16 de março de 2020. Um dia que ficou para a história, e não pelos melhores motivos. Três dias antes de decretar pela primeira vez o estado de emergência, o Governo procedeu ao encerramento de todos os estabelecimentos de ensino, das creches às universidades, devido à pandemia da Covid-19.

A urgência de contenção desta doença assim o exigiu, mas os seus efeitos foram brutais: mais de três mil escolas foram forçadas a encerrar e cerca de dois milhões de crianças e jovens passaram a ter as suas aulas dadas à distância.

A realidade do toque para as aulas, das mochilas, da convivência à porta da sala e das chamadas ao quadro foi substituída pela realidade dos logins, da webcam, das fichas pelo correio e de aulas que são dadas em ecrãs. Os trabalhos de casa passaram a ser em casa.

Mas não foram só os alunos que foram obrigados a adaptar-se rapidamente: se por um lado os professores tiveram de adotar modelos de ensino inovadores — recorrendo a plataformas de ‘e-learning’ e aplicações de videochamada para as aulas, e a enviar trabalhos por ‘e-mail’ ou mesmo pelos CTT —; os pais foram expostos ao desafio de trabalhar em casa lado a lado com os filhos a aprender, acumulando em simultâneo as tarefas de profissionais, pais, cuidadores e formadores. 

Não houve preparação possível face à rapidez de propagação do novo coronavírus. Desde logo a mensagem do Governo foi de que, apesar de as escolas estarem encerradas, os alunos não estavam “de férias”. Mas se o intuito era o de prevenir a comunidade estudantil de que não se acercavam tempos fáceis, a realidade tratou de demonstrá-lo: desde alunos impedidos de acompanhar as aulas por não terem equipamentos ou acesso à Internet, até professores obrigados a reorganizar todo o programa de estudos, foram muitos os desafios que se avolumaram.

“Difícil”, “complicado” e “stressante” são as palavras que descrevem o quotidiano dos professores do 1.º ao 9.º ano em casa a dar aulas à distância desde 16 de março e que assim vão continuar até ao fim do terceiro período. O SAPO24 falou com vários profissionais do ensino público e privado do primeiro ao terceiro ciclo, para perceber como está a ser o seu dia a dia desde que as escolas fecharam os portões.

As conclusões são claras: as 24 horas do dia parecem não ser suficientes para a quantidade de trabalho que existe e ainda assim “há coisas que vão ficar por fazer”; ter um computador ainda é “um luxo” para as famílias; e o cansaço e o desgaste são mais do que evidentes. Este é o retrato dos professores em teletrabalho.

É desde manhã até à noite e “a cabeça não pára”

“Entre mails, computadores, telefonemas” e “tentar descobrir formas de chegar aos alunos”—  é assim, depois de um riso cansado, que Vanda Maia, professora do primeiro ciclo de uma escola pública, em Queluz, descreve a sua rotina. Um cenário que não difere do de Tânia Figueiredo, professora de português e diretora de turma do segundo ciclo, que trabalha num colégio privado de Lisboa, nem do de Sofia, professora de português e diretora de turma do terceiro ciclo, que leciona numa escola pública da Amadora, perto da Cova da Moura. 

O tempo passa a correr entre planificar a semana, encontrar materiais, preparar aulas, responder a emails de pais e alunos, atender telefonemas, corrigir trabalhos e, claro, dar lições online através de plataformas. O “Zoom”, o “Google Classroom” ou o “Microsoft Teams” são os recursos preferenciais, algo que, para a maioria das sete pessoas com quem falámos, apenas se começou a fazer há cerca de uma semana e meia, ou seja, só no início do terceiro período.

Dentro destas tarefas ainda tem de se encontrar tempo para os filhos e para “tudo o que há para fazer em casa”, como tratar da “roupa” ou fazer “o almoço e o jantar”, explica Patrícia Baptista Coelho, professora titular do primeiro ano de um colégio privado em Cascais. Fernanda Gomes, professora de português e diretora de turma do terceiro ciclo, que leciona numa escola pública perto de Alverca, retrata a mesma situação, explicando que o ritmo de trabalho tem sido “muito intenso”. “Ainda não consegui ler um livro, ainda não consegui ver um filme, eu ainda não consegui ver mais nada”, confessa. Para conseguir descansar um pouco mais, diz que se impôs a “fechar o  computador à meia noite” e ir dormir. “Para mim é muito cedo, porque tenho estado até às três, quatro, cinco”, refere.  

E mesmo quando se decide que o dia de trabalho terminou, a “cabeça não pára”, conta Patrícia, que fica a pensar em métodos alternativos para o dia seguinte, quando sabe que os que utilizou no dia anterior não funcionaram. O mesmo se passa com Sofia, que, mesmo com dois filhos em casa — “uma em idade escolar, no sexto ano, e um pequenino, na pré”— , dá por si a continuar a responder a uns emails nas pausas e a agendar outros para o dia seguinte, durante a noite, quando já só tem o telemóvel na mão. 

O cansaço é mais do que evidente nas vozes destas professoras, mas não é uma condição que apenas surgiu agora —  já vem desde março e tem vindo a acumular-se. 

Entre a decisão do Governo de fechar as escolas e a aplicação efetiva da medida passaram-se três dias em que os professores tiveram de se adaptar a novas formas de ensinar, que incluíam o manuseamento de plataformas digitais — algo que para alguns era um terreno desconhecido. Dez dias depois, os docentes já começavam a revelar um cansaço extremo, segundo sindicatos e diretores escolares.

Para Fernanda, porém, o período mais difícil ocorreu nas férias da páscoa — que decorreram entre os dias 30 de março e 13 de abril. Nos primeiros dias da interrupção escolar, os professores da escola de Fernanda tinham as tarefas “minimamente programadas” para o terceiro período, que iria começar no dia 14 deste mês. Sabiam que poderiam ser necessárias “adaptações”, mas tudo iria ser feito. 

No entanto, quando o agrupamento decidiu que a visualização do “Estudo em Casa” teria de ser incluído obrigatoriamente nos programas escolares, todo o trabalho que já estava feito “teve de ser posto de lado” e a planificação de materiais teve de ser revista. 

Para dificultar ainda mais, só faltava apenas um dia para as aulas do terceiro período começarem e o Ministério da Educação ainda não tinha enviado os conteúdos programáticos do “Estudo em Casa”, apenas a grelha e os horários. Assim, para conseguir cumprir com o prazo lhe tinha sido dado, Fernanda teve de trabalhar até às sete da manhã. “Foi tudo muito stressante. Foram muitas, muitas horas”, conta.

Mas para que melhor se compreenda como é que os professores chegaram até aqui, é importante compreender que medidas é que o Governo tomou quanto à educação desde que a pandemia da Covid-19 chegou a Portugal.

#EstudoEmCasa
créditos: RTP

As medidas do Governo, ponto por ponto

  • O Governo decretou oficialmente o encerramento de todos os estabelecimentos de ensino entre os dias 16 e 13 de abril, renovando depois este estado até ao final do ano letivo para o ensino básico e o alunos do 10.º ano.
  • Com as escolas encerradas, o ensino presencial deu lugar ao não-presencial, ou seja, passou a ser lecionado integralmente à distância. Esta passou a ser a regra para o ensino básico e para o 10º ano do ensino secundário;
  • Está previsto que os alunos no 11.º e 12.º ano, assim como no 2º e 3º ano dos cursos profissionais, regressem às aulas presenciais antes do final do ano letivo. António Costa queria-o a 4 de maio, para garantir a maior normalidade ao ano escolar, o que mereceu contestação, e 18 de maio foi uma data já avançada na imprensa. Não há, porém, ainda uma confirmação: teremos de esperar até 30 de abril, dia em que serão anunciadas as medidas de retoma.
  • Se houver reabertura, os alunos terão apenas presencialmente aulas das 22 disciplinas sujeitas a exames nacionais e o acesso aos estabelecimentos de ensino será feito com o uso de máscaras e garantindo as distâncias de segurança e higienização.
  • Para preparar esta reabertura, o Governo ordenou às Forças Armadas a desinfeção de perto de 800 escolas secundárias do país;
  • Quer se realizem em ensino presencial ou não presencial, as aulas vão ocorrer à mesma por um período mais alongado, verão dentro. O novo termo estabelecido pelo Governo é a 26 de junho.

De entre as várias iniciativas do Governo, a implementação do #EstudoEmCasa foi uma das mais urgentes e louvadas, e a razão para isso é simples: se nem toda a gente tem computador, então nem toda a gente tem aulas.

Quando “ter um computador é um luxo”, o ensino à distância pode não chegar a todos. Mas têm-se encontrado alternativas

Com a mudança súbita para o ensino não-presencial, o país viu-se a braços com dois dos maiores desafios das aulas à distância, a ausência de meios — equipamento e acesso — e a falta de preparação para o mundo digital.

Sucessivamente adiada, a revolução digital do ensino chegou de forma repentina, apanhando muita gente de surpresa. Os alertas foram dados desde início, tanto pelos presidentes das associações de diretores escolares como pelos representantes das associações de pais, de que havia um grande número de alunos em risco de não assistir às aulas, não só potencialmente afetando o seu rendimento como podendo deixá-los isolados e mais vulneráveis.

No conjunto das professoras entrevistadas pelo SAPO24, há alunos a assistir às aulas no seu telemóvel por não terem acesso a outro dispositivo. Apesar de serem uma minoria, são casos que têm de ser encarados com outro tato.

“Até há dois, três dias atrás, tive um aluno que estava a fazer tudo através do telemóvel da mãe. Até que o telemóvel já não tinha memória para ele e para o irmão, mais para o trabalho da mãe”, conta Patrícia, adiantando que a família conseguiu comprar um computador, mas com ajuda.

Casos semelhantes são relatados por Tânia, Sofia e Fernanda, que tem uma aluna vinda de Angola a frequentar a sua turma. “Ela só tem um smartphone, portanto, é através dele que tem acedido às aulas online e à plataforma, o que dificulta muito a tarefa, porque é um processo mais lento. Ela descarrega os documentos e realiza tudo”, conta a professora da escola de Alverca.

Para casos como estes ou mais graves ainda o Governo, inicialmente, avançou com um conjunto de propostas para tentar minimizar o problema, como a entrega de fichas e trabalhos de casa aos alunos sem acesso às aulas à distância através dos correios e de bolsas de voluntários, ou mesmo o envio de materiais de estudo através de fotografias que podem ser partilhadas em aplicações para telemóvel.

No entanto, procurando medir a real dimensão do problema, foram avançados vários estudos:

  • De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), no ano passado, 80,9% dos agregados familiares tinham acesso a internet em casa, sendo que nas famílias com filhos até aos 15 anos a percentagem subia para 94,5%. Ou seja, mais de 5% dos estudantes com menos de 15 anos viviam em casas sem Internet. Segundo dados de 2018, havia 987704 alunos matriculados no ensino básico, ou seja, calcula-se que haja 50 mil destes estudantes sem acesso à Internet;
  • Um estudo feito pelo Centro de Economia da Educação da Universidade NOVA de Lisboa pintou um panorama mais negro. Realizado durante o final do segundo período, entre 25 de março e 8 de abril, 1586 professores de ensino básico e secundário disseram que 23% dos seus alunos não têm acesso a computador com Internet em casa e o valor passa para 31% se forem considerados apenas alunos da escola pública. Vai ser realizado outro estudo para refletir a realidade deste terceiro período, devendo ser publicado em meados de maio;
  • O professor Arlindo Ferreira, especialista em Estatísticas da Educação, publicou um inquérito realizado dias depois da passagem ao ensino não-presencial, revelando os seus dados que 222 de 970 pais inquiridos não possuíam computador em casa, ou seja, 22% ou perto de um em cada cinco;

Da sua parte, os agrupamentos escolares apressaram-se a fazer levantamentos e a enviar os dados ao Ministério da Educação, que nunca chegou a divulgar números oficiais. Em entrevista à Antena 1, Tiago Brandão Rodrigues apontou os 50 mil alunos sem acesso como um número próximo mas “já desatualizado” devido à “força do trabalho que tem sido feito por autarquias, por privados e pelo Ministério da Educação” para fornecer equipamentos.

Escola Digital para Todos adotada em 50 concelhos do país

Com as escolas fechadas há um mês e meio e com o anúncio do terceiro trimestre em modo remoto, a procura de respostas para o ensino à distância tem aumentado.

Com o terceiro período do ano letivo a ser ministrado à distância para uma parte significativa dos alunos, as plataformas de suporte ao ensino à distância são, atualmente, alvo de interesse redobrado, nomeadamente pelas autarquias. O projeto Escola Digital para Todos, uma solução desenvolvida pela Altice Empresas, está a ser usado em cerca de 50 concelhos.

Santarém, Portimão, Vila Nova de Gaia, Leiria, Coimbra e Viseu são algumas das cerca de 50 autarquias que utilizam a solução de ensino à distância "Escola Remota" no âmbito do projeto Escola Digital para Todos.

A solução era prévia à situação de pandemia mas, no atual contexto, a Altice Empresas em parceria com a EDUBOX adaptou a oferta para  responder de modo eficaz aos diferentes níveis de ensino. Esta solução adequa-se aos vários graus de ensino, do pré-escolar até à universidade com diferentes equipamentos e componentes, consoante o grau de ensino.

No caso do pré-escolar e 1º ciclo, existe a opção de conteúdos programáticos. Uma das apostas passa pelo inclusão de um centro de contacto com atendimento assegurado por 100 professores, para apoio aos pais, alunos e professores.

O esforço a que o ministro da Educação se refere na entrevista prende-se não só com a cedência de computadores que estavam nas bibliotecas escolares — é o caso de Teresa Chagas, professora do primeiro ciclo de uma escola pública de Sesimbra, que teve três alunos a receber computadores Magalhães guardados pela escola —, como também os investimentos que, de norte a sul do país, as autarquias foram fazendo para emprestar equipamentos às famílias, tanto computadores e tablets como acessos à Internet.

Para além disso, também surgiram iniciativas por parte da sociedade civil, tendo várias empresas cedido equipamentos e tendo também sido criadas plataformas como a Student Keep e a Somos Solução para se proceder a doações. Mas o grosso das contribuições tem partido das autarquias, e tais são os exemplos de Portimão e de Leiria. 

Isilda Gomes, autarca à frente da cidade algarvia, conta ao SAPO24 que já foram entregues 200 tablets provenientes das escolas e que outros 700, munidos com acesso à Internet, chegarão em maio. “Aprovámos um fundo municipal de emergência social, no montante de 2 milhões de euros e o valor que estamos a gastar na aquisição destes tablets saiu deste fundo”.

Já no que toca aos “poucos” alunos “que não têm eletricidade em casa”, Isilda Gomes que as “juntas de freguesia estão a levantar as fichas nas escolas e a entregar nas residências”.

Em Leiria, Gonçalo Lopes diz que a sua equipa fez um levantamento “de quantos alunos constam no escalão A e B  (os escalões das famílias mais carenciadas) e quantos é que não tinham PCs [computadores] ou tablets com ligação à Internet para assistir às aulas”, identificando-se 300 casos. Para estes alunos foram disponibilizados computadores de reserva, mas o município também deve fazer novas aquisições.

No entanto, antecipa, outras compras vão ter de ser feitas. “Uma família que tem um equipamento em casa e a mãe ou o pai está em teletrabalho e precisa do computador, se tiver dois filhos, já está desfalcada”, alerta o presidente da câmara leiriense, considerando que ”o ensino à distância não se pode reduzir a uma simples questão que é ter computador em casa. Há aqui uma nova realidade”.

Este é um dos casos em que a estatística oculta problemas bem mais profundos quanto aos meios que as famílias dispõem — se bem que o estudo da Universidade NOVA alude diretamente a essa possibilidade. Outro é o facto destes valores não atingirem o país de forma proporcional. Segundo o Movimento Escolas Sem Amianto (MESA) — que faz parte de um grupo de signatários a pedir um programa nacional de transformação digital na Educação — há enormes disparidades entre as 80 escolas que o compõem. Se no Agrupamento de Escolas da Portela e Moscavide, em Loures, apenas 10% dos alunos não têm acesso a computador, no Agrupamento de Escolas do Catujal-Unhos, situado no mesmo concelho, o número sobe para 75%.

Cláudia, professora de terceiro ciclo de uma escola pública de Alvaldade, em relação a um dos seus alunos dá conta disto mesmo. “Alguns alunos não têm acesso tão facilmente a um computador ou à internet. Parece uma realidade um bocadinho obsoleta, mas não”, indica a professora, lembrando que “há ainda famílias onde ter um computador é um luxo”.

Já Vanda revela outro problema, a própria iliteracia digital dos pais, tornada mais grave quando os seus filhos são demasiado novos para saber manusear tecnologia. “Os meus alunos não conseguem e os pais também não, nem eu explicando, mandando fotos sobre como fazer, não conseguem mesmo”, lamenta a professora da escola de Queluz. Sem computador nem impressora à disposição, os encarregados de educação dos seus alunos têm recorrido ao envio de fotografias para tentar levar o estudo dos filhos a bom porto.

É por isso que, no caso de Leiria, o executivo municipal também está a desenvolver uma outra estratégia que passa por manter “reuniões regulares com as associações de pais para perceber quais são as suas dificuldades”, organizando “seminários para tentar desenvolver esta lógica do digital” e criando “uma linha de aconselhamento com psicólogos e outros profissionais para auxiliar situações em que os alunos e as famílias precisem de apoio”, informa Gonçalo Lopes.

Os depoimentos dos professores vão ao encontro dos dados recolhidos pelo estudo da Universidade NOVA acima mencionado.

Entre 25 de março e 8 de abril, apenas 30% dos docentes inquiridos estavam a dar aulas por videoconferência, sendo este número explicado por uma grande disparidade. Ao passo que 63% dos professores de escolas privadas reportaram estar a lecionar aulas por videoconferência, sendo no grupo dos docentes em escolas públicas, que compõe grande parte da amostra (79%), esse valor cai para 22%.

Para Gonçalo Lima, integrante da equipa do Centro de Economia da Educação da Universidade NOVA que realizou este estudo, é preciso ter em conta que o inquérito foi realizado na véspera das férias da Páscoa, quando a comunidade estudantil foi apanhada de surpresa pelo fecho das escolas.

Como tal, não só é possível que tenha havido bastantes mais videoconferências no ensino privado porque essas escolas “prepararam os professores de tal maneira para fazer essa transição de forma mais veloz”, como “é expectável encontrar um aumento de aulas de videoconferência no ensino público” até ao fim do período, dada a adaptação progressiva a estas ferramentas.

“Aquilo que vimos claramente é que os professores, durante aquele choque inicial no final do segundo período, focaram-se muito em enviar materiais complementares ao estudo”, indica o académico, referindo-se a 85% dos docentes inquiridos informarem que optaram pelo envio de fichas. Outra das opções, menos usada, foram as plataformas de aprendizagem.

Covid-19: Aulas 'online' nos Açores
créditos: EDUARDO COSTA /LUSA

As plataformas de aprendizagem disponibilizaram os seus acessos, mas há quem continue sem as conseguir utilizar

Com as aulas adaptadas ao meio digital, teve de se procurar conteúdos com formatos diferentes. Dada esta necessidade, os professores viram-se obrigados a explorar as plataformas de aprendizagem online de uma forma nunca antes feita. “Não digo que [as] desconhecíamos, mas não estávamos muito habituados a utilizar”, diz Sofia.

Estas plataformas dispõem da digitalização dos manuais, assim como todo um conjunto de conteúdos interativos, como jogos, quizes, vídeos ou fichas. 

A Escola Virtual, da Porto Editora, e a Aula Digital, da Leya são as principais plataformas utilizadas pelas professoras entrevistadas, mas nem todas fazem uso pleno dos recursos que têm à sua disposição. E a razão para tal prende-se com a falta de meios por parte dos alunos e a literacia digital dos pais. 

“Tenho muitos alunos sem quaisquer recursos” e outros “com muitas dificuldades na manipulação de tudo o que é digital”, sublinha Sofia, sendo que, por isso, só utiliza estas plataformas “muito pontualmente”. 

O mesmo acontece com Vanda e com Teresa, que, devido às “dificuldades” e à “falta de conhecimentos” dos pais dos alunos, ou colocam os links já com os conteúdos prontos a visualizar ou utilizam apenas os manuais.

Patrícia não tem o mesmo problema, uma vez que no colégio onde trabalha é obrigatório a subscrição da Escola Virtual no momento da inscrição do aluno. “Isso é uma coisa que eles têm todos”, refere. No entanto, também reconhece que o acesso não é fácil para todos os estudantes do colégio no qual trabalha. Embora só tenha tido um aluno na turma com dificuldades em aceder a um computador, sabe que não é um caso único na instituição. “Eu conheço muito bem a realidade de outros miúdos do colégio privado onde trabalho”, afirma, sem avançar detalhes.

Entretanto, de forma a auxiliar o trabalho dos professores a dar aulas à distância e para suprir algumas falhas na cobertura do sistema de ensino, o Ministério e a Direção-Geral da Educação (DGE) procederam à criação de vários instrumentos:

  • Em parceria com a RTP, foi criada a iniciativa #EstudoEmCasa, uma espécie de retorno à Telescola para transmitir no 3.º período conteúdos programáticos dirigidos aos alunos do 1.º ao 9.º ano. Ocupando parte da programação da RTP Memória, sucedem-se aulas de 30 minutos para as várias disciplinas entre as 9:00 e as 17:50.
  • Foi criada uma brigada de apoio com mais de uma centena de profissionais para recolher e partilhar boas práticas, assim como anotar as dificuldades dos professores no ensino à distância.
  • A Direção-Geral da Educação criou também o website Apoio às Escolas. Este possui orientações para diferentes tipos de atividades e tarefas que os professores podem propor aos alunos, informações sobre vários repositórios de recursos educativos, exemplos de ferramentas de interação e de comunicação, e sugestões de metodologias que possam ser usadas pelos docentes na planificação das aulas.
  • DGE estabeleceu ainda canais de YouTube com vários vídeos destinados aos vários ciclos, do ensino pré-escolar ao secundário, e lançou uma formação sobre o ensino através de meios digitais com a Universidade Aberta e dirigida a diretores escolares e professores;

A nova telescola

Foi para mitigar diferenças no acesso a meios digitais que o Governo optou pela transmissão de aulas em telescola, através do “EstudoEmCasa”, na RTP Memória, ou, como Tiago Brandão Rodrigues lhe chamou aquando da sua apresentação, "um canal do antigamente a tratar do futuro do nosso país".

Estreada a 20 de abril, a iniciativa, porém, foi desde logo concebida como um complemento e não uma alternativa à atividade letiva. “É uma oferta complementar e não substitui o trabalho que os professores vão continuar a fazer", garantiu António Costa, concedendo que "há um conjunto de alunos que não tem acesso as plataformas digitais e por isso era preciso complementar isso com uma oferta que chegasse a todos”.

Para além disso, foi publicada uma orientação pelo Ministério da Educação, indicando que “a cada aluno que recebe conteúdos exclusivamente pela televisão deve ser atribuído um professor mentor, responsável pelo estabelecimento de contacto, individualmente e em parceria com outras entidades da comunidade”. Este professor adicional tem de se certificar que o aluno assiste às emissões e cumpre as tarefas propostas.

Foram várias as autarquias que se mobilizaram para fornecer equipamento informático e de acesso à internet. Aqui segue a listagem de municípios que avançaram com soluções, de acordo com a informação que o SAPO24 conseguiu recolher até ao momento:

AbrantesAlbufeira; Alcanena; Alijó; Almodôvar; Amadora; Anadia; Ansião; Arcos de Valdevez; Armamar; Arouca; Aveiro; Azambuja; Barcelos; Batalha; Belmonte; Borba; Braga; Cadaval; Caldas da Rainha; Caminha; Carrazeda de Ansiães; Cascais; Castelo Branco; Coimbra; Constância; Condeixa-a-Nova; Elvas; Entroncamento; Espinho; Esposende; Fafe; Felgueiras; Ferreira do Zêzere; Fornos de Algodres; Funchal; Gaia; Guimarães; Gouveia; Ílhavo; Lagoa; Lagos; Leiria; Lisboa; Loures; Lousã; Lousada; Mação; Maia; Marinha Grande; Matosinhos; Mêda; Mértola; Mira; Miranda do Corvo; Mirandela; Mogadouro; Montalegre; Nisa; Póvoa do Lanhoso; Proença-a-Nova; Óbidos; Odivelas; Oeiras; Oliveira do Bairro; Ourém; Ovar; Paredes de Coura; Penafiel; Penamacor; Ponte de Lima; Portimão; Reguengos de Monsaraz; Santa Maria da Feira; Santo Tirso; Sardoal; Seia; Sertã; Tomar; Torres Novas; Torres Vedras; Trofa; Valongo; Viana do Castelo; Vila Nova de Cerveira; Vila Nova de Famalicão e Vila Real.

Do lado das famílias, no entender de Jorge Ascenção, presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP), as coisas estão agora “na generalidade, a correr de forma positiva” para 70% a 80% dos agregados familiares, “apesar das dificuldades iniciais”, diz ao SAPO24.

Com a implementação do #EstudoEmCasa, que o dirigente associativo diz já estar a ser incorporado nos planos de estudo e de trabalho de várias famílias e professores, já se “chegou a mais alguns”, mas não a todos. Por isso é que mantém-se a necessidade de soluções complementares.

Jorge Ascenção diz que, mesmo para famílias com acesso à Internet, a utilização de materiais físicos, como fichas, tem sido incontornável, mas também desafiante. “Um dos problemas que nos levantam é que há exercícios propostos, mas depois não há impressora em casa. Fazem-se no caderno, com lápis e papel. Não é preciso dramatizar, é só preciso informar o professor”, considera.

É nessa comunicação, aliás, que recai um dos segredos para que o estudo à distância possa ser bem sucedido.

Entre professores e pais “tem de haver bom senso” porque “não é fácil para nenhuma das partes”

Com os filhos a ter aulas em casa, os pais tiveram de assumir uma presença mais forte na vida escolar, o que não só implica ajudá-los a encontrar informação, fazer trabalhos de casa e tirar dúvidas, como também a estabelecer um contacto mais constante com os seus professores.

Entre emails, telefonemas e mensagens através da aplicação WhatsApp, com dúvidas e esclarecimentos, pede-se “paciência” e “bom senso” — a ambas as partes.

Sandra Rodrigues, professora de matemática não colocada e mãe de duas filhas, uma de dezoito meses e outra de oito anos, Mariana, que estuda numa escola no distrito de Viana do Castelo, explica que a relação que tem com o professor da filha mais velha “é boa”.  

“Quando começou a quarentena, ele criou um grupo no Messenger com os pais e temos falado todos com ele. Tem corrido muito bem”, conta. E tanto enquanto mãe, como professora, Sandra considera que o professor da filha é “muito terra a terra”, dado que diz para os alunos irem com calma, não havendo “problema” se não conseguirem fazer tudo o que lhes é pedido. 

No entanto, também reconhece que “os professores não são todos iguais”. A professora de matemática sabe da existência de turmas onde os professores estão ”sempre a mandar emails e sempre a pedir trabalhos”— o que acaba por deixar os pais “um bocadinho esgotados”.

Quem também não incorre em generalizações é a diretora de turma Tânia Figueiredo. A professora do colégio privado de Lisboa afirma que nota que os pais estão “bastante nervosos”. 

“De repente, tudo é mau, como de repente tudo é bom. Acho que não há um meio termo e acho que muitas vezes o facto de se estar ao computador e de o acesso ao email ser fácil e não haver o confronto entre as duas pessoas faz com que sejam escritas coisas que, se calhar, não se pensou antes de as enviar”, conta.

Porém, diz também que estes casos não são a “generalidade”, tendo em conta que ainda na semana passada recebeu “vários emails e várias mensagens” de pais a agradecer pelo início da aulas online e pelo facto de estarem “mais libertos para fazerem o trabalho deles”.

No fundo,“tem que haver bom senso dos pais e dos professores”, afirma a professora de português de Alvalade, pois: de um lado estão os professores —  que para além de também estarem em casa e terem família, podem ter 150 como 200 alunos, o que, segundo Sofia, faz com que seja “muito difícil estar a responder individualmente a todas as dúvidas de alunos que mandam mails"; e do outro estão o pais — que “também estão em situação de teletrabalho” e se vêm “confrontados” com o facto de os filhos estarem em casa a precisar de apoio nos estudos.

É de referir ainda que há casos ainda mais complicados, em que os pais estão a trabalhar fora de casa, que é o que acontece com a maioria dos encarregados de educação de Vanda, a professora de primeiro ciclo de Queluz. “Os pais trabalham maioritariamente nas obras e as mães em supermercados e em restaurantes que neste momento estão a trabalhar em take-away. Por isso, os miúdos ou ficam com os irmãos mais velhos ou com uma avó, ou com uma tia, ou até com vizinhos”, conta. 

Para Jorge Ascenção, na relação entre professores e encarregados de educação “há pequenas grandes coisas a melhorar”. “E aqui já não é uma questão do problema tecnológico” nem “afeta apenas as famílias desfavorecidas”, acrescenta. De acordo com o presidente da CONFAP, não só é necessário rever programas e modelos de ensino, como também “perceber a importância da família e da escola de serem parceiros de cooperação e de compromisso entre ambos para ajudar as crianças e os jovens”.

Existindo até então uma espécie de divórcio entre a escola e as famílias com guarda partilhada das crianças, neste momento ambas as partes vivem em codependência. Por isso mesmo, o dirigente associativo considera que este período pode ter o condão de operar uma reaproximação através de “uma grande oportunidade de aprendizagem”.

Se por um lado, os professores devem enviar um  plano de trabalho que seja “adequado às condições” de cada família, esta, por outro, “tem de saber respeitar o tempo de trabalho da escola”. Porque tal como um pai não tem o direito de ir tirar o filho da sala de aula, nas atuais condições, também não tem “o direito de retirar o filho da atividade para uma outra coisa qualquer”. No fundo, “isto é uma responsabilidade comum” e para isso é necessário existir “comunicação, diálogo e compromisso”, conclui.

Já no caso extremo de haver alunos que se mantenham incontactáveis, Jorge Ascensão diz que o diretor da escola ”deve sinalizar as Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) que, se necessário for, irão a casa das famílias perceber se se passa alguma coisa”.

Em resposta a um email enviado pelo SAPO24, Rosário Farmhouse, presidente da Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), refere que este órgão “tem mantido uma articulação permanente com as CPCJ locais, através das reuniões de coordenação regional, e tem divulgado orientações e estratégias a adotar face à circunstância em que nos encontramos”.

“As CPCJ têm mantido a sua ação nomeadamente ao nível das diligências que deverão ser articuladas e encetadas a nível local, em estreita articulação com as Escolas e/ou Agrupamentos Escolares, por forma a redimir eventuais situações de dificuldades de acesso a meios de comunicação digitais por parte das crianças e jovens”, informa ainda a nota.

Uns “choram”, outros “escondem-se debaixo da mesa”. O desafio de fazer por um ecrã o que “nunca será igual a uma aula presencial”

Teresa, a professora de Sesimbra, diz que os seus alunos “estão a adorar estar em casa” e tal deve-se ao facto de não estarem tão “sobrecarregados” com atividades. “Eles gostam de não ter que ir à escola, porque sentem que estão mais descansados, que não estão sempre na rua”, explica.  

Embora estejam a gostar de estar em casa e se estejam a adaptar “muito bem a este tipo de aprendizagem”,  não escondem as saudades que já sentem. “Claro que dizem que têm saudades da professora, 'tenho saudades dos amigos', 'tenho saudades de jogar à bola’”, conta.

Tânia também teve uma boa experiência a nível de comportamento, uma vez que nota que os seus alunos de segundo ciclo “estão muito melhor”. “Não interrompem” e estão “mais concentrados”. Na verdade, “os alunos que em sala de aula, geralmente, estavam irrequietos, não paravam, levantavam-se, faziam barulho, interrompiam a aula”, já não o fazem. Claro que continua a acontecer com “um ou outro”, no entanto, “como é uma realidade que eles gostam (…) e gostam de mostrar aquilo que sabem fazer”, estão “melhores”, explica.

Quem não teve tanta sorte com os alunos mais novos, em termos de comportamento, foi Patrícia, cujos alunos estão “mais inquietos”, havendo alguns que se “escondem debaixo da mesa”, outros que “choram” ou que simplesmente se “vão embora”. Sabendo que estar com “25 crianças de seis anos ao mesmo tempo é impensável” por via online, a professora decidiu dar aulas a grupos de quatro, de cada vez. Assim, mesmo que esteja “muito mais horas ao computador”, as crianças são acompanhadas pelos pais durante as aulas. Porém, tal não previne na totalidade faltas de atenção. Os “miúdos estão comigo em Zoom, mas depois aparece o bebé a gatinhar no chão ou aparece o cão, portanto, nota-se mais dispersão”.

No que diz respeito aos alunos de oitavo ano de Sofia, “continuam iguais a si próprios”, havendo alguns que continuam a chegar atrasados, mesmo sem ser necessário sair de casa. “Eu até tenho brincado com eles: mas agora qual foi a desculpa? Foram tomar o pequeno almoço e estava uma fila grande no bar?”, diz a diretora de turma entre risos. 

Colocando as brincadeiras de parte, a professora explica que os seus alunos “continuam um bocadinho com a mesma postura”, ou seja: “os que estavam desmotivados continuam desmotivados, mas têm participado nas videochamadas, através do telemóvel; os outros continuam a trabalhar, mas nota-se claramente ali muita ansiedade, muita pressão, porque têm receio de não conseguirem entregar os trabalhos por causa do tempo”. Esta ansiedade deve-se ao facto de estarem “assoberbados de trabalho”, uma vez que têm 12 disciplinas e uma atividade de cada uma delas para entregar durante a semana.

Cláudia também ensina pré-adolescentes e tem tido as suas dificuldades, uma vez que “uma aula por videoconferência nunca será igual a uma aula presencial”.  

“Por mais que eu tente, por mais que tenha todas aquelas janelinhas à minha frente e que tente que eles estejam atentos, é sempre muito difícil.  Não consigo perceber se o aluno está realmente focado no que estou a dizer ou se poderá estar a abrir outra janela e estar a jogar um jogo”, acrescenta. No entanto, procura “sempre motivá-los da melhor forma”, recorrendo a conteúdos interativos que sejam capazes de “captar a atenção deles”, como um jogo ou um quiz.

Nesta fase, segundo Tânia, o necessário “é que se crie cada vez mais empatia com os alunos”. “Eu acho que eles têm de se sentir compreendidos, principalmente agora, nesta situação, para que tudo se torne exequível”, afirma.

Covid-19: Terceiro período arranca hoje com aulas à distância
Uma aluna do 6º ano da Escola EB2, 3 Conde de Oeiras, faz as tarefas escolares em casa devido à pandemia de coronavírus (covid-19), em Oeiras, 14 de abril de 2020. Com o início do terceiro período regressa o modelo de ensino à distância, uma vez que o executivo decidiu manter a suspensão das aulas presenciais para todos os alunos do ensino obrigatório, admitindo apenas o eventual regresso às escolas dos alunos dos 11.º e 12.º ano, devido à pandemia da covid-19. ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA créditos: © 2020 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Avaliação e progresso, as grandes incógnitas com repercussões futuras

"Avaliação significa avaliação". Estas palavras, proferidas por António Costa no dia em que indicou quais seriam as medidas adicionais a tomar quanto ao terceiro período.

Ao contrário do que foi decidido em Itália e Espanha, onde os executivos optaram por passagens administrativas de os alunos para o ano seguinte, em Portugal manter-se-ia (quase) tudo na mesma: avaliações [curriculares, dispensando exames e provas de aferição para o ensino básico], classificações e, se necessário, chumbos.

Por isso mesmo, o Governo indicou os passos a tomar:

  • Aquando do encerramento das escolas a 13 de março, o Governo enviou um comunicado com orientações. Entre elas, mencionava-se que a “avaliação sumativa do 2.º período” deveria ser “efetuada no período normal, com base nos elementos disponíveis nesse momento” e “no caráter contínuo da avaliação”. As notas acabaram por ser diretamente comunicadas aos alunos.
  • Essa posição transitou para o terceiro período, com o Decreto-Lei n.º 14-G/2020 a garantir a manutenção do sistema de classificações, mas indicando que apenas vai ser considerada a avaliação interna, ou seja, a realizada pelos professores;
  • A avaliação interna será única a ser considerada porque o mesmo decreto cancelou para o ano letivo de 2019/2020 a realização das provas de aferição, dos 2.º, 5.º e 8.º anos de escolaridade; das provas finais do ensino básico, no final do 9.º ano de escolaridade; das provas a nível de escola, realizadas como provas finais do ensino básico e dos exames finais nacionais, quando realizados por alunos internos, para efeitos de aprovação de disciplinas e conclusão do ensino secundário.
  • As únicas provas que serão realizadas serão os Exames Nacionais do 11º e 12º ano, mas estas apenas vão servir excecionalmente como provas de acesso ao Ensino Superior para os alunos a terminar o ensino secundário (são 22 disciplinas, ao todo). Também foram mantidas as provas de equivalência à frequência no ensino básico e secundário, destinadas a alunos externos - por exemplo, aos alunos em Ensino Doméstico.
  • Também as Provas de Aptidão Profissional (PAP), necessárias para conclusão dos cursos profissionais, vão poder ser feitas remotamente.
  • Com a extensão das aulas, os exames foram adiados, sendo que a 1ª fase das provas, marcada para junho, passou a decorrer entre os dias 6 e 23 de julho. A segunda fase ficou para o início de setembro, entre os dias 1 e 7.

A Direção-Geral da Educação, porém, apesar de fornecer um roteiro de princípios orientadores para a implementação do ensino a distância, optou por uma abordagem descentralizada, em que cada agrupamento escolar fica responsável por escolher as suas metodologias e os critérios de avaliação a empregar.

Na secção de perguntas frequentes do website de Apoio às Escolas, o Governo considera que “os princípios da avaliação (formativa e sumativa) em ambiente digital e na modalidade de ensino a distância não são diferentes da avaliação em regime presencial” e que “o mais importante é que a avaliação se centre em ajudar os alunos a aprender melhor, dando-lhes um feedback de qualidade”. A DGE remete ainda os professores à página de metodologias partilhadas. 

Em consonância com estas diretrizes, o primeiro-ministro disse que, apesar do caráter inédito do momento, de que tinha fé na capacidade dos professores para avaliar os alunos, já que "ninguém melhor que o professor conhece os seu alunos e o conjunto do seu percurso educativo". "As escolas que têm o registo do percurso educativo [do aluno], o professor que trabalhou presencialmente dois períodos letivos com o aluno está em melhores condições do que qualquer outro para poder avaliar (...) e poder ter em conta aquilo que foi efetivamente uma má evolução ou uma evolução condicionada pelo facto das aulas serem desenvolvidas à distância", justificou ainda.

No entanto, o consenso generalizado junto das professoras entrevistadas pelo SAPO24 é de incerteza quanto aos processos de avaliação, não tendo ainda um critério estabelecido que seja adequado ao modelo de ensino à distância. Como tal, também torna-se árduo verificar se os alunos estão a progredir na sua aprendizagem.

“O progresso é muito difícil de analisar, porque a única coisa que temos estado a fazer são revisões, é muito difícil. Não estamos numa sala de aula”, diz Tânia. “Eu ainda não dei nenhum conteúdo novo e se calhar não vou dar”, confessa a professora da escola pública de Queluz, “porque eles são meninos pequeninos, já têm dificuldade em aprender na sala, muito mais à distância”.

Patrícia ecoa as suas palavras: apesar de ter um grupo que sente estar “claramente a evoluir”, a docente tem outros alunos a passar dificuldades. Para esses casos, a professora diz que o que está “a fazer a todo o custo é que se eles não conseguem evoluir, pelo menos não percam o que já estava adquirido”.

Já Fernanda diz ter a “consciência” de que os seus alunos “se calhar não vão conseguir abranger todos os conhecimentos que teriam em sessões presenciais”, mas considera que, para já, “é muito prematuro quantificar”. Cláudia, por seu lado, diz que o seu corpo docente está apenas “a reunir o material, os trabalhos, as tarefas daquilo que os alunos vão fazendo e depois vamos posteriormente tentar chegar aqui a um consenso para ver qual é a melhor forma de avaliar estes alunos, de forma a que ninguém fique prejudicado”. Como exemplo, a docente recorda que, nos casos dos alunos sem computador, é preciso “bom senso” pois “alguns fazerem as tarefas a um ritmo mais lento, mas desde que façam já é um material que nós temos para posteriormente avaliarmos”.

Há lacunas, no entanto, que considera como inevitáveis. “Muitas dúvidas devem ficar por esclarecer”, diz, não por “falta de comunicação”, mas porque o meio virtual não permite ao professor compreender se o “aluno não percebeu” algo da mesma forma como o faria pelo meio presencial. Patrícia segue a mesma batuta: “É mesmo bom não termos ilusões. Há coisas que vão ficar por fazer”.

Por isso mesmo, são muitos os professores que já começam a preparar-se para ter de recuperar o tempo perdido no próximo ano letivo. Tanto Vanda como Patrícia e Cláudia assumem o compromisso de regressar à matéria que poderá ficar por lecionar este ano.

No entanto, o que aflige Sofia é um pouco mais urgente: acompanhando uma turma de oitavo ano para o último patamar do terceiro ciclo, esta professora teme que vá “ser muito complicado no próximo ano letivo”. “Esta é uma turma que vai fazer exame no próximo ano e não sabemos muito bem como é que vai ser, porque vamos ter que recuperar conteúdos, e dar outros que não foram lecionados este ano”, alerta. Por isso mesmo, espera que as provas até lá sejam revistas para salvaguardar as especificidades dos alunos sujeitos às atuais condições.

Em sentido idêntico estão os alunos do 10º do país, que, de acordo com o secretário de Estado da Educação, João Costa, vai ter uma estratégia de “recuperação de aprendizagens" no próximo ano porque o sistema não está a "funcionar bem, nem de forma igual para todos".

O estudo publicado pelo Centro de Economia da Educação da Universidade NOVA de Lisboa reflete parte dessas dificuldades encontradas pelos professores, já que cerca de 19% afirmou não estar a recolher quaisquer elementos de avaliação. Gonçalo Lima, porém, recorda novamente que o inquérito foi feito no final do segundo período, sendo que uma boa percentagem dos professores já estaria confortável com as notas a dar.

No entanto, para o terceiro período, o académico espera que haja mais professores a recolher avaliações, se bem que os métodos é que são uma incógnita. “Eu penso que cada professor estará na melhor posição para avaliar cada um dos seus alunos, já terá uma ideia da capacidade deste”.

Gonçalo e a sua equipa, contudo, estão à espera que, apesar o sistema de retenções ter sido mantido, haja uma quebra. “Aquilo que estamos à espera é que haja uma quebra significativa nos chumbos. Se tal não acontecer é que será surpreendente”, adianta, em parte porque acredita que essa diminuição servirá para atenuar a atual situação, por si só, já complicada para os alunos, e porque pode haver “notas que só reflitam aquilo que os alunos aprenderam durante dois terços do ano letivo, mesmo independentemente da avaliação e dos professores terem essa capacidade para fazê-la de forma justa”.

A questão do chumbos, porém, não é o que realmente inquieta o investigador, mas sim a possibilidade de haver alunos a ficar para trás e dessa eventualidade atingir, sobretudo, crianças e jovens de famílias desfavorecidas. “A nós, equipa de investigação, preocupa-nos os alunos aos quais este tipo de ensino à distância não chegue da melhor forma”, diz Gonçalo Lima, indicando que este é o mais crítico dos pontos a ter em conta em termos de política pública, o de “garantir que alunos não ficam para trás”. Um outro estudo, conduzido por um grupo de investigadores da Universidade de Coimbra, aponta no mesmo sentido.

Aqui incluem-se novamente os estudantes sem acesso a computadores, mas especialmente os dos primeiros anos do ensino primário, “alunos de primeiro e segundo ano que estão a formar uma série de competências fundamentais”. “O background familiar é a variável mais importante para explicar as notas, a aprendizagem, as diferenças entre capacidades de aprendizagem, etc…”, explica Gonçalo Lima.

O que isto significa é que “para algumas crianças de meios socioeconómicos desfavorecidos, especialmente no ensino primário, que é quando a capacidade de aprendizagem é maior e se estão a formar uma série de competências de base, a escola é fundamental para estabelecer o patamar mínimo”. “Se deixar de existir esta capacidade de chegar a estas crianças”, alerta o investigador, “o fosso entre meios sociais vai aumentar significativamente”, pois “enquanto que a algumas crianças os pais lhes lêem em casa e se calhar já sabem ler e escrever, para outras essa não vai ser a realidade”.

Essa é a expectativa do grupo de investigação do Centro de Economia da Educação da Universidade Nova de Lisboa, o que poderá pôr em causa a ideia da escola enquanto o “elevador social” que o ministro da Educação tem referido em entrevistas como necessário de manter.

Outro grupo vulnerável nesta fase, sinaliza Gonçalo Lima, são os alunos nos cursos profissionais, que têm sido ofuscados pela agenda política centrada nos cientifico-humanísticos, apesar das suas avaliações serem ainda mais afetadas pelas contingências do confinamento. “Não nos pareceu claro que tipo de avaliação é que vai ser feita em relação a estes alunos, especialmente no que diz respeito à componente prática”, refere o investigador. Nos decretos, apenas é referido que as escolas têm autonomia para redefinir os critérios de avaliação, tanto nessa componente como na teórica.

Por fim, o académico alerta para a situação dos alunos com necessidades educativas especiais, cuja natureza da pandemia afetou ainda mais a vida escolar, dada a exigência de proximidade física dos professores para melhor acompanhar estes alunos ou mesmo a forma como as atuais ferramentas os excluem.

No inquérito, Gonçalo Lima refere como numa das respostas, uma professora de alunos invisuais tocou no facto destes estudantes não conseguirem aceder ao ensino à distância da mesma forma que os demais, tendo de “enviar materiais por correio para os alunos poderem trabalhar em braille”. 

Jorge Ascensão indica que, da parte da CONFAP, já houve uma tentativa de interceder por este grupo, tendo sugerido aulas por “via de consulta”.  “Em casa não dá porque não é seguro que os técnicos vão a todas as casas. No entanto, se estes estiverem nos seus locais de trabalho que são as escolas, com todas as condições de segurança, e que se faça a higienização de consulta para consulta, é possível levar as famílias de acordo com um plano estabelecido, sob pena de se regredir quanto a tudo o que foi feito até hoje”, diz o dirigente associativo.

Covid-19: Amadora
créditos: © 2020 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

O regresso a uma normalidade que deixou de existir

Nesta altura, ninguém se arrisca a avançar com certezas, a não ser esta: até ao arranque do próximo ano letivo, a doença ainda não terá sido erradicada. Tendo em vista o futuro próximo, nos planos está a reabertura das escolas, para já, para os alunos do 11º e do 12º anos, mas a ideia pode cair por terra caso haja um agravamento da situação epidemiológica.

No entanto, mesmo que se avance com a reabertura, não só os diretores das escolas dizem não ter ainda recebido indicações de como proceder, como já há pais a garantir que os filhos só voltam a passar os portões quando não houver uma vacina para a Covid-19.

É neste clima de incerteza que a comunidade estudantil se vai mover nos próximos meses, existindo também a noção de que a atual crise sanitária foi um catalisador para a digitalização da escola. Segundo António Costa, a escola "já nunca mais será a mesma”, passando a ser “mais digital, onde os recursos digitais vão começar a fazer parte das ferramentas de trabalho do quotidiano entre aluno e professor”.

O Governo, de resto, fez uma promessa nesse sentido, reforçando o intuito que já tinha de tornar universal o acesso à Internet e a equipamentos informáticos aos alunos dos ensinos básico e secundário. A ideia, aliás, que já vinha contemplada no programa de Governo que o PS apresentou nas eleições de outubro de 2019 quanto à “transição para a sociedade digital”.

"É muito mais do que ter um computador ou um tablet. É ter isso e possuir acesso garantido à rede em condições de igualdade em todo o território nacional e em todos os contextos familiares, assim como as ferramentas pedagógicas adequadas para se poder trabalhar plenamente em qualquer circunstância com essas ferramentas digitais", disse primeiro-ministro à Agência Lusa.

No entanto, apesar ser considerado por António Costa um investimento de tal ordem “essencial e uma medida de prevenção do risco de pandemia", não se sabe para já de que forma é que este plano se vai materializar.

Jorge Ascenção considera esta medida já vem tarde. “Um dos aspetos que tirámos daqui é que, de facto, o plano tecnológico e digital que foi anunciado teria sido desejável e necessário que já tivesse acontecido”, aponta o presidente da CONFAP, recordando, inclusive, medidas semelhantes do passado como o projeto Magalhães, no governo de José Sócrates.

“Tem vindo a ser uma situação adiada e agora percebeu-se que não deveria ser”, diz, antes de referir que “também não deveria ser adiada a formação contínua de professores na área digital”.

Da parte das professoras entrevistadas pelo SAPO24, as opiniões dividem-se. Sofia pensa que, com a habitação a estas novas ferramentas “elas vão entrar em força”, tal como Tânia, que julga que a Internet “ajudou a superar expectativas” numa fase complicada. No entanto, Fernanda não tem a certeza se as novas tecnologias vão fazer parte do quotidiano estudantil.

Em espectros opostos estão Teresa e Cláudia. A professora da Escola Básica do Zambujal, no seu entender, pensa que vão a haver novos hábitos mas que, no geral, se vai voltar a um estado pré-Covid. “Acho que os encarregados de educação vão voltar à mesma, que é desresponsabilizar-se e atirarem outra vez o processo de ensino só para cima do professor, porque os pais também têm as suas vidas e acham que a educação é só tarefa do professor. Portanto, eu acho que isso vai voltar à normalidade, infelizmente”.

Já a docente a lecionar no bairro de Alvalade considera que esta foi uma “aprendizagem para todos, para os alunos, para os professores, para os pais”, adiantando que esta exploração, inclusive, também a permitiu crescer. “Acabamos por explorar aqui a parte das novas tecnologias, que é tão importante nos dias que correm e os alunos, cada vez mais, gostam de aulas mais interativas e por isso acho que isto foi uma mais-valia nesse sentido”, diz a professora, vendo aqui uma forma de “quebrar aquelas aulas mais expositivas”.

Algures no centro desta disparidade está Patrícia. Se as tecnologias estavam a ser “uma aposta gradual”, nesta fase “revelaram-se fundamentais”. No entanto, esta professora do ensino privado quer que estes dispositivos técnicos se mantenham como ferramentas e “não como o principal foco do ensino”. “Eu continuo a adorar aquilo que é melhor na relação professor/aluno, que é precisamente a relação que nós construímos e a relação constrói-se uns ao lado dos outros”, defende.

É por isso, que, para si, mais do que a forma como o ensino se vai alterar com a tecnologia, importa voltar a ver caras familiares ao vivo. “Eu acho que a primeira semana vai ser muito estranha. Acho que vai ser assim uma emoção”, antecipa. A ausência de contacto, inclusive, fê-la ter saudades do contacto humano de uma forma que não previra: “Eu sou professora há 25 anos e às vezes saía do colégio a pensar assim: 'ai tão bom este silêncio”. Eu acho que agora vou dar mais valor ao barulho!”


Este artigo contou com o apoio à investigação e redação de Carolina Muralha.

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