A história não quis que Matt Le Tissier fosse reconhecido pelos troféus conquistados ou pela sua contribuição para a seleção do seu país. Para "Le God", “O Deus”, alcunha pela qual os adeptos do Southampton carinhosamente o tratam, o destino tinha reservado uma carreira que teve tanto de simples como de brilhante.

Nascido na ilha de Guernsey, a oeste da costa da Normandia, norte de França, Matt Le Tissier cresceu a jogar na rua com os irmãos e amigos. Quando estava sozinho, o seu passatempo preferido era jogar com uma bola de ténis contra a parede. O objetivo era sempre controlar a bola no peito e rematar em ‘volley’, onde a bola teria que atingir um alvo previamente definido. O facto de ter que jogar contra três irmãos mais velhos e os seus amigos foi, segundo Le Tissier, um dos segredos para o seu desenvolvimento como jogador. Tendo como ídolo Glenn Hoddle, de quem já tive aqui a oportunidade de apelidar de O rapaz dos golos bonitos, Le Tissier desde tenra idade que sonhava ser jogador de futebol.

Mais tarde, quando a oportunidade veio, a experiência falhada de um dos irmãos mais velhos, que lhe transmitiu os detalhes de tentar fazer a transição do futebol de formação para o futebol sénior, ajudou-o a estar pronto para o momento decisivo na carreira de um futebolista. Com apenas dezasseis anos, o jovem Matt deixava a ilha onde crescera para se juntar à formação do Southampton.

Jogador de um só clube

Já tive a oportunidade e o privilégio de falar aqui de jogadores que conseguiram acumular não só o estatuto de lendas futebolísticas, como também o facto de terem representado apenas um emblema em toda a sua carreira. De jogadores mais presentes na nossa memória, como Jamie Carragher, Paul Scholes, Ryan Giggs, Tony Adams, a jogadores como Bob Paisley e Nat Lofthouse. Não sendo casos únicos, já que não só em Inglaterra como pelo mundo são vários os jogadores que dedicam a sua carreira a um só clube, as probabilidades de grandes jogadores permanecerem em clubes de menor dimensão, nos dias de hoje, começam a ser quase utópicas. Segundo Le Tissier, um jogador que cresça já num clube que ganhe troféus e que possa competir com os salários dos maiores clubes do mundo, terá essa capacidade, mas hoje em dia, para um jogador de grande qualidade permanecer num clube de menores dimensões é praticamente impossível.

No caso particular de Matt Le Tissier, os motivos apontados para resistir à tentação de assinar por um clube com aspirações maiores que as do Southampton foram, segundo ele, a família, mas principalmente razões futebolísticas. "O Deus" sempre gostou de jogar futebol da forma como este achava que o futebol deveria ser jogado. Sabendo que era um jogador diferente da maior parte dos seus colegas, não só pela qualidade técnica mas pela falta de competitividade quando não tinha a bola a seus pés, Le Tissier sabia que o seu estilo não seria aceite num clube de maiores dimensões e, por muitas oportunidades que lhe fossem apresentadas, acabou sempre por ser fiel não só ao Southampton como a si mesmo e ao seu estilo de jogo. Além disso, Le Tissier nunca não se perdoaria se o Southampton fosse despromovido na época seguinte a deixar o clube. Isto porque o médio ofensivo era, época após época, o grande catalisador para a permanência do clube na Premiership, no início dos anos 90 e, mais tarde, na Premier League.

Com o Tottenham Hotspur, o Chelsea FC e o Liverpool FC a fazer diversas tentativas para resgatar o fenómeno do Sul de Inglaterra, o facto de Le Tissier ter feito carreira no Southampton de 1986 a 2002 é impressionante.

Sendo o Southampton, ano após ano, um dos favoritos a descer de divisão, tendo um dos orçamentos mais baixos da liga, um dos estádios mais pequenos, a dependência num jogador do calibre de "Le God" era total. Poderão não ser troféus, mas a resiliência de Le Tissier e do Southampton, na altura, permitiram ao clube estar onde está hoje. A escola de talentos, o novo estádio e toda a marca Southampton, têm a agradecer à competência de Matt Le Tissier grande parte do seu sucesso.

Questionado no início desta temporada sobre em que equipa actual, tendo em conta o estilo de jogo e o treinador, gostaria de ter tido a oportunidade de jogar, Le Tissier é célere em dizer Liverpool. A forma como a equipa ataca e coloca jogadores na frente, destemida, sempre à procura do golo, faz as delícias de "Le God" como espetador. Porém, prontamente admite que não faz ideia durante quanto tempo seria parte das escolhas de Jürgen Klopp.

O destino quis que fosse ele a decidir

Como referido anteriormente, Le God não conseguia viver com o sentimento de desapontar aqueles de quem gostava. Os episódios ao longo da sua carreira onde, pelo contrário, enche de orgulho aqueles que o seguiam, a ele e ao Southampton, são imensos. Mas destaquemos um jogo em particular.

Estávamos em 19 de maio de 2001, faltava jogar apenas um jogo para fechar a época. Para o Southampton o dia era especial. O campeonato estava praticamente definido, quer para o Arsenal, que tinha já assegurado o segundo lugar, quer para os Saints, que iriam permanecer a meio da tabela, fosse qual fosse o resultado. Ainda assim, um sentimento de nostalgia arrebatava os adeptos e jogadores do clube do sul de Inglaterra. Jogava-se o último jogo no estádio que servira de casa à equipa do Southampton nos últimos 103 anos. Inaugurado em setembro de 1898, o "Dell" albergara o clube praticamente durante todo o seu tempo de vida, já que o Southampton tem 1885 como data de fundação.

Se para os adeptos o dia era especial, para Matt Le Tissier, que viveu os melhores momentos de toda a sua carreira naquele palco, o dia seria para recordar toda a vida. Jogando contra uma equipa que, anos depois, se viria a tornar na famosa equipa invencível do Arsenal, o Southampton de tudo fez para manter a partida equilibrada. Quando Matt Le Tissier, já em final de carreira, é chamado a entrar, com 75 minutos jogados e o resultado em 2-2, a esperança ainda pairava no ar. Seria possível dar ao "Dell" uma última vitória, uma última glória? Se alguém estava destinado a trazer tamanha alegria aos adeptos do clube da costa sul, era ele mesmo, Matt Le Tissier, "Le God".

À entrada do minuto 89, sem outra alternativa se não tentar colocar a bola na grande área, o guarda-redes do Southampton, Paul Jones, bate um livre fora da sua própria área, colocando a bola o mais perto possível dos seus avançados. Tendo conseguido bater a bola precisamente para a entrada da área, o experiente defesa central do Arsenal Tony Adams deixa a marcação a Le Tissier e vem ao encontro da bola. Com anos de experiência e uma capacidade tremenda de cortar bola perigosas Adams não estava à espera de ter concorrência na disputa da bola aérea. Diretamente da ala, não só com mais balanço e poder de impulsão, mas com uma trajetória diferente do histórico defesa central do Arsenal, apareceu James Beattie. Conseguindo tocar na bola primeiro que o central, Beattie coloca a bola à disposição de Le Tissier que, após um primeiro toque na bola e um ressalto em Martin Keown, não está para meias medidas e de forma extraordinária, à sua maneira claro está, dispara como fizera toda a sua infância, mas desta feita o alvo era a baliza do Arsenal. O resultado foi igualmente diferente. Já não sendo uma criança a jogar apenas pelo prazer de jogar, Le Tissier era agora um jogador em final de carreira que, após ter dado mais de uma década de alegrias aos seus adeptos, tinha agora conseguido uma última alegria para o seu clube do coração e todos aqueles que o seguiam.

Especialista em livres, pénaltis — quarenta e sete marcados em quarenta e oito tentados ao longo da sua carreira — bolas de meia distância, lances em frente ao guarda-redes, enfim, todos os lances ofensivos possíveis em futebol, Matt Le Tissier acabou por nunca ser, de forma consistente, aclamado como um dos maiores jogadores ingleses de todos os tempos. Eu, assim como muitos outros, acredito que "Le God" é não só o melhor jogador da sua geração como um dos melhores jogadores ingleses de todos os tempos. A forma como se analisam carreiras pode variar, e a de Le Tissier, apesar da ausência de títulos e de internacionalizações  —terminando a carreira com oito internacionalizações apenas. Gritante! — teve uma das mais poéticas carreiras que um futebolista poderá ter.

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