Apesar de vencer as eleições presidenciais de abril e garantir a sua reeleição, Emmanuel Macron sabia que dificilmente poderia ter descanso: não só a sua vitória emagreceu face à de 2017 — Marine Le Pen conseguiu reduzir o fosso —, como avizinhava-se uma dura batalha pelo controlo do Parlamento francês.

Embora as negociações parlamentares sejam comuns na maior parte das democracias, a ausência de uma maioria absoluta no Parlamento francês pode tornar-se uma enorme dor de cabeça para o executivo; e normalmente, o partido vencedor das presidenciais vence também as legislativas sem problemas, podendo governar sem ser obrigado a negociar. Mas estes não são tempos normais.

Em 2017, logo após ganhar as eleições presidenciais, Emmanuel Macron conseguiu também uma maioria na Assembleia Nacional com o seu partido República em Marcha, trazendo para a política novas caras. Se, por um lado, esta maioria lhe deu uma margem de manobra confortável para levar a cabo as reformas que considerou essenciais no país, essa vitória acabou por não se traduzir nas eleições municipais de 2020, onde o partido não ganhou nenhuma das grandes cidades em França.

Cedo se percebeu que o facto de nos últimos cinco anos ter havido uma erosão dos apoiantes de Emmanuel Macron e de ele ter agora uma dívida política para com outros eleitorados poderia prejudicar as ambições do presidente recém-eleito. O candidato da esquerda radical, Jean-Luc Mélenchon, disse logo após essas eleições que as legislativas seriam "a terceira volta das presidenciais", pedindo para ser eleito primeiro-ministro, sendo que Le Pen apontou igual objetivo. A auxiliar Mélenchon esteve o facto de encabeçar a primeira frente de esquerda — esquerda radical, ecologistas, comunistas e socialistas — em 25 anos.

A primeira volta, a 12 de junho, estabeleceu logo a tónica: nem Macron nem Mélenchon a venceram, ao não reunir 50% dos votos que representem pelo menos 25% dos eleitores inscritos, e terminaram tecnicamente empatados, seguidos proximamente pela Reagrupamento Nacional (RN, extrema direita), de Marine Le Pen.

Macron acusou o toque e, na reta final da campanha, a sua aliança eleitoral Juntos! advertiu para o caos que representaria ter de governar com maioria simples e, sobretudo, para o "perigo" que representaria a chegada da frente de esquerdas ao poder.

Hoje chegou a "fatura", ou, nas palavras do jornal francês Libération, "A bofetada". A aliança de centro de Macron, perdeu, neste domingo, a maioria absoluta no Parlamento, perante o avanço da frente de esquerda e, sobretudo, da ascensão espetacular da extrema direita nas eleições legislativas.

Segundo as projeções do instituto Elabe às 22h40 locais (21h40 de Lisboa), a aliança Juntos!, de Macron, obteria entre 230 e 245 assentos na Assembleia Nacional (Câmara baixa), enquanto a Nova União Popular Ecológica e Social (NUPES, esquerda), teria entre 150 e 160, e o Reagrupamento Nacional de 85 a 90 cadeiras.

Haveria esperança para Macron, caso os partidos da direita democrática cooperassem. Todavia, tanto Os Republicanos (LR, direita) como os seus aliados da UDI (67 a 71 assentos) fecharam a porta. O presidente d’Os Republicanos, Christian Jacob, assegurou que serão oposição, descartando um pacto de governo. “Fizemos campanha na oposição, estamos na oposição e vamos permanecer na oposição. As coisas foram muito claras”, precisou em conferência de imprensa.

A primeira-ministra Élisabeth Borne considerou um "risco" para o país estes resultados e prometeu procurar a partir de segunda-feira "uma maioria de ação". "Não há alternativa a esta união para garantir a estabilidade" do país, disse. Já o ministro da Economia, Bruno Le Maire, reconheceu que esta "é uma situação sem precedentes” e apesar de rejeitar que estes resultados criem uma situação de instabilidade política permanente, admitiu que será necessária “muita imaginação” para conseguir governar.

Pior ainda para Macron, as eleições representam um desafio duplo porque os membros do governo francês deverão deixar o poder se perderem no seu círculo, segundo uma regra tácita. Três estão neste caso, entre eles Amélie de Montchalin, próxima de Macron. O revés de Macron também se traduz também na derrota dos principais líderes do seu movimento, como o atual presidente da Assembleia Nacional, Richard Ferrand, ou do presidente do seu grupo parlamentar, Christophe Castaner.

"É uma situação totalmente inesperada, inédita, a derrota do partido presidencial é total e não aparece nenhuma maioria", assegurou Mélenchon perante os seus apoiantes. "É o fracasso da 'macronia', o fracasso moral daqueles que deram lições a todos", afirmou o líder da coligação de esquerda.

Mélenchon criticou ainda que, em até 52 corridas na segunda volta de hoje, Macron não tenha optado pela frente republicana e não tenha apoiado o candidato da NUPES contra a extrema-direita. "Aqueles que deram lições da 'macronia' não foram capazes de dar uma instrução clara em 52 casos, o que agora os desqualifica para dar lições a alguém", argumentou.

Já o partido de extrema-direita de Le Pen, embora na terceira posição, é um dos principais vencedores destas eleições, ao superar com larga folga os oito deputados de 2017 e conseguir, assim, formar um grupo parlamentar próprio pela primeira vez desde 1986.

"Vamos encarnar uma oposição firme, sem conluio, responsável, respeitosa das instituições", disse Le Pen a partir do seu bastião em Hénin-Beaumont (norte), onde revalidou o seu assento, vangloriando-se por ter feito de Macron um "presidente minoritário".

A participação era chave na segunda volta, mas segundo o ministério do Interior, 53,08% dos 48,7 milhões de franceses convocados às urnas não foram votar, representando novo crescimento da abstenção em França.

A Macron sobra sempre uma alternativa extrema e por demais arriscada: se não conseguir aprovar as suas reformas, o presidente pode dissolver a Assembleia antecipadamente e convocar novas eleições, como fez em 1988 o presidente socialista François Mitterrand.

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