais ligas do mundo. E no desporto americano, nas quatro principais ligas profissionais (NBA, NFL, MLB e NHL) não há qualquer treinadora principal. Há uma mão cheia de treinadoras adjuntas (o que, em 123 equipas, é um número baixíssimo), mas nenhuma mulher chegou ainda ao primeiro lugar no banco.

Há, certamente, causas como preconceito e descriminação a contribuir para esse número reduzido de mulheres no desporto masculino, mas também há diferenças que tornam o caminho para a igualdade mais lento e mais difícil do que noutras áreas e noutras profissões. Uma questão que dificulta e atrasa essa revolução e onde o desporto é diferente de qualquer outra organização ou empresa: homens e mulheres trabalham separados.

As competições desportivas são, obviamente, separadas por sexos. E muitos treinadores são ex-praticantes (seja em que escalão ou a que nível tenham jogado, a esmagadora maioria dos treinadores são pessoas que praticaram a modalidade). Ora, isso proporciona um caminho mais direto para os ex-praticantes seguirem para treinadores nas suas respetivas competições e cria uma “barreira natural” para as mulheres conseguirem passar para o outro lado.

Atenção que não estamos a desculpar esse facto. Apenas a constatar o mesmo. E a dizer que isso exige um esforço maior ao mundo do desporto para derrubar essa barreira. Porque, às barreiras que existem em todas as outras áreas, acrescenta-se ainda esta “barreira natural”.

Mas não é uma barreira inultrapassável. Porque não faltam exemplos de homens que fazem o percurso contrário. Ex-jogadores que transitam para treinadores de equipas femininas é um cenário comum. Já jogadoras que fazem o percurso inverso é incrivelmente raro. Aí, sim, preconceitos históricos entram em cena.

Muitos desses preconceitos ainda resistem e demorarão a ser completamente eliminados (se é que alguma vez o serão). Mas a NBA tem sido pioneira em muitos outros temas. E neste, muito provavelmente, também será. E Becky Hammon será a provável protagonista dessa revolução.

A ex-base da WNBA tornou-se, em 2014, a primeira treinadora-adjunta a tempo inteiro na história da NBA (e do desporto profissional norte-americano). Na altura, Gregg Popovich afirmou que quando via os jogos das San Antonio Stars, “a única coisa que eu via era a aura da Becky, a sua liderança, o seu efeito nas colegas de equipa, o seu efeito sobre o público, a forma como ela se comportava. Ela era a líder suprema.” Por isso, quando Becky Hammon se retirou, Popovich ofereceu-lhe de imediato um lugar na sua equipa técnica.

Agora, depois de quatro anos no banco dos San Antonio Spurs, foi entrevistada para o cargo de treinador principal dos Milwaukee Bucks. Mesmo que não fique com este lugar (parece que os Bucks já terão chegado a acordo com Mike Budenholzer), outras oportunidades aparecerão, seguramente.

LeBron James já apoiou a ideia de Becky Hammon (ou outra mulher) como treinadora principal.
“Se ela souber o que faz, vamos adorar. No final de contas, é basquetebol. Não é sobre ser homem ou mulher, Se sabes do jogo, sabes do jogo.”

Pau Gasol foi mais entusiástico e escreveu um artigo no Player’s Tribune a defender a sua treinadora (uma defesa que, como ele próprio afirmou, ela não precisa). E, como o jogador espanhol dos Spurs pergunta no seu artigo, acham que Gregg Popovich ia contratar alguém só por simpatia e se não fosse bom no seu trabalho? Essa é a maior prova do valor e da competência de Hammon. Ela é, segundo todos os que trabalham com ela, um excelente treinador de basquetebol. Que, por acaso, é mulher.

Este é um muro que poderá (deverá) cair em breve. E não será por condescendência. Não será para preencher nenhuma quota. Não será uma ação de relações públicas. Será pelas razões certas. Será (pedindo emprestada a expressão que David Stern popularizou em 2011, aquando do chumbo da troca de Chris Paul para os Lakers) por razões basquetebolísticas. E não tenham dúvidas: será uma grande coisa.

Será tão pioneiro (e recordado daqui a muitos anos) como o primeiro jogador negro, o primeiro treinador negro ou a primeira árbitra. Será o quebrar de uma barreira cultural que ainda não foi quebrada no mundo.

O caminho para a eliminação desta última barreira não é fácil e não será curto. Mas será feito. É uma questão de tempo.

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