A França, comandada por De Gaulle, o general que passou da liderança da Resistência para Presidente da República, era um país mergulhado em tradições e restrições. Era uma sociedade conservadora, autoritária, estancada. Foi contra isso que se levantou o Maio de 68. Tinha havido, à entrada dos anos 60, um tempo (o de Pompidou) de aparência de prosperidade económica, embora só para as classes mais instaladas. Centenas de milhar de migrantes portugueses e espanhóis amontoavam-se nos bidonvilles em volta de Paris, tentavam trabalho nas obras ou na indústria automóvel, alguns nas limpezas ou no serviço de porteiros. O desemprego disparava, e mais de dois milhões de trabalhadores nem chegavam ao salário mínimo.

Bob Dylan e Joan Baez, os Rolling Stones, Leo Ferré, Jean Ferrat, Barbara eram vozes que chegavam poderosas para inflamar as aspirações dos jovens universitários. Tal como o pensamento dos filósofos, Marcuse, Sartre, Althusser. A leitura de Rimbaud, Baudelaire e Aragon dava-lhes fôlego, a arte oferecia um horizonte. Havia um mundo diferente para viver: o feminismo, a ecologia, a liberdade sexual, o pacifismo, os direitos humanos, o respeito pelas minorias. Em fundo estavam as bandeiras da França: a fraternidade, a igualdade e a liberdade. Estes ideais não tinham correspondência na sociedade francesa daqueles anos 60.

Fervilharam movimentos de contestação aos apertados corpetes instalados. Os cineastas, com Godard, Trufaut e o grupo Cahiers du Cinéma à cabeça, tinham aparecido em fevereiro como primeira frente de contestação. Muitos estudantes universitários foram puxados pela vaga dos cineastas. Havia que mudar o mundo.

A revolta do Maio de 68 ficou instalada no dia 13 daquele maio, quando os CRS, força de choque da polícia francesa, irromperam na Sorbonne para tentar desalojar os estudantes que tinham ocupado a universidade.

Prenderam uns 600 e assim pegaram ainda mais fogo à revolta que já era brasa em Nanterre, campus universitário na periferia oeste de Paris, onde os estudantes em internato tinham iniciado um levantamento contra o regime que proibia os rapazes de entrarem pelos corredores que levavam aos quartos das raparigas.

A Sorbonne e Nanterre tomaram a liderança do protesto estudantil e a polícia recebeu ordens para responder. Instalaram-se as barricadas. Saltaram cocktails molotov. A 17 de maio, a central sindical CGT, até então ambígua perante o protesto estudantil que, encabeçado por maoistas e trotskistas, lhe escapava, convocou a greve geral: 10 milhões de trabalhadores em greve, a França sem transportes, os mercados com escassez de abastecimentos. O que tinha começado por ser um levantamento estudantil tornou-se movimento social.

O governo viu-se obrigado a negociar. Pompidou chegou a acordo com a central sindical comunista: o salário mínimo teve aumento de 35%, todos os salários cresceram 10%, passaram a ser reconhecidas as comissões de trabalhadores em todas as empresas.

Ao mesmo tempo, avançava a lei do aborto. A interrupção voluntária de gravidez deixava de ser crime, tal como a homossexualidade. A mulher deixou de necessitar autorização do marido para abrir conta no banco.

O incêndio estudantil e social do Maio de 68 revela-se uma extraordinária peça de teatro social e político. Os estudantes nunca ousaram pensar na tomada do poder, o que pretenderam foi tomar a palavra. Conseguiram e, apesar de alguma frustração no final da primavera de protestos, as relações ficaram diferentes, com menos autoritarismo, os costumes soltaram-se e a pressão sobre algumas liberdades baixou. Foi possível alguma utopia que de tempos a tempos vai reaparecendo – o movimento Nuits debout representou, no ano passado, esse desejo da utopia que faz avançar a história.

O Maio de 68 em Paris, mal visto por muitos, trouxe avanços civilizacionais. Foi mais ilusão do que revolução, mais avanço do que recuo.

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