Não obstante a polémica (afinal, a lei podia ou não proibir a reunião da família comunista?) em torno do evento, que foi bastante criticado pelos partidos da direita, a verdade é que o XXI Congresso do PCP arrancou, o novo Comité Central foi aprovado com 98,5% dos votos e Jerónimo de Sousa continuará à frente do partido. 

Não é que se estivesse à espera de um outro resultado ou de um desfecho diferente. A priori, o PCP é um partido em que as regras seguem um guião bem oleado e caso houvesse uma novidade desta magnitude, essa seria comunicada atempadamente. Isto, apesar de em 2019, Jerónimo até ter acomodado a hipótese, ainda que fosse meio remota, de sair neste congresso porque uma eventualmente saída não era mais do que a "lei da vida". Mas, hoje, aos jornalistas e já terminado o evento, explicou que não estava a prazo. 

“Neste momento, tenho força para dizer que, sim senhora, não estou a prazo", garantiu, antes de entrar para a viatura do PCP que o costuma transportar, com os seguranças a apressarem o abandono do Pavilhão Paz e Amizade, em Loures, onde decorreu o congresso.

Aos 73 anos e líder do PCP há 16 (é o secretário-geral com maior longevidade a seguir ao histórico Álvaro Cunhal, que liderou o partido durante 31) o ainda deputado e antigo operário metalúrgico revelou-se "com energia, com força". Depois, em jeito de brincadeira, reforçou que agora sente-se capaz de desempenhar a função. "Eu força terei, se não tiver é que não posso".

Antes, no discurso de encerramento do congresso, frisou que a alternativa política não seria possível sem o PCP. Por isso, deu também conta de que os entendimentos com o PS podiam ter ido mais longe (“um caminho que ficou curto porque o PS não se liberta das suas escolhas e opções”) — o que não significa que não criticasse os sucessivos estados de emergência.

Mas pela primeira vez Jerónimo teve um voto contra. Nunca tal tinha acontecido desde 2004, ano em que assumiu a liderança do partido enquanto secretário-geral. Será que serão sinais dos tempos? Não se sabe. Será que vai cumprir os quatros anos, ficando 20 anos à frente do partido? Também não.

Os tempos vindouros vão carecer de atenção e trabalho. É que em termos eleitorais, se recuarmos até às últimas legislativas, em 2019, damos conta do pior resultado de sempre em percentagem e votos para a Coligação Democrática Unitária (CDU) — em suma, os resultados finais ditaram os mesmos 12 deputados do sufrágio de 2002.

Se Jerónimo será o homem para alterar estes números, vai ser necessário aplicar-se o chavão do costume de o "tempo o dirá". Por ora, destes três dias de congresso, fica a reeleição de Jerónimo de Sousa e a entrada de João Ferreira, candidato às presidenciais apoiado pelos comunistas, para a Comissão Política do Comité Central, um dos núcleos mais importantes do partido.

Este último foi, de resto, um dos nomes mais aplaudidos durante o fim de semana, sendo um dos apontados para suceder ao atual secretário-geral. Mas, para já, a missão parece ser as presidenciais — tanto que no sábado, entre referências a Abril e ao Mestre de Avis, apontou 10 falhanços a Marcelo.

Assim, resta escrever o sumário de que o XXI congresso nacional do PCP terminou com o intento de reposicionar o partido como "força de oposição", que quer "contar", no futuro, em diálogo à esquerda. Agora, é esperar para ver se isso significará mais autarquias e votos nas próximas eleições.

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