O processo de separação foi longo, quatro anos e meio. Desde 29 de Março de 2017, para usar a data em que a Grã-Bretanha invocou o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, a partir dum referendo aos ingleses feito em 23 de Junho do ano anterior.

A generalidade dos analistas acha que a Ilha nunca quis fazer parte do Continente e que, se o fez, foi para melhor controlar a Europa. Esta atitude está maravilhosamente resumida num diálogo da famosa série “Sim, Sr. Ministro”, em que os britânicos mostram que são uns cínicos interesseiros, mas têm um humor inigualável...

Durante estes anos, assistiu-se a um verdadeiro drama shakespereano, ou palhaçada de vaudeville, enquanto os britânicos discutiam entre eles o que deveriam ter discutido antes do referendo: basicamente, qual passava a ser o relacionamento entre as duas partes?

Não vou aqui repetir todos os episódios desta longa jornada, que cobri enquanto ela decorreu. Se não se lembra, ou não tem mais nada que fazer, basta reler os artigos de opinião, que aqui seguem cronologicamente:

Olhando agora, em retrospectiva, parece que não fiz outra coisa...

Mas adiante. Ao fim de dois meses verdadeiramente frenéticos, que tive a delicadeza de não relatar, em parte porque os acontecimentos eram diários, em parte porque, como muito bem dizemos em português, “não há pachorra para estes mete nojo”, no último minuto chegou-se a um acordo. Na verdade, chegou-se a um princípio de acordo, uma vez que desfazer a ligação entre a Grã-Bretanha e a Europa ainda vai levar uns anos e alimentar centenas de burocratas dos dois lados. Muita coisa ficou por decidir. Mas decidiu-se o mínimo para ambas as partes poderem dizer que ganharam com o negócio.

No acordo básico agora assinado, que tem 1.255 páginas, a Irlanda do Norte fica dentro do território britânico, mas tem de obedecer às normas europeias, entre regras de segurança (alimentar, por ex.) e subsídios estatais às empresas (proibidos na EU). Este último ponto, que Londres não pode subsidiar empresas privadas, não ficou muito bem esclarecido e será objecto de negociações posteriores.

As três questões críticas eram a igualdade de acesso aos mercados, governação (as tais leis de apoio a empresas e diferenças fiscais) e... pescas. Sim, pescas, uma indústria que corresponde a menos de 0,5% do PIB europeu, mas que envolve muita peixeirada entre ingleses e franceses quanto ao uso das águas do canal.

As duas partes chegaram a acordo em áreas como os controlos fronteiriços para animais, plantas e produtos derivados; o comércio de carne e outros produtos alimentícios para supermercados; o fornecimento de medicamentos; e os limites à ajuda estatal a sectores da economia. Mas ficaram de fora dois pontos que ainda vão fazer correr muita tinta: os direitos de pesca em águas britânicas e a ordem jurídica competente para julgar possíveis conflitos entre as partes, se os tribunais ingleses, se os europeus.

Na questão irresolúvel da Irlanda do Norte, Johnson acabou por ceder: haverá uma fronteira para certos produtos entre a ilha da Irlanda e a ilha da Grã-Bretanha.

A necessidade de regular tantos pormenores levou a várias situações caricatas, como o facto de não poderem entrar na ilha productos lácteos e animais – ou seja, os motoristas que farão o percurso entre Calais e Dover não podem levar uma sandes mista...

Aliás, nesta primeira fase os motoristas serão os mais prejudicados, pois não só não poderão transportar as suas refeições como terão de esperar horas para tratar da papelada que se torna necessária. Além da carne e do leite, também foram afectados pela medida todos os produtos derivados, como patês, enchidos, manteiga ou iogurte. A norma prevê excepções, como o leite em pó e a comida para bebés, o mel e os alimentos especiais para animais domésticos, com um limite de dois quilos por pessoa. Os produtos de pesca (frescos ou preparados) estão autorizados, com um limite de até 20 quilos por pessoa. E os artigos de pastelaria, biscoitos e doces estão isentos. "Todos os produtos animais que não estejam conforme essas regras terão que ser entregues na chegada à UE para a sua eliminação oficial", sob pena de uma multa ou acções judiciais, segundo o regulamento europeu. Por estes pormenores, já se está a ver o pesadelo para os fornecimentos através do canal.

Mais uma vez, pergunta-se para que serve o Brexit. O argumento inglês “retomar o controle do país” (“Take back control”), que projectou a vitória do Brexit, não é argumento nenhum, uma vez que para negociar com o Continente os ingleses têm de obedecer às normas europeias, enquanto, por outro lado, ao saírem de Bruxelas perderam a capacidade de influenciar essas normas. Tão simples como isto.

O jornal conservador inglês “Economist” reconhece que, embora os dois lados tenham cedido, os britânicos ficam a perder. Resumindo, diz o jornal: “A UE acredita que tem poder de compra suficiente para travar divergências regulatórias, embora em Londres se considere que essa divergência foi uma das razões principais para o Brexit.”

O facto é que a Grã Bretanha precisa muito mais do Continente, do que o Continente pode perder com a saída da Ilha do seu mercado. Mas ainda falta decidir tanta coisa, que só nos próximos anos se verá quais os resultados práticos desta obsessão nacionalista britânica. Certo é que terão menos vantagens do que a UE a negociar com terceiros. E resta saber como reagirá a Escócia, que já mostrou desejar a independência para voltar a integrar a UE. Resta saber tanta coisa! As discussões serão intensas, alínea a alínea, com altos e baixos. Tudo indica que vou escrever muitos artigos sobre este fim inglório do Império Britânico.

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