Um minuto de silêncio, um discurso de Marcelo, um comício de Bolsonaro. O que aconteceu na véspera do funeral de Isabel II?

António Moura dos Santos
António Moura dos Santos

Quando aconteceu o minuto de silêncio?

Às 20:00 — recordemos que o horário no Reino Unido é mesmo que em Portugal — como “momento de reflexão”. Na capela instalada em Westminster Hall, onde se encontra o caixão de Isabel II, tal minuto de silêncio traduziu-se numa paralisação da fila de pessoas que desde quarta-feira têm vindo ao centro de Londres despedir-se da soberana.

Após este momento solene, o rei Carlos III prestou um agradecimento "conforto e apoio" prestados tanto a nível global, como no Reino Unido. "Sentimo-nos profundamente emocionados pelas numerosas mensagens de condolências e apoio que recebemos deste país e de todo o mundo", afirmou, lembrando a resposta do público "em Londres, Edimburgo, Hillsborough e Cardiff", em alusão às quatro regiões britânicas: Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales.

Por falar em apoio do globo, quem é que está em Londres para o funeral?

Os presidentes dos Estados Unidos, Joe Biden; da França, Emmanuel Macron; do Brasil, Jair Bolsonaro, assim como os monarcas da Espanha, Suécia, Noruega, Luxemburgo, Mónaco, Bélgica e Países Baixos, além do imperador japonês Naruhito, acompanharão o funeral de Estado na Abadia de Westminster.

O presidente dos Estados Unidos assinou o livro de condolências oficial, momento em que aproveitou para elogiar a monarca. "Já expliquei que a minha mãe e o meu pai pensavam que todos (...) mereciam ser tratados com dignidade e foi exatamente isso que ela me transmitiu", assim como "a noção de serviço", disse Biden, para quem "o mundo é melhor graças a ela".

E Portugal, não estará presente?

Está. Marcelo Rebelo de Sousa também já se encontra no Reino Unido, onde assinou o livro de condolências na Lancaster House e deixou uma mensagem de apreço a Isabel II, antes de participar numa receção no Palácio de Buckingham oferecida pelo Rei Carlos III aos líderes internacionais que viajaram para presenciar as cerimónias fúnebres com honras de Estado na segunda-feira.

Ao chegar ao balcão onde os representantes oficiais dos países são encaminhados pelos assistentes parlamentares, o Presidente português desceu ao nível do chão para se aproximar mais e benzeu-se ao passar junto ao caixão, perto do público e dos guardas, relata a Lusa.

Marcelo — que não teve de ficar a aguardar na fila que se estende por vários quilómetros e leva horas a percorrer porque os chefes de Estado têm uma via de acesso própria — foi acompanhado pelo embaixador de Portugal em Londres, Nuno Brito, e pela chefe do Protocolo de Estado, embaixadora Clara Nunes dos Santos.

Que mensagem foi essa?

O Presidente disse ter deixado por escrito e depois ter transmitido pessoalmente a Carlos III, "em nome do povo português", "o pêsame, a dor com que Portugal acompanhou este momento, vibrando com o povo britânico, vibrando com o Reino Unido".

"Recordei nessa mensagem a nossa aliança, que vai celebrar para o ano 650 anos" e "as visitas de Estado da Rainha Isabel II, em 1957 e 1985, inesquecíveis", disse Marcelo Rebelo de Sousa, que contou que Carlos III teve "uma reação muito, muito expressiva" e respondeu de imediato que "a data [da aliança luso-inglesa] se celebra agora", por saber que tinha dado o patrocínio para as celebrações, ainda como príncipe de Gales.

"Veio à sua memória imediatamente e, sendo cumprimentos que não eram formais, numa receção com centenas de chefes de Estado e chefes de Governo, foi muito, muito significativo", acrescentou.

Marcelo aproveitou ainda para justificar a decisão — algo contestada por alguns setores políticos — de declarar os três dias de luto pela morte de Isabel II.

"Há um certo protocolo nas relações entre Estados e tinha havido um luto, por exemplo, pela morte do imperador do Japão de três dias" ou por "vários chefes de Estado importantes, mas não tão importantes em termos de História de Portugal", disse Marcelo Rebelo de Sousa, em Londres.

Para o Presidente da República, Isabel II, que morreu em 8 de setembro, "representava seis séculos e meio de história" e o país que representa "muita" da independência portuguesa.

"Foi uma homenagem não apenas a Sua Majestade a Rainha Isabel II, mas ao papel histórico em momentos cruciais do Reino Unido. Primeiro da Inglaterra, depois do Reino Unido, trabalhando pela nossa independência no século XIV, voltando a trabalhar no século XVII. Uma parte da nossa independência deve-se a este país", disse.

Houve mais algum momento de destaque nestas deslocações de Estado?

Sim, e talvez não pelos melhores motivos.

Pouco depois de desembarcar em Londres, o presidente compareceu ao lado da esposa, Michelle Bolsonaro, a Westminster Hall, para prestar homenagem perante o caixão de Isabel II, com a solenidade que se espera.

A questão é que, depois, improvisou um comício eleitoral perante cerca de 200 apoiantes junto à embaixada do Brasil em Londres.

"Estamos aqui num momento de pesar, de profundo respeito pela família da rainha e pelo povo do Reino Unido", disse a princípio, a partir da varanda da residência do embaixador do Brasil.

A questão é que, de seguida, o presidente brasileiro disse que esta manifestação na embaixada "representa o que realmente acontece no Brasil", que tem de decidir o seu "futuro" nas eleições de outubro. "Sabemos quem está do outro lado e o que eles querem implantar no nosso Brasil", disse o presidente. "Somos um país que não quer discutir liberalização de drogas, que não quer discutir legalizar o aborto, um país que também não aceita a ideologia de género".

"O nosso lema é Deus, pátria, família e liberdade. E este é o sentimento da grande maioria do povo brasileiro", afirmou ao grupo de simpatizantes.

Houve reações?

Sim, Lula da Silva, ex-presidente brasileiro, que governou o Brasil entre 2003 e 2010, e que está à frente nas sondagens, considerou "louvável" que Bolsonaro assista ao funeral da rainha, mas condenou o aproveitamento da viagem para "fazer discursos" e "criticar a esquerda”.

"Não seria melhor para o genocida visitar famílias de pessoas que morreram de covid?" questionou hoje o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) durante um comício de campanha em Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina.

Além disso, a própria imprensa britânica também censurou o que considera ser oportunismo eleitoral e uma atividade de mau gosto perante um período de luto no Reino Unido.

De volta a Isabel II, o que se segue?

Ainda é possível visitar a capela onde se encontra o caixão de Isabel II, mas só até às 6:30 desta segunda-feira, hora que se fecham as portas.

O funeral começará então com o transporte do caixão da rainha para a Abadia de Westminster. A cerimónia tem início às 11:00 horas na Abadia de Westminster, perante 2.000 convidados, oficiada pelo deão de Westminster, David Hoyle, e com um sermão de Justin Welby, líder espiritual da Igreja Anglicana, da qual o monarca da Inglaterra é chefe desde o rompimento de Henrique VIII com Roma no século XVI.

Segue-se depois o cortejo do caixão da rainha desde a abadia de Westminster até ao Arco de Wellington, no Hyde Park Corner. No local, será colocado num carro fúnebre para a última viagem até o Castelo de Windsor.

O corpo da monarca será sepultado a partir das 19:30 na capela do rei George VI, onde estão os caixões do seu pai e da sua mãe, assim como as cinzas da sua irmã Margaret.

Como é que as autoridades se estão a preparar para o funeral?

O chamado "funeral do século" — dada a quantidade de líderes mundiais presentes e a pompa do funeral de modo geral — representa um desafio de segurança "maior que os Jogos Olímpicos de 2012", disse o vice-comissário da Scotland Yard, Stuart Cundy. A polícia de Londres considera esta a maior operação e mais complexa de segurança na capital, com mais de 10.000 agentes nas ruas por dia, o que levou à mobilização de polícias do resto do país.

As autoridades dizem foram erguidas barreiras ao longo de 36 quilómetros no centro de Londres para controlar multidões e manter seguras algumas áreas importantes em torno do parlamento, da Abadia de Westminster e do Palácio de Buckingham.

As forças armadas também estão envolvidas, não só na segurança mas também nos cortejos, tendo sido destacados 5.949 soldados desde a morte da monarca, além de 175 efetivos de forças de nações da Commonwealth.

Destes, pelo menos 1.650 vão participar no cortejo do caixão da rainha desde a abadia de Westminster até ao Arco de Wellington, após o funeral, 1.000 vão estar ao longo das ruas, e outros 1.170 vão acompanhar o cortejo e cerimónias no Castelo de Windsor

Tudo isto, em parte, porque cerca de um milhão de pessoas deverá afluir à cidade para assistir às cerimónias nas ruas, adiantou o presidente-executivo da entidade responsável pelos transportes de Londres TfL, Andy Byford.

A rede ferroviária programou cerca de 250 comboios adicionais, enquanto que no aeroporto de Heathrow, o maior da capital, mais de 100 voos serão cancelados para evitar que o ruído dos aviões perturbe os serviços fúnebres na abadia de Westminster de manhã e no castelo de Windsor à tarde.

Aqueles que não observarem o cortejo nas ruas de Londres, deverão fazê-lo em pubs, telas instaladas em parques e até em cinemas. Os analistas calculam que as cerimónias serão assistidas por 4,1 mil milhões de pessoas pelo mundo, graças à televisão e às redes sociais.

*com agências

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