Donald, are you ok?

António Moura dos Santos
António Moura dos Santos

Os Estados Unidos, pela mera influência que exercem sobre o resto do mundo, são sempre alvo de um mediatismo raramente reservado a outros assuntos. No entanto, se até se pode colocar como crítica válida a cobertura às vezes desmedida ao que se passa do outro lado do Atlântico, desta vez o caso é excecionalmente sério e merecedor de atenção.

Afinal de contas, estamos a falar de — para além de todas as repercussões políticas e culturais que isso enceta — o líder do país mais poderoso do mundo estar a correr perigo de vida.

A cronologia é já conhecida pela maioria: na madrugada de quinta para sexta-feira (na hora portuguesa, nos EUA foi apenas à noite), Donald Trump revelou estar infetado com Covid-19, tal como a sua mulher, a primeira-dama Melania Trump. O político que levantou ondas por minimizar o vírus viu-o a entrar na Casa Branca sem bater à porta e o mundo susteve a respiração.

Estimando-se inicialmente que o presidente dos EUA ficaria apenas de quarentena no seu quartel-general por estar a padecer de sintomas meramente ligeiros, a segunda surpresa surgiu quando foi noticiado que afinal Trump iria ser hospitalizado por precaução no Centro Médico Walter Reed, tendo a viagem ocorrido ainda ontem.

Hoje, durante a tarde, a equipa de profissionais de saúde a acompanhá-lo, encabeçada pelo seu médico pessoal, Sean Conley, veio pintar um cenário otimista perante a comunicação social: não só Trump estava “muito bem”, como não tinha febre e não sentia particulares dificuldades de saúde — algo que o próprio quis corroborar através do seu canal de comunicação por excelência, o Twitter.

No entanto, é sabido que a reação desta administração com os meios de comunicação é fraturada e que o que é passado oficialmente não corresponde necessariamente à verdade. A enésima prova disso é que não só Conley se desviou de uma série de questões — quando é que Trump foi oficialmente testado pela primeira vez ou se já tinha sido submetido a auxílio de oxigénio para respirar — como uma fonte anónima da Casa Branca descreveu uma situação bem menos positiva horas depois da comunicação.

Ainda que tenha dito que o presidente estava de facto a melhorar, o funcionário citado disse que “alguns dos sinais vitais do presidente nas últimas 24 horas têm sido muito preocupantes, e as próximas 48 horas serão críticas em termos de cuidados”, sendo que a equipa ainda nem sequer tinha tomado “um caminho claro para a recuperação".

Outros dados entretanto vieram a público complicando ainda mais a situação. Apesar de Conley dizer que o presidente não necessitou de suporte de oxigénio, o New York Times confirmou junto de dois funcionários da Casa Branca que Trump afinal sofreu dificuldades respiratórias antes de viajar e precisou de apoio de ventilação no local. 

O conjunto de dados a contradizer a versão dos médicos recebeu a cereja no topo do bolo quando o próprio chefe do pessoal da Casa Branca, Mark Meadows, veio admitir que  Trump passou por um período "muito preocupante" na sexta-feira e que as próximas 48 horas "serão críticas" para a recuperação do presidente. Não esqueçamos que Donald Trump, pela idade, peso excessivo, recente debilidade cardíaca e constante pressão de trabalho e de campanha eleitoral, está num grupo de risco elevado.

Há questões, porém, que ainda não foram respondidas: se a Casa Branca dispõe de instalações médicas, porque é que Trump foi deslocado para um hospital se o seu caso não é grave? Qual foi a última vez que o presidente foi testado antes do derradeiro teste positivo? E porque é que está a ser submetido a tratamentos experimentais que ainda não foram sequer disponibilizados ao público? “Porque ele é o Presidente dos Estados Unidos”, disse Conley na conferência, uma resposta que mantém não só os EUA como o resto do mundo por eles influenciado na ignorância.

A estratégia presidencial, se se confirmar que está a tentar ocultar o real estado de Trump, não surpreenderá, já que a saúde de Trump sempre foi um tema tabu na Casa Branca e será especialmente premente nesta fase, com as eleições presidenciais a ocorrerem daqui a um mês.

As repercussões já se fizeram sentir no círculo íntimo do presidente, com diversos elementos do Partido Republicano a assumir estar também infetados com o vírus SARS-CoV-2. Além do chefe de Estado e da primeira dama, o diretor de campanha, Bill Stepien, a antiga conselheira Kellyanne Conway, a ex-diretora de comunicação e conselheira Hope Hicks e três senadores republicanos já confirmaram ter covid-19, com a situação a estender-se ainda a três jornalistas acreditados para trabalhar na Casa Branca.

Mas para além disso, coloca-se em cima a própria questão da recandidatura de Trump poder a vir ser hipotecada perante este cenário. Com comícios cancelados, tal como o segundo debate com o seu rival democrata, Joe Biden, e pessoal da sua campanha infetado, é uma incógnita como é que esta corrida decorrerá até 3 de novembro.

Nas redes-sociais correm rumores de que, à semelhança das acusações feitas a Jair Bolsonaro quando foi esfaqueado em plena campanha eleitoral no Brasil, a infeção de Trump pode não ser verdadeira e pode significar uma estratégia audaz de reeleição. Desde o confinamento poder significar furtar-se a debates ou a maior escrutínio, até ao facto de poder apelar ao sentimento dos eleitores, são várias as justificações que são apontadas para fingir ter Covid-19.

A hospitalização e este caos à volta do diagnóstico de Trump, porém, vêm tirar razão às teorias da conspiração, mas tudo é incerto, tal como o estado de saúde do presidente. Agora é acompanhar as novidades, um dia de cada vez

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