Enquadrado em termos cosmológicos, um ano é pouco ou nada perante a imensidão do tempo, é um mero grão de areia num deserto. No entanto, quando tido em conta na finitude da vida humana, pode ser significar toda a diferença do mundo.

No ano passado, o Dia de Camões, de Portugal e das Comunidades Portuguesas foi comemorado como tem sido apanágio da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa: relocalizando para fora da capital, procurando celebrar a diversidade da portugalidade e da sua influência pelo mundo. Foi por isso que decorreu em Portalegre e em Cabo Verde.

Como é hábito, os locais das celebrações deste ano foram marcadas há sensivelmente 365 dias, sendo que a Madeira e África do Sul seriam os destinos para comemorar o de 10 de junho. Hoje, nesta altura de incerteza, tamanha distância na marcação parece imprudência quase a roçar a arrogância. Eram outros tempos.

Passado um ano, como se sabe, uma pandemia atingiu o país e o mundo, e o 10 de junho não se celebrou da mesma forma. Como tinha prometido nas comemorações simbólicas do 25 de abril, Marcelo Rebelo de Sousa assinalou hoje a data com uma pequena — em dimensão temporal e em magnitude — homenagem em Lisboa.

Os Jerónimos foram o local escolhido, onde está enterrado o poeta a quem este dia também é dedicado, e apenas compareceu um punhado de figuras de Estado para um evento de pouco mais de uma hora. A Madeira e a África do Sul terão de ficar para o ano (o plano para 2021 é manter as mesmas festividades), mesmo que, no caso do país africano, a comunidade portuguesa já estivesse pronta para receber Marcelo e, por agora, fique órfã de apoio.

Mas um ano não separa as celebrações do Dia de Portugal de 2019 e 2020 apenas na forma. Também no conteúdo algo mudou.

Em 2019, em Portalegre, o presidente das comemorações era João Miguel Tavares, filho dessa terra, que fez um mediático discurso sobre os perigos da desigualdade de oportunidades numa sociedade carente de meritocracia que forçava os melhores emigrar — de resto, analisado e desconstruído por Rute Sousa Vasco. O seu tom crítico contrastou com o de Marcelo Rebelo de Sousa, que enveredou pelas questões da responsabilidade cívica da nação, mas cujo destaque foi a manifestação de um orgulho pelo passado histórico de Portugal, da resistência do país e de esperança pelo seu futuro.

Hoje, estando ainda Portugal a braços com a covid-19, tanto num plano de saúde pública como económico, as palavras do chefe de Estado conhecido pelo carinho voltaram a evocar a resiliência portuguesa, mas com mais amargura.

"Portugal não pode fingir que não existiu e existe pandemia, como não pode fingir que não existiu e existe brutal crise económica. E este 10 de Junho de 2020 é o exato momento para acordarmos todo para essa realidade", alertou Marcelo Rebelo de Sousa, que colocou a tónica num proverbial lamber coletivo de feridas para a reconstrução futura do país.

A contrapor um discurso menos lírico do que o costume do Presidente da República esteve um homem que faz disso profissão, dividida com a devoção a Deus. Madeirense escolhido para acolher as celebrações na Pérola do Atlântico de que é natural, ao invés, o Cardeal José Tolentino de Mendonça deslocou-se a Lisboa para fazer um discurso tão inspirador quanto prova de que a adoração cristã não é sinónimo de ausência de cultura, como algumas correntes defendem.

Apresentando-se como “ mais um entre os 10 milhões de portugueses", o Cardeal evocou Camões na forma como a cultura também foi um veículo de expressão mundial de Portugal — “desconfinou Portugal”, disse Tolentino de Mendonça, empregando linguagem bem contemporânea, mas também se centrou nas agruras do presente no país. “A vida é um valor sem variações", foi uma das frases mais potentes do seu discurso, relembrando que acima do economicismo deve estar o Homem e que, neste momento, ninguém deve ficar para trás, especialmente os mais velhos, considerando necessário "reforçar o pacto comunitário", o que implica "relançar a aliança intergeracional".

Porém, quer queiramos, quer não, continuam também os números a reger a nossa vida, e aqueles que ficaram a ecoar hoje foram a avultada quantia de 1.2 mil milhões de euros, o valor que a Comissão Europeia permitiu ao Governo português injetar na TAP para salvá-la do abismo que a crise provocada pela covid-19 abriu.

Pedro Nuno Santos disse hoje que o valor provavelmente não chegará a tanto, que o Governo pretende, para já, investir “apenas” mil milhões de euros, dinheiro que, já é sabido, será adicionado ao défice público. Numa fase de sacrifícios, um valor desta grandeza poderá cair mal para muitos. Por isso mesmo é que o ministro lembrou o papel da companhia aérea para o país.

"É demasiado importante para a economia nacional, para o país, para as exportações, para a criação de emprego, para receitas que gera, para não socorrermos uma empresa com esta dimensão", defendeu Pedro Nuno Santos, antes de referir o papel da companhia aérea no serviço à diáspora e à ligação de Portugal com países com quem mantém laços históricos.

E porque hoje não é só Dia de Portugal, mas também das Comunidades Portuguesas, a importância da companhia aérea no serviço dos emigrantes também não pode ser desprezada. O Governo anuncia assim mais um sacrifício, para que a a TAP continue a ligar as pessoas que hoje celebramos, os portugueses.

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