426 dias. Numa edição da Liga dos Campeões repleta de recordes, este é o que mais impressiona. Passou-se um ano completo e dois meses desde que a bola começou a rolar no âmbito desta competição, prolongada devido à pandemia de Covid-19.

Iniciadas as rondas de qualificação a 11 de junho de 2019 — que antepuseram equipas como o Tre Penne, de San Marino, e o Lincoln Red Imps, em Gibraltar — é pertinente dizer que, por alturas do verão do ano passado, ninguém sequer imaginava os rumos sinuosos que esta edição iria tomar, nem que Portugal teria um papel tão fundamental para a competição.

Afinal de contas, esta foi uma edição de má memória para os clubes portugueses. O Porto caiu com estrondo frente ao Krasnodar na terceira eliminatória de qualificação, ao passo que o Benfica protagonizou uma pálida campanha na fase de grupos, que lhe valeu um lugar na Liga Europa (se bem que, em retrospetiva, o seu grupo, que não parecia muito complicado, tinha dois dos semifinalistas, o RB Leipzig e o Lyon).

Tudo indicava, portanto, que Portugal passaria ao lado da fase final da prestigiada prova. Mas eis que o pior aconteceu. Com a propagação à escala mundial da Covid-19, o mundo parou e, com ele, o futebol. Em plenos oitavos de final, a UEFA decidiu a 13 de março deste ano adiar as partidas que restavam disputar.

A data e o formato do regresso da Liga dos Campeões pareciam incertos, se bem que a UEFA nunca baixou os braços na procura por soluções. Com o nível de propagação da pandemia a baixar, os campeonatos domésticos por toda a Europa retomaram (menos em França e nos Países Baixos), abrindo a porta ao regresso da Champions.

Foi então em junho, um ano desde o início da competição começaram a ganhar forma: a UEFA começou a sugerir uma final a oito, onde quartos de final, meias-finais e final seriam todas disputadas no mesmo país. A Turquia, anfitriã originalmente escolhida para a final, chegou-se à frente, tal como Madrid. A escolha, porém, todos sabemos qual foi: Lisboa. E assim, Portugal acabava por encontrar-se de novo no centro da competição — pela terceira vez, já que em 1967 o estádio do Jamor foi palco da final entre Celtic e Inter, e em 2014 o Real Madrid bateu o vizinho Atlético no Estádio da Luz.

Considerada uma vitória pela classe política portuguesa e pelos dirigentes futebolísticos do nosso país — com polémica à mistura — a organização da “final 8” da Liga dos Campeões distribuída entre os estádios da Luz e de Alvalade, sem público, nunca esteve em dúvida desde que a escolha foi tomada, mesmo quando a Área Metropolitana de Lisboa viu um assomo de casos de Covid-19.

Depois dos jogos em falta dos oitavos de final serem disputados nos estádios dos respetivos clubes — 149 dias depois da paragem, recorde-se —, definiu-se então o rol de finalistas a dirigir-se para a capital portuguesa, epicentro do futebol europeu desde dia 12 deste mês até hoje:

A competição ocorreu sem mácula — o presidente da UEFA, Aleksander Ceferin, disse que voltaria a escolher Lisboa — e tudo redunda na final de hoje, no Estádio da Luz, num jogo que pode estar a decorrer ou até terminado pela altura em que está a ler estas linhas.

De um lado Bayern de Munique — que não deu hipótese ao Lyon na meia-final —, do outro Paris Saint-Germain — que vergou o Leipzig na ronda anterior —, duas equipas que têm tanto aquilo o que as une como o que as separa.

Ambas comandadas por treinadores alemães, hegemónicas de tal forma nos seus respetivos países que têm procurado obsessivamente a glória europeia, qual capitão Ahab atrás de Moby Dick. No entanto, se o Bayern já tem um longo historial na prova (10 finais, cinco vitórias e cinco derrotas) e é de longe a equipa mais experiente, o Paris Saint-Germain não quererá desperdiçar a primeira vez que chegou a esta fase.

Hoje é tudo o que interessa, ganhar a “orelhuda”. Para trás ficam as eliminações chocantes da Juventus e do Manchester City às mãos do Lyon, a queda do campeão Liverpool perante o Atlético de Madrid, a humilhação que o Bayern proporcionou ao Barcelona ou até os contornos trágicos dos jogos entre Valência e Atalanta, cuja concentração de adeptos propiciou os focos de Covid-19 em Espanha e em Itália, naquilo que foi descrito como uma "bomba biológica".

Tudo isso ficará para a história, disponível nos livros, jornais e repositórios de informação por esse mundo fora. A taça, porém, é só uma, e vai para Munique ou para Paris.

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