O parágrafo que acabaram de ler foi escrito originalmente em Março e desencadeou reacções iradas. Em parte, arrependo-me do que ali escrevi. Só que esse arrependimento nada tem que ver com os visados ou os irados, até porque suspeito que alguns dos que se enfureceram com as minhas palavras são os mesmos que as comprovam – saudosistas soviéticos a apoiar a Rússia, criticando-me por afirmar que a Rússia é apoiada por saudosistas soviéticos. Não, o meu arrependimento é por ter omitido os Estados Unidos no catálogo de defensores desta Rússia putinizada. Em minha defesa: na altura em que escrevi, a relação entre Trump e Putin estava debaixo de teatrinhos de antagonismo. Quem, contudo, assistiu à cumplicidade dos dois presidentes na recente cimeira de Helsínquia (e aos sorrisos enamorados por parte do americano) descortina facilmente uma parceria ou, na pior das hipóteses, uma relação de subserviência com o russo a dominar. 

Outro aspecto criticável (e criticado) naquele meu parágrafo de há oito meses, era o exagero catastrófico na análise económica da Rússia. Há que dar a mão à palmatória: alguns esforços de Putin nesse campo têm impedido que o país colapse – sobretudo esforços para diminuir a dependência em produtos e créditos estrangeiros. A taxa de crescimento também se prevê positiva, só que é ainda assim baixíssima. Não dá para ignorar a importância esmagadora do petróleo na economia Russa, e como o sucessivo declínio dos preços tem vindo a ameaçar os cofres do país. Ou seja, se não falamos duma economia nocauteada, no mínimo falamos duma economia encostada às cordas. E nesta nação com tanta pobreza, com abissais desigualdades, com corrupção e crime violento, com insuficiente investimento na educação, é assim tão despropositado acentuar o negrume do cenário económico? Queriam que falasse de saúde epidérmica num país metastizado?

Vou recordar o que me motivou tal artigo em Março. Escrevi-o numa altura em que o atrevimento russo ganhava proporções de caricatura, e isto devido àquele caso do envenenamento dum ex-espião em Inglaterra. A desfaçatez nas alegações de inocência revelou uma Rússia, não ingénua nos seus argumentos, mas sim atrevida na sua impunidade. “Putin impune” deixou de ser uma cacofonia aleatória, ganhou ares de cognome. 

Se as proporções referidas eram caricaturais, o desenrolar do episódio roçou a anedota seca. Acreditem, a história é ainda mais flagrante e mais rocambolesca do que este seguinte resumo: Os “alegados” autores do envenenamento identificaram-se a si mesmos como meros “turistas russos”, não obstante todas as coincidências cronológicas e geográficas com o assassinato, ou as inúmeras provas fotográficas que reconhecem um dos suspeitos como sendo coronel da GRU (a agência de inteligência militar estrangeira da Rússia). Deste lado da cortina de ferro, os artigos de opinião afirmavam que o Kremlin estava enredado em desculpas fracas; já eu mantenho outra opinião: o Kremlin estava a enredar-nos em fortes demonstrações de impunidade.

Quando abordei este assunto anteriormente, receei o precedente que se estava a criar. Que novo período da História aqui desponta? Entretanto, até o famoso assassinato do jornalista saudita na Turquia tem potencial para ser uma réplica deste clima de impunidade (também aqui há um Trump subserviente a animar-me as suspeitas). O que é certo é que esta semana, sem subtilezas ou disfarces, um navio militar da Rússia abalroou uma embarcação ucraniana, abriu fogo e capturou mais dois torpedeiros e respectivos tripulantes. Isto ao largo da Crimeia. Nem desculpas esfarrapadas, nem hackers invisíveis, nem venenos silenciosos, nem anedotas com turistas, nem piscares de olho prepotentes; já não é preciso. Só acção e impunidade. 

Concluía eu em Março: “a maneira violenta como (a Rússia) está a meter o pé no mundo, e a maneira frouxa como o mundo tem respondido, bem pode andar a queimar qualquer via diplomática no futuro. Conversar como?”. Agora pergunto: conversar para quê? Já todos vimos guerras mundiais a começar por menos, muito menos, mas desta vez não vai acontecer nada. Não, pelo menos enquanto a Casa Branca estiver transformada em bandeira branca.

Um país doente, um agente forte, uma propensão expansionista. Cheira a pandemia.

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