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Que continue o jogo do passa-culpas

António Moura dos Santos
António Moura dos Santos

O dia começou com um estrondo, epidemiologicamente falando.

A denúncia partiu do jornal Expresso, que avançou que a Direção-Geral de Saúde não está a contabilizar todos os casos identificados de covid-19 e que isso teve reflexo nos seus boletins diários.

O semanário falou com vários profissionais que apontaram para discrepâncias nos registos pandémicos, desde surtos noticiados mas não registados, até concelhos cujos dados não são atualizados há várias semanas.

Quanto a este segundo ponto, qualquer um com acesso aos boletins consegue constatá-lo. Verificando-se o caso do Porto, um dos mencionados pelo Expresso, vê-se que a 3 de junho registavam-se 1361 casos confirmados no concelho, subindo o valor para até aos 1414 no dia 6 do mesmo mês.

No entanto, este valor tem-se mantido inalterado até agora — o boletim de hoje continua a manter os 1414 casos no concelho do Porto —, o que parece pouco plausível. Não obstante todos os esforços do executivo portuense, é de questionar como é que a segunda maior cidade do país deixou de ter casos novos no último mês.

Sabe-se que, em matéria de contabilização estatística, o trabalho da DGS é particularmente ingrato. No final de maio ficámos a saber, por exemplo, do cariz volátil dos registos, de como casos podem diminuir subitamente num local e aparecer noutro. A atualização de moradas dos infetados e os resultados aos exames das mortes podem mudar o registo da região ou concelho de um boletim para o outro.

A verdade é que a DGS não faz o registo dos casos, apenas agrega-os a partir das sinalizações dos médicos e laboratórios espalhados pelo país. Foi exactamente isso o que disse hoje em resposta à polémica e um exemplo disso mesmo ocorreu no boletim de ontem, que saiu com atraso porque um laboratório privado notificou 200 novos casos depois de ter estado três dias sem dar novidade.

Mas por mais que a Direção-Geral da Saúde não detenha total responsabilidade na forma caótica como os novos casos vão sendo revelados, a sua resposta vai de encontro àquilo que parece ser um certo estado mental nesta fase da pandemia.

Se há um mês e meio parecia que a pandemia estava controlada e o país podia respirar timidamente de alívio, a situação que se instalou na Área Metropolitana de Lisboa e os novos surtos que foram despontando pelo país veio colocar essa aparente acalmia em causa.

Agora, parece que se entrou num jogo de passa-culpas: o presidente da Câmara de Lisboa culpa as chefias (sem mencionar nomes), a sua oposição culpa-o a ele, Rui Rio culpa o tecnicismo das reuniões do Infarmed (algo que parece partilhar com António Costa), o seu vice-presidente culpa Marta Temido (e pede a sua demissão), sendo que a ministra da Saúde coloca o ónus na atuação responsável dos cidadãos.

No meio deste vendaval, sofre a confiança dos cidadãos na atuação dos responsáveis políticos e de saúde. Por mais esforços que as autoridades tenham encetado até então, impedindo Portugal de sofrer como outros países, insta que mantenham a credibilidade do seu trabalho, para que as conversas nos cafés ou noutros espaços públicos pelo país não sejam de que “eles escondem os números” e variantes deste argumento.

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