A agressão de Putin à Ucrânia é uma guerra que muda os equilíbrios do mundo. A China não teve lugar em Yalta na conferência que em fevereiro de 1945 desenhou o mapa em que assentou até agora a ordem mundial. A guerra da Ucrânia impõe que 77 anos depois de Yalta a China passe a aparecer como superpotência na mesa que define os novos equilíbrios e supremacias.

No tempo da conferência de Yalta que marcou a partilha do mundo pelos vencedores da II Grande Guerra (liderança assumida por Roosevelt, Churchill e Stalin), a China era um dos países mais pobres no mundo. É hoje uma das duas superpotências, à beira de se destacar como a nº1.

À entrada neste século XXI, o Produto Interno Bruto (PIB) por habitante da China era (dados da Organização Mundial do Comércio)  inferior a 1000 dólares EUA e 36 vezes menos que o equivalente americano (36.344 dólares). Em 20 anos, a China conseguiu a espantosa redução dessa distância para apenas seis vezes menos (em vez de 36) que o PIB americano.

Paciente e disciplinadamente, em modo sempre autoritário, a China reformou-se, continua a modernizar-se e a abrir-se ao mundo. Apostou em pleno na mundialização.

A China está a investir numa nova audaz Rota da Seda (Belt & Road Initiative). É um plano que prevê uma colossal linha de transporte de mercadorias com 78 ligações por terra e mar, envolvendo 23 países do mundo euroasiático. Entre esses 23 países por onde passa o percurso estão a Rússia e a Bielorrússia.

O governo de Pequim não pode aceitar que esta ambiciosa e lucrativa Rota da Seda seja posta em causa pelo desvario de Putin.

Xi Jinping não renega a cooperação com Putin, mas para ele, acima de tudo está o desenvolvimento do meticulosamente preparado nestes últimos 20 anos plano, executado sem desvios, de afirmação da China como superpotência mundial

Alinhar com o desvario de Putin seria deitar tudo a perder.

A brutal invasão da Ucrânia pôs em evidência a fragilidade da cooperação entre a Federação russa e a República Popular da China. No início de fevereiro, numa cimeira que coincidiu com a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Pequim, Xi Jinping e Putin assinaram uma declaração conjunta em que afirmam que a colaboração entre os dois países “não tem limites”. Mas nessa declaração a palavra “aliança” permanece tabu. Não há qualquer alusão a aliança entre os dois países.

Três semanas depois, acabados os Jogos em Pequim, Putin mobilizou as tropas que alegadamente estavam em manobras na região fronteiriça e mandou-as a avançar para impiedosa invasão da Ucrânia – encontrou a resistência robusta que não teve em conta. A China não escondeu insatisfação pelo modo como a guerra avançou. O governo chinês não apoiou oficialmente a “operação militar especial” de Putin.  Pequim também não reconheceu a independência das repúblicas de Donetsk e Lugansk – pudera, em coerência a China iria avalizar a independência de Taiwan. A China absteve-se na votação do Conselho de Segurança das Nações Unidas que deplorava a agressão russa à Ucrânia.

A China convidou a Rússia a procurar uma solução diplomática para o conflito.

Ninguém como a “substancialmente neutral” República Popular da China pode conduzir uma mediação que leve a um compromisso entre a Rússia e a Ucrânia.

Pequim sairia desse acordo com o reconhecimento do mérito de ter solucionado o conflito que tanto está a indignar e a mudar o mundo.

Até aqui, a China não aparece nessa negociação. Certamente por saber que esse compromisso não é fácil de construir. Provavelmente estará a tentar construí-lo nos bastidores. 

A China, ao conseguir parar a guerra, apareceria não só como a superpotência fazedora de paz no mundo como a salvadora das bases do sistema financeiro e comercial global através do qual, aliás, a China se desenvolveu e expandiu no mundo.

É um facto que a China é um país com democracia muito limitada e liberdade muito condicionada. Mas é um país previsível, nada dado a surpresas. Tem poder de sobra para levar Putin a aceitar a negociação e o acordo.

Também é facto que não se vê que Xi Jinping deixe cair Putin. Vai querer que ele faça parte – como vassalo da China? – da próxima nova ordem mundial, o que é um outro problema, mas de resolução necessária: Putin é um pária internacional, mas deve ser corrigido o erro da década de 1990 que deixou a Rússia como país subalterno no mapa global de influências.

É necessário um novo acordo de segurança na Europa e no mundo.

A China, apesar do défice democrático do regime, está muito bem colocada para a função de maestro dessa necessária nova harmonia. Pode mesmo ser conseguido o benefício de baixa da tensão e agressividade entre os EUA e a China.

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