O dia começou sem luz solar nas imediações de Alvalade. Com o céu escuro e carregado de nuvens e alguma chuva, miudinha, as urnas situadas no Hall Vip do Estádio Alvalade XXI abriram às 9h00 com uma fila considerável de sócios que, a essa hora, começavam a dar quase meia-volta à casa do futebol dos leões.

Antes dos sócios presentes começarem a carregar no botão (voto eletrónico), já 5.100 votos por correspondência tinham chegado à caixa de correio leonina e às mãos de Marta Soares, presidente da Mesa da Assembleia-Geral em funções e responsável máximo pela organização das eleições que elegem o 43.º presidente do Sporting Clube de Portugal.

João Benedito, de fato sem gravata, que deixou cair o cartão de sócio quando passou a primeira barreira à entrada para o local de votação, foi o primeiro candidato a exercer o direito de voto. Nessa altura já sabia que, nos primeiros 30 minutos tinham votado 750 pessoas. Votou e falou de forma apressada, justificando que tinha que ir para o Algarve ver a Supertaça de futsal que o Sporting conquistaria, ao vencer o Fabril do Barreiro, por 11-0.

Uma 2ª volta e o voto eletrónico. O que a política e o futebol podem emprestar um ao outro

Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, acompanhado pela filha, Rita Ferro Rodrigues, fez questão sublinhar a “enorme dívida de gratidão para com a Comissão de Gestão” e a esperança de “uma união” de todos os sportinguistas, uma unidade que espera que se concretize. E em relação a este ponto, Ferro Rodrigues (o pai) frisou que, no seu entender, num clube “com esta dimensão” o presidente deveria merecer “a confiança de uma maioria, mais 1”, mas que os estatutos não contemplam a existência de uma “2.ª volta de eleições”, algo que “deveria ser alterado”, embora, ressalve, que respeito pelos estatutos. Já a filha mencionou a necessidade cada vez maior de contar com mulheres nos focos de decisão do clube.

Se a eventual 2.ª volta de uma eleição é algo que a política pode emprestar ao desporto, as eleições no Sporting Clube de Portugal apresentam um modelo que a política conhece, mas não aplica: o voto eletrónico.

Carlos Zorrinho, eurodeputado socialista viajou do Parlamento Europeu para Lisboa para exercer o direito de volto e “cumprir um dever de cidadania”, no caso concreto “cidadania clubística”. Zorrinho elogiou a “grande vivacidade demonstrada com a adesão dos sócios que, apesar dos resultados desportivos, marcaram presença em massa”. Elogios que se estenderam também ao voto eletrónico, “um excelente exemplo para aplicar noutros atos eleitorais”. O “voto eletrónico presencial”, frisou.

Daniel Oliveira, comentador político e ex-militante do Bloco de Esquerda, admitindo que consegue perceber, apesar de tudo, a inexistência de segunda volta, apela a que se voltem a alterar os estatutos no sentido de permitir a votação dos órgãos sociais do clube (Conselho Diretivo, Conselho Fiscal e Mesa da Assembleia-Geral) em separado, ao contrário do que acontece nestas eleições. O próprio confessou que foi a primeira vez que, por obrigação, votou na mesma lista para todos os órgãos.

Ainda no âmbito de exercícios de democracia e exercícios do poder, Menezes Rodrigues, dirigente em quase três décadas no clube leonino dissertou sobre os votos expressos, o poder e uma 2.ª volta eleitoral que passaria por uma alteração, em seu entender, necessária dos estatutos.

“Só faltou trazer a cama”

Frederico Varandas foi o senhor que se seguiu. De calça beije e camisa azul clara, percorreu demoradamente a longa fila com enorme discrição e sempre parco em cumprimentos e palavras. Uma postura só interrompida quando se aproximou da “entrada” para as urnas, sendo que à saída, na hora de falar aos jornalistas, voltou ao anterior registo. “Hoje é o dia dos sócios falarem”, expressou, com um olhar maravilhado com tudo o que viveu neste ato eleitoral.

Se Varandas pouco abriu a boca, o mesmo não se pode dizer do candidato José Maria Ricciardi. Em declarações aos jornalistas tirou da cartola um trunfo onde se mexe como peixe na água: a parte financeira e a atual situação económica do clube, deixando críticas à Comissão de Gestão liderada por Torres Pereira.

Dias Ferreira assegurou aquilo que estava à vista de todos: que a votação em massa foi uma “prova de vitalidade” do clube, ao passo que Rui Jorge Rego, de blazer azul e ténis brancos com marca de um crocodilo, penúltimo homem que se apresentou a sufrágio a carregar no botão, apontou baterias para o futuro e para um “Sporting forte e em que toda a gente se preocupe com o Sporting”, esperando que nesse caminho cada qual deixe de lado os seus egos.

Por fim, e nesta lista de seis candidatos, o último a votar, Fernando Tavares Pereira. Com uma gravata verde bem florescente garantiu que depois de calcorrear “40 mil quilómetros pelo pais” nunca “fará mal ao Sporting”, defendendo que é tempo de “arrumar a casa”.

E Alvalade foi quase a única casa que José Sousa Cintra conheceu desde que tomou posse como presidente da Comissão de Gestão que disse ter vindo “por amor ao clube, num diálogo interrompido pelos diversos agradecimentos prestados pelos mais diversos associados. “Só faltou trazer a cama para aqui, foi de manhã à noite”, gracejou.

13, 19 e 69. Os números da sorte do Sporting

Ato eleitoral no clube com o leão no emblema é sinal de passeio de personalidades ligadas às mais diversas áreas, da política (Pires de Lima, antigo ministro da Economia, e Vasco Lourenço, militar de Abril), à economia (Vasco Mello, presidente da Brisa), passando pelas artes (Pedro Lima, ator, ou César Mourão, humorista) e o desporto, com ex-atletas à cabeça. E nesse último campo, Carlos Lopes foi um, entre muitos, que marcou presença nestas eleições de 8 de setembro de 2018. Refutando que o clube enfrente várias eleições nos últimos anos (desde 2000 conheceu 5 presidentes: Dias da Cunha, de 2000 a 2005, Soares Franco, de 2005 a 2009, José Eduardo Bettencourt, 2009 a 2011, Godinho Lopes, de 2011 a 2013 e Bruno de Carvalho de 2013 a 2018), preferiu acentuar que se trata de um clube “estável” e “diferente”, em que os sócios sentem “muito carinho” por esta “força grande” que nasceu para “ser campeão”.

Da lista dos últimos presidentes, com Godinho Lopes expulso e o anterior, Bruno de Carvalho, suspenso, Dias da Cunha, antigo presidente do SCP, realçou que a enorme adesão foi uma “enorme vitória do Sporting” e aquilo que o clube “necessitava”, desta afirmação de “apoio ao Sporting”, numa declaração interrompida pelo cauteleiro António Saavedra que queria vender o número 13, para “dar sorte”. Dias da Cunha rejeitou a “oferta” e retorquiu afirmando que queria “toda a sorte do mundo”, mas para o Sporting.

créditos: PAULO RASCÃO / MADREMEDIA

“Olha o 69 e o 13. Olha o 19 e o 13 e o 69...”, apregoava Saavedra mesmo à boca das urnas. Contente com os 50 euros que Sousa Cintra lhe entregou a troco “do número 26”, o seu número da sorte, realçou que “todos os candidatos” compraram cautelas, recordando que em dia de eleições e jogos de Alvalade os números “13, 19 e 69” são os mais comprados.

Mas no Auditório Artur Agostinho, os números que faziam sorrir Jaime Marta Soares eram outros. Por volta das 16h45 o presidente cessante da Mesa da Assembleia-Geral anunciava que cerca de 20 mil intenções de voto já tinham sido contabilizadas. “Uma verdadeira lição de democracia”, exaltava Marta Soares aos jornalistas.

Do outro lado da porta, a caminho da entrada para as urnas de voto, as câmeras mobilizavam-se. Pedro Madeira Rodrigues, o não-candidato, que teria sido o sétimo se não tivesse desistido a poucos dias do ato eleitoral, mas que ainda assim tinha o seu nome inscrito nos boletins de voto, tanto eletrónico como por correspondência. Tinha chegado para exercer o seu direito de voto, embora se soubesse que cada ‘toque’ no seu nome era igual a um voto nulo.

Candidato nas eleições de março de 2017 contra Bruno de Carvalho, Madeira Rodrigues falou ao SAPO24 de um exemplo de democracia que se traduziu, primeiro, num espelho da desunião interna do clube, referindo-se ao elevado número de candidatos, e depois no dia de hoje celebrado com uma adesão recorde por parte dos sócios do Sporting CP.

As imagens da rua que contorna o estádio José Alvalade XXI durante a tarde contrastavam com as da manhã. O sol tinha levado a melhor sobre a chuva e o cinzento, e a fila que se chegou a estender por centenas de metros deu lugar a uma curta coluna verde e branca que pouco tempo de espera impunha aqueles que iam chegando para “clicar” no seu candidato.

Nelson Pereira, antigo guardião dos leões, foi uma das últimas caras conhecidas do Sporting a votar. Antes de entrar disse ao SAPO24 que o dia de hoje era uma demonstração de “paixão clubística”. Puxando pelo seu passado, salientou que mesmo que o futebol não tenha alcançado os objetivos nos últimos anos, este não deve ser posto à frente das modalidades e que o clube deve funcionar como um todo.

O último voto, esse, pertenceu a Jaime Marta Soares que volveu depois ao auditório para anunciar os números finais. E logo um recorde eleitoral verde e branco: 22.500 votantes ( sendo 5100 por correspondências, 3221 destes validados). Um número largamente superior aos 18.661 alcançados em 2017.

No período de um ano, duas eleições e dois recordes sucessivos em atos eleitorais. Um ano a seguir ao outro, os sócios leoninos foram chamados a decidir quem queriam ver à frente do clube. À aparente desunião, espelhada no elevado número de candidatos, os adeptos, debaixo de chuva e de sol, responderam com união e gritaram presente em mais um primeiro dia do resto da vida do Sporting Clube de Portugal.

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