O filme de Guillermo del Toro, que arrecadou quatro dos 13 óscares para o qual estava nomeado, define bem os sintomas de 2018: estamos desejosos para apadrinhar uma relação entre uma jovem mulher e um atum. Por mim, tudo bem. Não deixa é de ser bizarro que um Guillermo que assume no apelido ser pertença de um touro se tenha dedicado desta forma a explorar uma trama de amor humano-piscícola. O que dirá o gado bovino desta traição?

Espero que acreditem em mim quando digo que The Shape of Water foi a primeira produção de pornografia interespécie que vi na minha vida. Contudo, se sugerirem que, para o ano que vem, um filme caseiro em que uma jovem estrábica tem intenções de que um Puro Sangue Lusitano a cubra e consegue-o com a ajuda de um coxo pansexual e de uma amiga esquimó, leva para casa o óscar de Melhor Filme, eu ainda vou abrir a boca, mas vou acabar por não discordar.

Não amei o filme, nem o detestei. Supostamente estará pejado de referências a Hollywood, como o filme mudo, mas isto não basta para me demover da ideia de que se não estou a adorar o filme, mudo. Para ser honesto, só vi o filme depois de ter sido anunciado como o grande vencedor dos Óscares. Já tinham passado umas horas, mas acho que ainda estava bom para ver. Acompanhei o peixe com uma salada mista de reações: não era tão podre como alguns críticos gastro-cinematográficos o pintaram, nem tão fresco como a lota, perdão, a Academia quis fazer parecer.

É dotado, isso sim, de todos os ingredientes - minorias, um tom alegórico, assédio, meta-cinema - para que viesse a ser oscarizado. Del Toro pôs todas as fichas (chips) neste peixe (fish), para originar um filme fish and chips - não tão mau quanto alguns dizem, mas que honestamente não impressiona. Desenrolando-se durante a Guerra Fria, não deixa de ser um enredo hippie que encaixa num discurso pacifista que obriga à utilização da irritante expressão “tão atual”. Como se costuma dizer, make love not war. Ou, em português, façam amor e não guelras.

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Berlim.

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