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Na Rússia, até as pedras precisam de autorização para cair

Tomás Albino Gomes
Tomás Albino Gomes

Hoje, na Rússia, o governo de Medvedev caiu. Aconteceu depois do discurso presidencial de Vladimir Putin em que o presidente russo disse que pretendia levar a referendo várias reformas constitucionais por forma a reforçar os poderes do parlamento.

No imediato, vários analistas políticos denunciaram a intenção de Putin: regressar ao cargo de primeiro-ministro - que já ocupou durante quatro anos, entre 2008 e 2012 - e desempenhar as funções com poderes alargados. Isto, porque em 2024, o atual presidente russo atingirá o limite de dois mandatos presidenciais e não se poderá recandidatar.

Em 2018 estive na Rússia para acompanhar o Campeonato do Mundo de futebol enquanto jornalista. E se é certo que não tive a oportunidade de conhecer verdadeiramente o país, vestido a rigor para se mostrar moderno ao mundo, também foi certa a perceção que trouxe comigo: na Rússia nada cai sem querer.

Apesar de ser anfitriã de um grande evento, a Rússia não deixava de ser a Rússia, palco de um filme em que cada cena parecia estar meticulosamente cuidada e tratada para ser não só aquilo que um europeu esperava, mas muito mais.

Desde o policiamento das ruas aos monumentos que brilhavam no céu de Moscovo. Os carros que passavam as ruas a uma velocidade estonteante enquanto deixavam para trás beatas de cigarro e um rasto de música eletrónica. A desconfiança com que eras olhado por não pertencer aquele puzzle, ao mesmo tempo que outros te recebiam na rua como se estivessem em casa deles. O medo de atirar uma pastilha para o chão numa rua cheia de pastilhas e beatas.

Tudo estava no sítio certo para ser aquilo que podíamos esperar da Rússia e para nos desarmar no preconceito no imediato, mas sem nos livrar da sensação de que ali tudo podia acontecer.

Se Medvedev abandona o cargo de primeiro-ministro e Putin assume a vontade de reforçar os poderes do parlamento não será porque em 2020 se deu o milagre da visão russa de democracia coincidir com a visão europeia.

Claro que não. Mas mais assustador é tentar entender como é que isso não me é estranho. Como é que na internet é normal surgirem piadolas em comentário ao tema do género “com o Putin ninguém brinca eheh”.

Quando é que isto aconteceu? Quando é que a nossa liberdade se tornou um elevador para olhar para outros países do mundo presos num sistema de autoristarismo e abuso de poder adquirido e tudo o que nos sai é uma leitura do passo óbvio de Putin ou uma graçola reciclada de há 10 anos, quando já fazia uma década que Putin estava no poder?

Até quando Putin no poder?

Até quanto a democracia distante da Rússia?

Quando é que podemos desmontar o puzzle do mundo e fazer tudo outras vez, sem que grandes potências mundiais como a China, a Rússia ou os EUA tenham problemas com o sistema democrático?

Até quando?

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